Coluna Fragmentos: Identidade, tradição e cultura | aRede
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Coluna Fragmentos: Identidade, tradição e cultura

A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Coluna do CTG Vila Velha, publicada no JM em 01 de julho de 1962
Coluna do CTG Vila Velha, publicada no JM em 01 de julho de 1962 -

João Gabriel Vieira

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Atualmente estima-se que o Paraná possui mais de 150 Centros de Tradições Gaúchas espalhados por seu território. Isso certamente intriga muita gente que se pergunta sobre os motivos da existência de um considerável número de CTGs em terras paranaenses.

É certo que o Paraná nasceu muito depois do Rio Grande do Sul. Enquanto nosso estado foi oficialmente criado em 1853, é possível dizer que o Rio Grande se constituiu como uma unidade (política, social e econômica) ainda no período colonial. Além disso, o fato de existirem acirradas disputas entre portugueses e espanhóis pelo domínio das terras gaúchas fez com que aquele território nascesse fortemente marcado pelo sentimento de luta, de resistência e de amor pela terra conquistada.

Isso pode ser compreendido como um dos elementos determinantes para o fortalecimento ou predomínio de uma matriz cultural e identitária gaúcha sobre os três estados do sul do Brasil. Um processo de formação de identidade regional se estabelece a partir da construção de figuras, símbolos e mitos específicos. A definição de região é algo que ultrapassa o aspecto físico: o modo de vida, os valores, as tradições forjadas ao longo dos anos, a presença de “heróis” e de “homens comuns” típicos são elementos determinantes nesse processo.

No caso do sul brasileiro, em razão de sua formação histórica, o Rio Grande inegavelmente pode ser compreendido como um estado que construiu uma clara identidade própria e, sem dúvida, foi o que melhor soube como fortalecer tal identidade no imaginário coletivo regional. Isso não significa que Santa Catarina e Paraná não possuam identidades próprias, mas que a cultura e a identidade gaúchas encontraram ressonância sobre as populações destes estados.

Talvez isso explique a presença dos CTGs e de outras manifestações originárias da cultura gaúcha nos Campos Gerais. Assim como ocorre, via de regra, em todo o Brasil, a mescla cultural, a ressignificação e reelaboração de rituais, símbolos e mitos, está presente no Paraná. É a tal “antropofagia cultural” a que se referia o modernista Oswald de Andrade nas primeiras décadas do século passado.

Desta forma, há uma diferença essencial entre a presença de traços da cultura, da identidade e da tradição gaúcha em solo paranaense quando comparados, por exemplo, aos rodeios nos moldes dos realizados nos Estados Unidos e – lamentavelmente – “importados” para o nosso país. Na história brasileira quem está presente é o ginete e não o cowboy; é o rodeio baseado no doma do animal pela necessidade da sobrevivência na pampa e não pelo premio em dinheiro; é a pajada e a milonga gaucha (sem acento mesmo, referindo-se ao gaucho, ou seja, o típico morador da pampa sem fronteira do sul) e não um arremedo de música country que cotidianamente espanca nossos ouvidos através das rádios e dos programas de TV ou, o que é pior, dos potentes auto-falantes da rapaziada que se acha “moderna” mas que geralmente desconhece sua própria história.

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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.

Publicada originalmente no dia 04 de outubro de 2009.

Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

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