Coluna Fragmentos: O paranista Bento Munhoz da Rocha
A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

A criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Paraná, em 1938, correspondeu à integração orgânica de um grupo de intelectuais paranaenses – Omar Gonçalves da Mota, Carlos de Paula Soares, Homero de Barros – que academicamente passou a sistematizar as primeiras discussões relativas à identidade paranaense.
Estado jovem, constituído por uma população bastante heterogênea e caracterizado como região de passagem ou ligação entre o extremo sul e o centro do país, o Paraná, até 1930, ainda não havia completado plenamente sua formação territorial e demográfica. Desta forma, uma identidade estadual também não estava definida.
Contudo, foi na década de 1950 que as reflexões sobre identidade ganharam maior destaque no estado. Em 1953 o Paraná comemorou, com efusividade, o seu centenário de criação, tendo o governador Bento Munhoz da Rocha Neto um papel central nesse processo.
Filho e genro de ex-governadores do estado (Caetano Munhoz da Rocha e Affonso Camargo, respectivamente), Bento derivava de uma linhagem política destacada, e quando fora eleito governador (gestão 1950 – 1955) já era considerado um dos mais promissores intelectuais das tradicionais elites políticas paranaenses.
Naquele período, o estado vivenciava tanto a expansão do norte pioneiro (colonizado principalmente por paulistas), como das regiões oeste/sudoeste (com forte presença de catarinenses e gaúchos). Tal configuração motivou, inclusive, movimentos separatistas que desejavam criar o território do Iguaçu e o estado do Paranapanema.
Além das medidas políticas, Bento reagiu às tentativas de divisão do território paranaense com um discurso de tonalidade “paranista”. Seu objetivo não era outro a não ser o de fortalecer uma identidade coletiva baseada no princípio de que “paranaenses são todos aqueles que vivem e amam o rincão paranaense. Paranaenses são todos aqueles brasileiros que vieram de outros estados como também estrangeiros” (trecho de um discurso proferido por Bento em 1952).
Essa premissa, que teve sua origem nas palavras de Bento, ganhou destaque a partir da obra clássica “Um Brasil Diferente” (1955) de Wilson Martins, amigo do governador Munhoz da Rocha e um dos principais intelectuais brasileiros daquele período.
A obra de Martins reforçou o mito de um estado pujante, branco, de matriz dominantemente européia e, sobretudo, civilizado, o qual estava em vias de se consolidar como um dos responsáveis pelo desenvolvimento nacional na segunda metade do século XX. Ao longo do tempo, “Um Brasil Diferente” sofreu inúmeras críticas: a demasiada exacerbação a importância da presença européia (principalmente a germânica), a minimização da importância do português e a ausência de referências ao passado escravocrata paranaense, foram os pontos mais debatidos por sociólogos, antropólogos e historiadores que estudam o estado.
Indiferente disso, o texto produzido por Martins foi importante no sentido de consolidar e disseminar junto aos meios intelectuais e a opinião publica paranaense o sentido de identidade coletiva baseada mais na multiplicidade étnica do que propriamente na naturalidade dos habitantes do estado e na perspectiva inexorável de um Paraná voltado para o futuro e para desenvolvimento econômico e social.
Em 1965, Bento Munhoz da Rocha Neto concorreu novamente ao cargo de governador do Paraná. Em Ponta Grossa sua candidatura alcançou grande apelo. Seu discurso modernizador e seu enfoque de que o Paraná é a terra de todas as gentes, lhe rendeu um considerável número de votos em nossa cidade, o que é compreensível pelo próprio processo histórico e pela dinâmica étnica e social ponta-grossense.
O Jornal da Manhã abraçou abertamente sua candidatura, anunciando-o em suas páginas como “futuro governador do Paraná”. Porém, ele acabou derrotado por Paulo Pimentel que, graças ao apoio de Ney Braga, elegeu-se governador do estado. Esta foi a última vez que Bento disputou um cargo público. Oito anos depois, em 1973, então com 68 anos de idade, Bento Munhoz da Rocha Neto faleceu em Curitiba, vitima de enfisema pulmonar.
.
O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.
Publicada originalmente no dia 20 de abril de 2008.
Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.





















