Coluna Fragmentos: Bruno Ennei: um humanista! | aRede
PUBLICIDADE

Coluna Fragmentos: Bruno Ennei: um humanista!

A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Em 15 de outubro de 1966, o JM publicou a notícia sobre a realização de uma palestra de Bruno Ennei em homenagem ao dia do professor
Em 15 de outubro de 1966, o JM publicou a notícia sobre a realização de uma palestra de Bruno Ennei em homenagem ao dia do professor -

João Gabriel Vieira

@Siga-me
Google Notícias facebook twitter twitter telegram whatsapp email

Em “O Poder Simbólico”, livro publicado no final da década de 1980, o sociólogo Pierre Bourdieu definiu como “capital simbólico” aquilo que comumente é reconhecido como prestígio, reputação ou fama. Para Bourdieu, as pessoas que – em um determinado conjunto social – são detentoras desse “capital” acabam exercendo uma forma de poder (definido por ele como “poder simbólico”) quase natural e legítimo.

Tomando por base a reflexão produzida pelo sociólogo francês, a figura de Bruno Ennei, ítalo-paulista que se radicou em Ponta Grossa nos meados do século passado (1952-1967), exemplifica com exatidão o conceito de alguém que, por sua capacidade intelectual e profissional, adquiriu enorme “capital simbólico” perante a sociedade ponta-grossense.

Filho de lavradores italianos, Bruno Ennei nasceu em Barra Bonita, interior de São Paulo, em 1908. Ainda criança, foi levado para a Itália para que pudesse estudar. Após cursar o ginasial e o colegial na cidade de Gubbio, formou-se em Letras e Filosofia na Universidade de Pisa e, em 1936, defendeu Tese de Doutorado em Literatura Italiana pela Universidade Régia de Florença.

Em 1939, Bruno casou-se com Maria Biancarelli, professora de Letras Clássicas da Universidade de Roma. Naquele mesmo ano teve início a II Guerra Mundial, e o casal Ennei engajou-se no movimento antifascista. Bruno teve militância intensa: participou de diversas ações armadas, inclusive a libertação de Gubbio dos fascistas; foi ferido por 2 vezes; dirigiu o jornal “Il Coriere de Perugia”, órgão do Comitê de Libertação e Resistência. Por conta disso, após o término da Guerra, recebeu 2 condecorações do Exército italiano.

Em 1951, Bruno e Maria decidiram deixar a Itália. O destino foi o Brasil. No ano seguinte, fixaram residência em Ponta Grossa, onde passaram a trabalhar como professores na (então) recém criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras – FAFI. Logo o casal angariou grande prestígio e respeito junto à comunidade ponta-grossense em razão do conhecimento e competência acadêmica demonstrado durante as aulas.

Até sua morte, em 1967, Bruno Ennei desenvolveu uma intensa atividade intelectual e acadêmica e, por conta disso, ganhou projeção nacional.

Mas certamente, além do aspecto intelectual, o que mais marcou a passagem de Bruno Ennei em Ponta Grossa foi sua visão humanista! Assim como a sua eterna companheira, Maria, ele ficou conhecido pelo seu engajamento permanente com as causas humanitárias, por sua intransigente defesa aos princípios éticos, pela liberdade do pensamento e pela busca incessante do conhecimento – fosse ele acadêmico ou popular. A história de vida do casal Ennei não pode ser compreendida, tampouco contada, fora desse conjunto de valores. Figuras próprias de um rico e complexo momento na História, no qual as utopias estavam vivas e faziam sentido; em que as guerras (como a II Guerra, a Guerra da Coréia, da Argélia e do Vietnã) levaram a morte milhões de pessoas; em que a miséria humana (no sentido amplo do termo) atingiu níveis até então inimagináveis; em que o sonho de transformação do ser humano quase se fez verdadeiro através das palavras e atos de um Luther King, Sartre ou Gandhi. Bruno e Maria Ennei viveram esse tempo e foram seus representantes mais do que legítimos em Ponta Grossa.

.

O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.

Publicada originalmente no dia 13 de setembro de 2009.

Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

PUBLICIDADE

Conteúdo de marca

Quero divulgar right