A vida como ela é

“ - Tudo virá naturalmente. Você verá.
- E se não vier? E se eu não me entender com ela?
- Acredite em mim. Ela saberá conquistar você”.
O diálogo acima é retirado do filme ‘Um Evento Feliz’, do diretor francês Rémi Bezançon. As falas tratam do medo da protagonista, Barbara (Louise Bourgoin), de retornar para casa com sua filha recém-nascida e, simplesmente, não dar conta da responsabilidade que é ser mãe. A enfermeira que ajudou no parto encoraja Barbara a encarar seu destino. Ela baseia sua argumentação na naturalidade com a qual certas coisas acontecem; no caso específico, o amadurecimento da relação entre mãe e recém-nascida.
Esse curto diálogo pode, em uma leitura mais atenta, ser, inclusive, relacionado ao próprio filme (ou ao cinema francês em geral). É instigante o talento e a tradição que as produções cinematográficas que vêm da França têm para retratar o cotidiano com naturalidade. As montagens são bem elaboradas, copiam a vida com maestria e transformam a simplicidade do dia a dia em arte quando exposta na tela grande. Em ‘Um Evento Feliz’, por exemplo, a atenção um pouco mais demorada da câmera em uma cena de amamentação faz o espectador parar para pensar sobre quão profunda é a relação entre mãe e filho.
O trabalho de Bezançon disseca a trajetória de Barbara com Nicolas (Pio Marmaï), da forma como se conhecem até a crise que os atinge, passando, como já deixado claro, pelas alegrias e desafios que um filho traz na vida de um casal. Esse “dissecamento” acontece sem afetação ou estereótipos, mas expondo de forma bem equilibrada o quanto cada personagem é complexo em suas virtudes e defeitos, dualidade tão típica, natural e elementar de todo ser humano.
Ao término da “viagem” à qual o diretor nos convida é possível transcrever o diálogo que abre este texto alterando o contexto: ao invés de uma mãe temerosa diante da aventura que é abrigar um recém-nascido nos braços (e na vida), pode-se colocar um espectador hesitante diante de um filme francês:
“ - Tudo virá naturalmente. Você verá.
- E se não vier? E se eu não me entender com o filme?
- Acredite em mim. Ele saberá conquistar você”.





















