Setembro Amarelo: São Camilo reforça sobre importância do acolhimento
Psicóloga Angélica Nogueira e nutricionista Letícia Ronko destacam sinais de sofrimento emocional e orientam sobre hábitos que contribuem para a saúde mental

Com a chegada do Setembro Amarelo, campanha de conscientização e prevenção ao suicídio, a atenção se volta para a importância de falar sobre saúde mental e reconhecer sinais de sofrimento emocional. Nem sempre, porém, a pessoa que enfrenta dificuldades demonstra o que está sentindo.
Em entrevista ao Portal aRede, a psicóloga Angélica Nogueira destacou que uma pessoa pode manter a rotina, trabalhar, sorrir e conviver normalmente enquanto enfrenta um sofrimento intenso internamente. “O sofrimento emocional geralmente não é visível. Muitas pessoas acabam estando em sofrimento, tristes, angustiadas, sofrendo por solidão, e podem continuar com a vida e a rotina normal”, explicou.
Segundo a psicóloga, é importante estar atento aos comportamentos e evitar minimizar a dor de outra pessoa. “Nós não podemos minimizar a dor do outro. Precisamos ser gentis com as pessoas, entender, perceber como aquela pessoa está agindo, o que está falando e como estão sendo os comportamentos, para que a gente possa estar atento ao sofrimento.”
Quando é hora de buscar ajuda?
A tristeza faz parte da vida e é uma emoção natural. O sinal de alerta aparece quando o sofrimento se torna mais intenso, permanece por um período prolongado e começa a interferir em diferentes áreas da vida. “Todos nós passamos por momentos difíceis. A tristeza é uma emoção natural que nós sentimos. O que diferencia é quando essa tristeza, esse sofrimento emocional, fica mais intenso, mais significativo, dura um período maior e começa a afetar outras áreas da vida”, explicou Angélica.
De acordo com ela, mudanças nos relacionamentos, no trabalho, no apetite e no sono podem indicar a necessidade de atenção. “É importante observar como a pessoa está se sentindo e quanto tempo isso está durando”, afirmou.
Sinais de sofrimento não devem ser ignorados
Outro ponto destacado pela psicóloga é a mudança de comportamento. Uma pessoa que costumava praticar atividades físicas, sair, encontrar amigos ou realizar atividades de lazer e passa a se isolar ou perder o interesse por essas ações pode estar enfrentando algum tipo de sofrimento emocional. “Existem muitas falas de desesperança que a gente acaba não dando tanta importância, não validando aquela frase, aquela dor que a pessoa está sentindo”, disse.
Segundo Angélica, frases que demonstram desesperança ou a sensação de ser um peso para outras pessoas precisam ser levadas a sério. “É uma pessoa que está em sofrimento, que está com uma dor intensa e que está passando por um momento de sofrimento emocional e não sabe o que fazer com aquela dor.”
Como acolher alguém em sofrimento
Durante uma conversa com alguém que demonstra sinais de sofrimento, a orientação é evitar julgamentos e respostas prontas. “O mais importante é não minimizar o sofrimento, não julgar a pessoa. Ela precisa de acolhimento, precisa de escuta, precisa não ser julgada”, destacou a psicóloga.
Segundo Angélica, frases como “pense positivo”, “tenha mais fé” ou “tenha mais esperança”, apesar de geralmente serem ditas com boa intenção, podem fazer com que a pessoa se sinta ainda mais incompreendida. “Em vez de falarmos ‘você precisa ter mais fé, mais esperança’, podemos trocar por frases como: ‘Estou percebendo que você está diferente. Estou percebendo que você está deixando de fazer algumas coisas com alegria, com satisfação. Você está precisando de ajuda? Você quer falar sobre isso?’”, orientou.
Ela também ressalta que nem sempre é necessário encontrar uma solução imediata. “Às vezes a gente tende a querer resolver o problema para a pessoa, mas às vezes ela só precisa ser escutada, acolhida e compreendida.”
