Coluna Fragmentos: O “J´accuse” ponta-grossense | aRede
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Coluna Fragmentos: O “J´accuse” ponta-grossense

A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Em 20 de junho de 1957, a primeira página do JM trouxe o artigo “Nós Acusamos”, expondo o embate entre o jornal e o prefeito municipal José Hoffmann
Em 20 de junho de 1957, a primeira página do JM trouxe o artigo “Nós Acusamos”, expondo o embate entre o jornal e o prefeito municipal José Hoffmann -

João Gabriel Vieira

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Em 1898 Émile Zola, um dos mais ativos escritores que a literatura francesa já produziu, provocou um grande debate no seu país ao publicar, no jornal literário L´Aurore, um artigo – endereçado ao presidente Félix Faure – intitulado “J´Accuse” (Eu Acuso).

O texto, caracterizado pela objetividade e pela veemência das palavras, foi escrito por Zola com o objetivo de denunciar a injustiça que havia sido cometida contra Alfred Dreyfus, um oficial do exército francês acusado e condenado por traição pelos seus superiores.

Ao apresentar publicamente o caso e denunciar a corrupção do exército e também do sistema judiciário do país, Émile Zola inflamou a opinião pública e o debate político francês na virada do século XIX para o XX. Apesar de conseguir a revisão do caso e, mais tarde a absolvição de Dreyfus (em 1906), o escritor pagou um alto preço por sua coragem. Zola acabou processado por difamação ao Estado e condenado a um ano de prisão. Até sua misteriosa morte, em 1902, foi perseguido por radicais nacionalistas e por membros de grupos anti-semitas franceses.

Claramente inspirado no texto escrito pelo intelectual francês nos fins do século XIX, Heitor Ditzel, um importante personagem no universo jornalístico e político ponta-grossense de meados do século XX, produziu um artigo denominado “Nós acusamos”, que – a exemplo do “J´Accuse” de Émile Zola – tinha como características a manifestação do descontentamento e também um forte tom de denúncia política. Nesse caso, o “denunciado” era o prefeito de Ponta Grossa, José Hoffmann, principal adversário político de Petrônio Fernal, advogado mineiro radicado em Ponta Grossa que, em 1954, fundou o Jornal da Manhã e que ocupou o Executivo municipal na primeira metade daquela década.

O autor da matéria, Heitor Ditzel, foi um destacado intelectual ponta-grossense daquele período, ocupando um importante espaço na vida política e no jornalismo local. Eleito vereador por diversas vezes, chegou a ocupar, provisoriamente, o cargo de prefeito em 1951 após a renúncia de João Vargas de Oliveira e antes da posse de Petrônio Fernal. Em sua função de redator do JM, coube à Ditzel a missão de produzir diversos textos políticos e de enfrentar José Hoffmann, um dos mais talentosos políticos que Ponta Grossa já produziu.

Em “Nós acusamos”, Heitor Ditzel buscou inspiração na estratégia discursiva adotada por Zola durante o caso Dreyfus. Em termos de estrutura, após uma breve introdução que termina com “O Jornal da Manhã ACUSA”, todos os parágrafos seguintes iniciam com a frase “O Senhor Prefeito Municipal José Hoffmann de”, seguida de uma acusação.

Entre as acusações contra Hoffmann estavam a suposta utilização do Diário dos Campos como veículo de propaganda política; a promoção de agitações sociais que iam contra a índole do “povo pacato da cidade de Ponta Grossa”; o emprego de um “comunista confesso e agitador profissional” para manipular as populações da periferia local; o enfrentamento à Câmara e a tentativa de intimidação dos vereadores; o uso de veículos oficiais para transportar aliados políticos e o desejo de ampliar, contra a vontade do povo, o Cemitério Municipal em direção ao Largo Professor Colares.

Assim, como no caso francês, a disputa política ganhava a dimensão pública. Os artigos publicados tanto no Jornal da Manhã quanto no Diário dos Campos, ao mesmo tempo que, informavam os leitores, explicitavam o embate no campo da política e simultaneamente construíam interpretações próprias a respeito dos acontecimentos que faziam parte do cotidiano local naqueles tempos.

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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.

Publicada originalmente no dia 14 de junho de 2009.

Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

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