Coluna Fragmentos: A verticalização urbana ponta-grossense
A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Até bem pouco tempo era bastante incomum a construção de edificações com mais de dois pavimentos fora da área central de Ponta Grossa. Bairros como a Nova Rússia, Uvaranas, Oficinas, São José, Jardim Carvalho e Olarias se caracterizavam como espaços residenciais nos quais a existência de prédios estava longe de se tornar uma realidade.
Porém, tal situação mudou consideravelmente a partir dos anos finais do século XX. Desde a década de 1990, por sua localização e infra-estrutura privilegiadas, esses bairros passaram a atrair o mercado imobiliário, produzindo um duplo efeito: por um lado, a valorização dessas regiões; por outro, a perda de privacidade por parte daqueles que possuem imóveis contínuos aos prédios.
A verticalização apresenta-se como um processo inevitável em cidades – como Ponta Grossa – que não são planejadas, que possuem uma mancha urbana extensa e que, por conta disso, convivem com problemas como a permanente necessidade de ampliação da rede de água e esgoto, melhoria no transporte coletivo urbano, implantação de postos de saúde e escolas pelas periferias.
A rigor, as sociedades modernas desenvolveram uma cultura na qual a verticalização urbana aparece como um processo “natural” e “saudável” a partir de questões estéticas, de segurança, higiene, sofisticação e racionalização das formas e dos comportamentos urbanos.
Ao estudar a verticalização em Ponta Grossa, a geógrafa Cicilian Löwen Sahr (DEGEO-UEPG) afirma que em nossa cidade esse fenômeno ocorreu a partir de diferentes fases e que, em muitos casos, está relacionado a ocupação de espaços provocados pela demolição de construções antigas, o que acaba resultando em uma perda de referenciais físicos e identitários na cidade.
As pesquisas realizadas pela geógrafa da UEPG indicam a década de 1940 como o momento em que teve início a verticalização ponta-grossense. Foi nesse período que se construíram as primeiras edificações com quatro ou mais andares na cidade. Até a década de 1960 a verticalização em Ponta Grossa limitou-se a área central e ocorreu de forma lenta. Tal cenário alterou-se rapidamente a partir do início dos anos 70, período de crescimento da economia brasileira e de acentuado desenvolvimento econômico de Ponta Grossa com a fase do PLADEI e da implantação das grandes indústrias beneficiadoras de grãos na cidade. Até esse momento, a verticalização atendia predominantemente aos segmentos com maior poder aquisitivo, panorama que se alterou de forma rápida desde meados da década de 1980.
Desse momento em diante, o que se viu foi a expansão dos edifícios pelas áreas próximas ao centro da cidade e a diversificação do perfil social dos moradores. Conjuntos habitacionais, como o Raul Pinheiro Machado, o Antares e o Acácia, simbolizam bem a expansão da verticalização e a pluralização social de seu uso.
Já no século XXI, parece ser possível falar de uma nova fase no processo de verticalização em Ponta Grossa. Nesse cenário, talvez a Nova Rússia ocupe papel exemplar. Nos últimos anos o bairro assistiu a construção de, pelo menos, três edifícios com oito ou mais andares, voltados para atender segmentos com maior poder aquisitivo.
As transformações físico-espaciais pelas quais uma cidade passa, expressam mudanças sociais, econômicas e comportamentais. Portanto, a expansão da verticalização em direção as regiões próximas ao núcleo central de nossa cidade não deve ser compreendida como um fenômeno “natural”, e sim como efeito da ação, dos interesses e das necessidades humanas no uso de um determinado espaço físico.
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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.
Publicada originalmente no dia 25 de outubro de 2009.
Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.





















