Ponta Grossa precisa urgentemente de um 'Censo Animal'
Conselheiro, médico lembra que, todo ano, são registrados cerca de 2,5 bilhões de casos de doenças transmitidas por animais

O conselheiro de Saúde do Grupo aRede, Mário Rodrigues Montemor Netto, explica que a saúde animal impacta diretamente o bem-estar humano e do ecossistema - o debate é referente a uma reportagem especial do Portal aRede.
Para ele, é necessária a criação, "urgente", de um 'Censo Animal'. Com isso, os órgãos públicos e a sociedade civil organizada podem criar políticas mais certeiras para impedir o crescimento da população animal abandonada nos municípios.
Confira abaixo a opinião na íntegra de Mário, que é médico, pesquisador, professor e presidente da Associação Médica de Ponta Grossa (AMPG):
"A abordagem Saúde Única (One Health) transcende a definição de um simples conceito científico; ela se estabelece como uma filosofia unificadora e integrada que visa equilibrar e otimizar de forma sustentável a saúde de pessoas, animais e ecossistemas. Em um cenário global marcado pelo crescimento populacional, mudanças climáticas e degradação ambiental, essa filosofia reconhece que a saúde humana, a dos animais (domésticos e selvagens), a das plantas e a do meio ambiente compartilhado estão profunda e inseparavelmente conectadas.
Os Pilares Operacionais e a Estratégia Colaborativa
Para enfrentar ameaças globais complexas que transcendem fronteiras, a governança dessa estratégia é liderada pela 'Aliança Quadripartite', composta pela Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e Organização Mundial da Saúde Animal (OMSA).
O 'Painel de Especialistas de Alto Nível da Saúde Única' (OHHLEP) define que a operacionalização prática da Saúde Única deve se sustentar em quatro pilares fundamentais, exigindo a colaboração de especialistas como médicos, veterinários, ecologistas e profissionais de laboratório:
- Comunicação: compartilhamento transparente de informações entre as áreas humana, animal e ambiental;
- Coordenação: alinhamento de atividades e protocolos de resposta entre diferentes agências e setores;
- Colaboração: trabalho conjunto para desenvolver soluções transdisciplinares e preventivas;
- Capacitação: desenvolvimento de competências técnicas e recursos humanos para vigilância ativa.
O Desafio das Zoonoses e a Economia da Prevenção
A urgência da Saúde Única torna-se evidente nos dados epidemiológicos sobre as zoonoses (doenças transmitidas entre animais e pessoas). A interface animal-humano é o ponto crítico de emergência de patógenos:
- Prevalência: mais da metade de todas as infecções humanas podem ser transmitidas por animais;
- Emergência: 75% das novas doenças infecciosas (como Ebola, Influenza aviária e covid-19) possuem origem animal;
- Mortalidade Global: estima-se que as zoonoses causem anualmente 2,5 bilhões de casos de doenças e 2,7 milhões de mortes em todo o mundo;
- Aceleração: a taxa de transmissão de vírus de animais para humanos está crescendo cerca de 5% ao ano.

O Custo da Inação vs. O Custo da Prevenção
O impacto econômico dessas crises é massivo. O custo direto global da perda de vidas por zoonoses é estimado em USD 212 bilhões anuais. Em contrapartida, implementar medidas preventivas na fonte - como fortalecimento da infraestrutura veterinária, vacinação animal e manejo ambiental custaria entre USD 10 e 20 bilhões anuais. Investir na prevenção é, portanto, pelo menos dez vezes mais barato do que remediar crises sanitárias instaladas.
Segurança Alimentar e Sustentabilidade
As doenças animais representam uma ameaça direta à subsistência global. Estima-se que mais de 20% das perdas globais na produção animal estejam ligadas a doenças, índice que pode atingir 50% em países em desenvolvimento. Proteger os rebanhos é fundamental para a segurança alimentar, especialmente considerando que a demanda por proteína animal deve crescer 70% até 2050 e que 75% da população em extrema pobreza depende da agricultura e pecuária para sobreviver.
Saúde Única no Planejamento Urbano e Políticas Públicas
Nas cidades, a Saúde Única exige o enfrentamento da fragmentação administrativa (os chamados 'silos'). O ambiente urbano é um ecossistema específico onde cidadãos e seus animais buscam coabitação qualitativa. Os pets assumiram papéis sociais e emocionais centrais, sendo vistos como membros da família, o que impacta diretamente o estilo de vida urbano.
