Coluna Fragmentos: No dia em que as folhas em branco expressaram a opinião do JM
A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Após pertencer a diversos proprietários, em 1975, o JM passou para as mãos daqueles que se configurou no mais identificado diretor do jornal: Gustavo Horst. Na verdade, Horst já era um dos sócios do jornal desde 1967, mas somente 8 anos depois assumiu o comando pleno da folha.
Ironia do destino, Gustavo Horst tornou-se proprietário do jornal num momento em que a censura e o controle da informação calavam as vozes de intelectuais, artistas, trabalhadores, professores e jornalistas! Mesmo assim, ao retornarmos as edições do JM daquela década percebemos que o jornal conseguiu manter uma das tradições presentes desde suas origens: tratar de questões políticas locais.
No final dos anos 70, apesar da limitada liberdade de expressão, o JM trazia apimentadas entrevistas com figuras políticas locais no melhor estilo “pinga-fogo”. Eram grandes entrevistas publicadas aos domingos e ocupavam as páginas centrais do jornal. David Federmann, Cyro Martins, João Vargas de Oliveira, Luiz Carlos Zuk, Amadeu Puppi ... estes e outros políticos passaram pelas perguntas – nem sempre “confortáveis” – feitas pelos entrevistadores do JM.
Um fato inusitado aconteceu no dia 20 de maio de 1979. Naquela manhã as folhas centrais do jornal traziam grandes espaços em branco, como se fosse a fase preliminar da composição daquilo que deveria ser publicado. Num primeiro momento, os leitores mais afoitos devem ter imaginado que os censores da ditadura militar haviam promovido mais uma de suas costumeiras ações “moralizadoras”, tão comuns para aquele período.
Nada disso, as folhas em branco foram opção exclusiva da própria equipe de jornalismo do JM. Esta foi a forma encontrada para “protestar” contra a ausência do entrevistado, no caso, o Presidente da Câmara de Vereadores, Joel Lopes da Silva. Passados quase 30 anos do ocorrido, podemos teorizar sobre a razão que teria levado o jornal a tomar uma decisão tão pouco convencional.
Num momento em que as pessoas e, principalmente, os veículos de comunicação tinham que “tomar cuidado” com as coisas que pensavam e falavam, o JM optou por um caminho incerto, promovendo entrevistas de cunho político, as quais eram, inevitavelmente, vigiadas pela censura. Desta forma, escrever nesse contexto era sempre expor-se perigosamente.
A ausência do vereador deve ter provocado decepção e irritação aos profissionais do JM. A opção assumida pelo jornal tinha um preço e o não comparecimento de uma liderança política soou como uma agressão.
O protesto veio na forma de folhas em branco e hoje, em tempos de liberdade de expressão, percebemos o quanto elas foram eloqüentes para aquele momento histórico.
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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.
Publicada originalmente no dia 07 de outubro de 2007.
Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.






















