Coluna Fragmentos: O retrato dos mortos
A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Apesar da máquina fotográfica ter surgido apenas no século XIX, a idéia do registro e gravação de imagens acompanha a humanidade desde seus primórdios. Pelo menos até meados dos Novecentos, em razão de seus altos custos e de suas limitações técnicas, as fotografias eram extremamente valorizadas. Diferente das atuais fotos digitais, um “clique” errado do retratista significava prejuízo na certa.
Entre as cenas típicas das fotografias produzidas até a década de 1950 estavam as clássicas imagens das famílias charmosamente postadas nos estúdios fotográficos (geralmente o patriarca ao centro, ladeado por esposa e filhos), os cenários urbanos (imagens de ruas, praças, igrejas ou edificações imponentes) e as festas públicas (como o carnaval, desfiles cívicos, procissões e celebrações religiosas).
Além disso, o registro fotográfico de pessoas mortas, muitas vezes dentro do próprio caixão, era bastante comum. O que hoje pode parecer tétrico, até bem pouco tempo podia significar o último ou mesmo o único registro imagético do ente que partia. A produção da imagem post-mortem era um costume encontrado em países como a França, Portugal, Espanha, Alemanha, Estados Unidos e, na prática, significava uma homenagem aos falecidos.
No caso brasileiro, sabe-se que era comum colocar o caixão em pé e aberto para que se fizesse a última fotografia do morto a qual ficava de recordação entre os familiares mais próximos e também era enviada para os parentes distantes.
Geralmente procurava-se fotografar a pessoa nas horas seguintes à morte, ainda fresca. Muitos retratistas contavam com vários cenários especialmente produzidos para fotografar defuntos. O pior era quando a pessoa já estava em rigor mortis, o que exigia muita habilidade para “disfarçar” a situação. Para tanto os fotógrafos se valiam de calços, sombras, suportes de madeiras sob as roupas, cadeiras inclinadas etc., tudo com objetivo de dar um ar natural ao registro da imagem. O mais surpreendente é que muitas vezes os cadáveres ficavam com uma expressão natural, quase como se estivessem vivos.
Também era comum a junção de vivos e mortos numa mesma imagem. Existem vários retratos de grupos de pessoas nos quais algumas estão vivas e outras não. Nesses casos, a produção costumava ser tão perfeita que era muito difícil descobrir quem era estava vivo e quem era o falecido!
Ao estudar as representações sobre a morte, o historiador francês Jacques Le Goff concluiu que as fotografias de mortos se constituem em importantes suportes da memória coletiva nos séculos XIX e XX. Muitas fotografias de mortos e de velórios eram propositalmente alteradas. A inserção de um membro da família que não pode comparecer ao guardamento ou o trabalho de colorir uma imagem originalmente feita em preto-e-branco eram práticas bastante comuns em ateliês que pintavam retratos.
Os acervos fotográficos existentes em Ponta Grossa, como os da Casa da Memória, do Museu Campos Gerais e do Centro de Documentação do Departamento de História da UEPG, indicam que a tradição da fotografia dos mortos nos Campos Gerais pode até ter perdido força nos últimos anos, mas mostram que tal prática foi, durante muitas décadas, bastante intensa em nossa região.
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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.
Publicada originalmente no dia 13 de julho de 2008.
Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.





















