Ativista debate a situação vivida pelas pessoas negras após a Abolição da Escravatura
A ativista e multiartista Ligiane Ferreira lembra que a Lei Áurea não garantiu cidadania, terra, moradia ou trabalho digno às pessoas recém-libertas

A música “14 de maio” dos compositores Lazzo Matumbi e Jorge Portugal traduz a luta e resistência do povo negro desde o dia seguinte a Abolição da Escravatura, em 13 de maio de 1888, assinada pela princesa Isabel. O “dia seguinte”, como destaca a canção, para ativistas e o movimento negro refletem a situação vivida pelas pessoas negras e ex-escravizadas após a Lei Áurea, até hoje. Mesmo com o fim de três séculos de trabalho forçado e desumano, a liberdade veio sozinha, sem trabalho, terra, moradia, nenhuma garantia de cidadania às pessoas libertas. Os versos dos artistas retratam o cenário da época: “No dia 14 de maio, eu saí por aí / Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir / Levando a senzala na alma, eu subi a favela / Pensando em um dia descer, mas eu nunca desci”.
Para a multiartista e ativista social Ligiane Ferreira, 13 de maio é data para fazer reflexões críticas sobre a falsa abolição. De acordo com a educadora antirracista, a ausência de políticas públicas de inclusão, reparação ou proteção social para os milhões de pessoas libertas trouxe marcas profundas para a população negra do país na atualidade, como a desigualdade social e o racismo estrutural. “O dia seguinte à abolição da escravatura foi uma realidade muito dura para o nosso povo. As pessoas foram exploradas e depois deixadas à própria sorte. Não temos o que celebrar nesta data, mesmo assim é importante manter a crítica sobre a ‘falsa abolição’. Para nós, o Dia da Consciência Negra, o 20 de novembro, é o que de fato representa o movimento de luta e resistência por direitos”, ressalta Ligiane, que nas artes cênicas atua como atriz e dramaturga.
Como ativista afroindígena, Ligiane leva para o cotidiano da vida, a luta antirracista. Por meio dos projetos A Glória do Meu Quilombo, a artista promove encontros com as comunidades escolares da rede pública municipal e estadual, em Ponta Grossa e em cidades da região dos Campos Gerais (PR), realizando bate-papos, cujas narrativas trazem a cultura do povo negro e quilombola, como preconiza a Lei nº 10.639. Nos encontros com os estudantes, sob a ótica afrocentrada, Ligiane conta histórias e destaca tradições da negritude, em especial aquelas pertencentes ao Quilombo da Colônia Sutil (Ponta Grossa), onde seu pai, Wilson Ferreira dos Santos viveu até a juventude. A artista também traça um paralelo com a trajetória da escritora, compositora, cantora e poeta, Carolina Maria de Jesus, que assim como o povo preto teve a vida atravessada pelo racismo e outras violências sociais.
Desde o ano passado, a equipe artística e pedagógica do projeto vem desenvolvendo ações diversas nas escolas urbanas e rurais, fazendo o elo entre a cidade e a memória do Quilombo Sutil. Para o desenvolvimento e distribuição de materiais educativos de apoio, o projeto contou com incentivo da Secretaria de Estado da Cultura – Governo do Paraná, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de fomento à cultura, por meio do Ministério da Cultura, Governo Federal.
No entanto, para a multiartista e educadora, não basta apenas abordar a história afro-brasileira em sala de aula. Ligiane acredita que é preciso discutir o racismo estrutural e, consequentemente, os privilégios da branquitude que auxiliam na manutenção das desigualdades. Para isso, ela acredita que datas como 13 de maio devem ser contestadas pela história. A artista lembra que o movimento abolicionista, até a sua concretude oficial, foi o resultado de várias ações travadas por pessoas negras escravizadas, quilombolas, intelectuais e lideranças populares. É com base nessa luta, que o movimento negro impulsionou a data de 20 de novembro, como a verdadeira referência de resistência e valorização da cultura negra.
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RESUMO
A "Falsa Abolição": A música "14 de Maio" e ativistas como Ligiane Ferreira criticam o dia seguinte à Lei Áurea, destacando que a liberdade veio sem garantias de trabalho, moradia ou cidadania, deixando a população negra à própria sorte.
Resistência vs. Celebração: O movimento negro contesta o 13 de maio como data festiva, preferindo o 20 de novembro (Dia da Consciência Negra) como o verdadeiro símbolo de luta, autonomia e resistência contra o racismo estrutural.
Educação e Memória: Através de projetos como "A Glória do Meu Quilombo", Ligiane utiliza a história de comunidades quilombolas e figuras como Carolina Maria de Jesus para promover uma educação antirracista e afrocentrada nas escolas.
Com informações da assessoria de imprensa.





