Para gerir essa convivência multiespécie, as políticas de governança local devem se estruturar em cinco esferas de atividade interconectadas:
- Prevenir ameaças e incômodos: mitigar riscos de mordeduras e exposição a patógenos em espaços públicos;
- Atender necessidades emocionais e físicas: garantir o bem-estar animal e combater rigorosamente os maus-tratos;
- Adquirir animais de forma ética: combater o comércio abusivo (como 'fábricas de filhotes') e desencorajar o abandono;
- Fornecer serviços veterinários: viabilizar vacinação e esterilização (castração) subsidiadas para a população;
- Licenciar e identificar pets: utilizar microchipagem e registros para possibilitar a rastreabilidade e devolução de animais perdidos.
A Realidade Prática: O Exemplo de Ponta Grossa (PR)
Embora o município de Ponta Grossa apresente avanços significativos - como o Código Municipal de Proteção aos Animais (Lei nº 12.777/2017) e a obrigatoriedade de anestesia em cirurgias municipais - a cidade ainda enfrenta sintomas graves de desequilíbrio. O abandono animal persiste como um desafio que aniquila o bem-estar dos pets e os converte em potenciais vetores de zoonoses.
Um entrave central é a ausência de dados estruturados. Estima-se que em uma cidade de 500 mil habitantes existam cerca de 17 mil cães, mas o número de gatos é incerto. Sem um 'Censo Animal' oficial, a gestão pública atua com visibilidade limitada. Atualmente, a lacuna deixada pelo planejamento estatal é absorvida pelos 'órgãos de choque' da sociedade civil e academia:
- ONG S.O.S Bichos: atua desde 2011 na linha de frente com castrações, resgates de animais em risco e promoção da adoção responsável;
- Projeto Cão Comunitário (UEPG): iniciativa universitária que monitora a saúde e garante dignidade aos animais que vivem nos campi, utilizando protocolos de identificação e cuidado compartilhado.
Conclusão: Um Compromisso Político e Coletivo
A filosofia da Saúde Única deve atuar como motor para o desenvolvimento urbano e global sustentável. Ela prega a busca por um bem-estar integral (biopsíquico, social e espiritual), reconhecendo nossa conexão profunda com a natureza. Mais do que uma diretriz científica, a construção dessa saúde integral é uma pauta política urgente que exige um compromisso suprapartidário e uma aliança real entre todos os atores da sociedade.
O caminho para cidades resilientes exige integrar ecologistas e médicos veterinários nos conselhos de planejamento, direcionar recursos para a prevenção sistêmica e investir em censos rigorosos que norteiem políticas baseadas em evidências. Ao transformarmos boas intenções em leis aplicáveis e orçamentos consistentes, asseguraremos a proteção dos ecossistemas para todos os seres vivos. Afinal, como compartilhamos uma única cidade e um único mundo, compartilhamos invariavelmente uma Única Saúde".
CONSELHO DA COMUNIDADE
Composto por lideranças representativas da sociedade, não ocupantes de cargo eletivo, totalizando 14 membros, a iniciativa tem o objetivo de debater, discutir e opinar sobre pautas e temas de relevância local e regional, que impactam na vida dos cidadãos, levantados semanalmente pelo Portal aRede e pelo Jornal da Manhã, com a divulgação em formato de vídeo e/ou artigo.
Conheça mais detalhes dos membros do 'Conselho da Comunidade' acessando outras notícias sobre o projeto.
LEIA ABAIXO UM RESUMO DO ARTIGO
- O Conceito de Saúde Única (One Health): o artigo reforça que a saúde humana, animal e ambiental estão intrinsecamente conectadas. Com 75% das novas doenças infecciosas (como covid-19 e Influenza aviária) tendo origem animal, investir em prevenção e infraestrutura veterinária custaria até 10 vezes menos do que remediar crises globais já instaladas;
- A Urgência do Censo Animal: um dos principais gargalos para políticas públicas eficazes é a falta de dados reais. O conselheiro defende a criação 'urgente' de um Censo Animal oficial para que o poder público deixe de trabalhar com estimativas cegas e possa criar estratégias certeiras contra o abandono e o desequilíbrio populacional;
- Gestão Urbana e Integração: para uma convivência saudável nas cidades, o planejamento deve ir além de boas intenções. Isso inclui integrar veterinários nos conselhos de planejamento urbano, viabilizar castrações subsidiadas, combater o comércio abusivo e implementar a microchipagem para permitir a rastreabilidade e a proteção dos pets.





















