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Carandiru: O maior massacre em uma prisão brasileira completa 30 anos

Oficialmente, foram 3,5 mil tiros disparados em cerca de 20 minutos, que causou a morte de 111 detentos

Ação da PM deixou as galerias do Pavilhão 9 sujas de sangue na Casa de Detenção
Ação da PM deixou as galerias do Pavilhão 9 sujas de sangue na Casa de Detenção -

Da Redação

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Episódio causou a morte de 111 detentos, repercutiu mundialmente e acabou servindo como discurso para união e 'profissionalização' de presos, base do estatuto do PCC, maior facção criminosa do país. Oficialmente, foram 3,5 mil tiros disparados em cerca de 20 minutos. Era uma sexta-feira, 16h20 do dia 2 de outubro de 1992, quando 341 policiais da Tropa de Choque da Polícia Militar do Estado de São Paulo foram enviados para conter uma rebelião no Pavilhão 9 da Casa de Detenção, no Complexo do Carandiru. Entraram com cães, bombas e armas pesadas.

O saldo da operação, 111 mortos, todos detentos, fez com que o episódio entrasse para a história com o nome de Massacre do Carandiru. Evidências posteriores confirmaram que presos foram fuzilados com armas como fuzis AR-15 e submetralhadoras HK e Beretta. Não raras vezes, aquele dia é lembrado como o ápice da falência do sistema prisional brasileiro.

Três décadas depois, a chacina protagoniza uma guerra de narrativas, tem consequências tanto na reorganização do sistema prisional como na atividade criminosa e está presente no imaginário coletivo por meio de livros, filmes e músicas.

Mais violenta ação policial em penitenciária brasileira

O verbete dedicado ao tema na Wikipedia, por exemplo, foi alvo recente de vandalismo virtual. No último dia 26 de setembro, a descrição do evento na enciclopédia colaborativa estava editada como "A Limpeza do Carandiru foi uma entrega de 111 alvarás celestiais que ocorreu no Brasil". O texto foi corrigido no mesmo dia.

Em 1997, o grupo Racionais MC's gravou o rap Diário de Um Detento, contando sobre o massacre. Em Haiti, de 1993, Caetano Veloso fala sobre "ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina: 111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres".

Considerado a mais violenta ação policial dentro de uma penitenciária brasileira, o massacre ocorreu após uma rebelião dos presos, em que colchões foram incendiados e celas depredadas. Depois da repercussão da chacina e muita pressão de ativistas de direitos humanos, houve uma revisão da política prisional, sobretudo no estado de São Paulo.

"Quando o novo governador assumiu [Mario Covas, em 1995], sua gestão iniciou projetos de reforma do sistema penitenciário. Foram então construídos mais presídios com menos quantidade de vagas, um limite de 800 pessoas por unidade", explica o jornalista, economista e cientista político Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) e autor de, entre outros, A Guerra: A Ascensão do PCC e o Mundo do Crime no Brasil.

O Carandiru tinha 7 mil presos. Com a nova política, São Paulo passou a ter unidades prisionais espalhadas por todo o estado. O número de presídios saltou de pouco mais de 30 para os atuais 179. "Também houve uma terceirização gradual da gestão interna dos presídios", acrescenta Paes Manso.

PCC, uma das consequências

Na outra ponta da história, os criminosos também passaram a se unir mais, seja por receio de novos massacres, seja por sede de vingar o sistema. A proliferação de estabelecimentos prisionais, se diminui o tamanho dos grupos, ao mesmo tempo, favorece a criação de mais lideranças, fortalecidas frente a suas comunidades pequenas.

"Em 1993 foi criada a facção paulista, o PCC [Primeiro Comando da Capital], justamente com um discurso oficial de proteção dos presos, 'aqueles que o Estado quer exterminar, massacrar'", pontua o pesquisador. "No discurso estava presente a ideia de que, 'para que eles não nos matem, vamos fortalecer o crime e bater de frente contra nosso inimigo maior: o sistema'."

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