Coluna Fragmentos: Campo ou cidade? | aRede
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Coluna Fragmentos: Campo ou cidade?

A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Em 14 de junho de 1978, uma equipe de reportagem do JM flagrou cavalos pastando tranquilamente na Rua Brasílio Ribas, no centro de Ponta Grossa
Em 14 de junho de 1978, uma equipe de reportagem do JM flagrou cavalos pastando tranquilamente na Rua Brasílio Ribas, no centro de Ponta Grossa -

João Gabriel Vieira

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As origens dos Campos Gerais do Paraná estão associadas ao universo rural, a vida nas fazendas, a doma de muares e ao poder do latifúndio. Tal configuração é comum à própria história brasileira, uma vez que até meados do século XX a maioria da população nacional ainda estava mais concentrada no campo do que na cidade.

Desde o século XVI, quando teve início a colonização portuguesa no Brasil, com raríssimas exceções a nossa economia esteve associada as atividades agrárias, o que contribuiu decisivamente para o fortalecimento da predominância política, econômica e social dos proprietários de terra. Dessa realidade decorre, por exemplo, a secular prática do coronelismo, ou seja, o exercício arbitrário do poder por parte dos latifundiários espalhados pelo território brasileiro.

Em razão dessa origem agrária brasileira, pelo menos até os Oitocentos, as poucas cidades espalhadas pelo território nacional nada tinham a ver, por exemplo, com as cidades européias daquele período. Tímidos vilarejos nos quais as práticas socioculturais em quase nada diferiam daquelas praticadas “no campo”, muitas cidades nasceram para atender as demandas dos latifúndios que as cercavam, não possuindo vida própria e rendendo-se, politicamente, ao mando dos fazendeiros regionais.

O registro sobre a falta de conforto, civilidade e de princípios básicos de urbanização nas cidades brasileiras das épocas da colônia e do império pode ser encontrado nos textos produzidos por viajantes (europeus e nativos) que percorreram as diferentes regiões brasileiras entre os séculos XVI e XIX.

No caso dos Campos Gerais, os Oitocentos foram ricos no que diz respeito a passagem de viajantes e na produção de impressões destes sobre a região. Desde o lapeano José Salvador Correia Coelho, até os europeus August de Saint-Hilaire e Thomas Bigg-Wither, todos deixaram minuciosos textos que nos dão uma idéia sobre as limitações regionais e do seu acanhado “universo urbano”.

No caso de Ponta Grossa, o encontro entre os universos rural e urbano é uma tradição que remonta as origens da cidade. Do povoado que surgiu para atender as necessidades dos fazendeiros que ocuparam as terras ao seu redor, até a cidade pujante e urbanizada do início dos Novecentos, nunca houve uma ruptura clara entre esses dois mundos. Basta lembrar que na origem dos três bairros a partir dos quais a cidade desenvolveu sua estrutura urbana (Nova Rússia, Oficinas e Uvaranas) encontram-se chácaras e pequenas propriedades que, ao mesmo tempo, estão situadas no espaço urbano e possuem um cotidiano rural. 

Desta forma, a partir do início do século XX, a produção de gêneros alimentícios, a criação e a utilização de animais eram práticas que conviviam e dividiam espaços com os trens, as fábricas, as praças urbanizadas, os cinemas e os automóveis. Ao mesmo tempo, práticas e rituais caracteristicamente urbanos eram tão válidos na cidade quanto as crenças e os valores originados no meio rural.

Já no final da década de 1970, o JM “denunciou” a presença de animais que transitavam livremente pelas ruas centrais da cidade e criticou a deficiência dos serviços públicos de vigilância e saneamento, expondo uma das práticas que se originaram desse encontro entre o campo e a cidade, e que revelam um dos traços característicos da urbanização ponta-grossense e brasileira: a convivência entre o rural e o urbano.

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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.

Publicada originalmente no dia 20 de setembro de 2009.

Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

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