Alimentação e saúde mental
A nutricionista Letícia Ronko também participou da conversa e destacou a relação entre alimentação, corpo e saúde mental. “Existe uma relação bem grande, porque o nosso cérebro precisa de nutrientes para funcionar, e é na alimentação que conseguimos esses nutrientes”, explicou.
Segundo ela, os alimentos consumidos podem influenciar a disposição, a qualidade de vida, o sono e o humor. “Tudo o que a gente está ingerindo, tudo o que a gente come, acaba influenciando tanto na disposição, na qualidade de vida, no sono e no nosso humor”, afirmou.
Letícia também destacou a relação entre intestino e cérebro. “Esses dois órgãos estão bem ligados. Tudo o que a gente come acaba impactando no nosso intestino, na nossa microbiota, que também participa de algumas funções relacionadas ao bem-estar e à qualidade de vida.”
Para a nutricionista, corpo e mente precisam ser cuidados em conjunto. “A gente nunca pode separar o corpo da mente. É sempre os dois em conjunto. Cuidar da alimentação também é uma forma de estar cuidando da mente e da saúde mental.”
Alimentação sem restrições excessivas
Entre os hábitos recomendados, Letícia destaca uma alimentação diversificada, com frutas, verduras, legumes, proteínas, carboidratos, especialmente integrais, e boas fontes de gordura. “O principal hábito alimentar é diversificar a alimentação, consumir muitas fontes de fibras, que encontramos nas frutas, verduras e legumes, além da ingestão correta de proteínas, carboidratos, principalmente os integrais, e fontes boas de gordura, principalmente as que têm uma grande quantidade de ômega 3”, explicou.
Ela também defende uma relação mais leve com a comida. “É importante comer aquilo que você gosta, não se privar. Sempre com equilíbrio, tratando a alimentação como uma coisa leve, não como mais um problema para você, não como algo que gere ansiedade.”
A nutricionista chama atenção ainda para o impacto da comparação e das redes sociais na relação das pessoas com o próprio corpo. “É sempre ter equilíbrio e pensar que a alimentação tem que ser uma fonte de prazer, só que ela também não pode ser a sua única fonte de prazer. É preciso encontrar prazer também em outras coisas”, afirmou.
Pequenos hábitos podem fazer diferença
Para cuidar da saúde mental, as especialistas também destacam a importância de hábitos cotidianos, como atividade física, descanso, lazer, hobbies, contato com a natureza, espiritualidade e sono de qualidade.
A psicóloga Angélica reforça que o cuidado precisa ser constante. “A saúde mental precisa ser cuidada e investida todos os dias. São hábitos simples do nosso dia a dia que vão contribuir.”
Ela cita a prática de atividades físicas, momentos de descanso e lazer, convivência com familiares e amigos e atividades que proporcionem prazer. “Precisamos ter momentos de descanso, momentos de lazer, aproveitar o tempo com qualidade, com familiares, amigos ou sozinho mesmo, ter hobbies para que a pessoa consiga descansar e recarregar as energias”, afirmou.
Já Letícia recomenda que as mudanças sejam feitas gradualmente, sem estabelecer metas difíceis de cumprir. “Uma coisa que eu sempre falo para os meus pacientes é fazer pequenas mudanças, mudanças possíveis. Não adianta querer mudar tudo da noite para o dia”, explicou.
A mesma lógica pode ser aplicada à atividade física. “Se você não faz nenhuma atividade física, faz meia horinha por dia ou três vezes na semana. Coisinhas pequenas vão acabar refletindo lá na frente e vão te dar mais disposição para colocar coisas novas na rotina.”
Falar sobre prevenção é importante
Para Angélica, ampliar a conversa sobre saúde mental e prevenção ao suicídio é fundamental para que mais pessoas reconheçam a importância de buscar ajuda. “Quanto mais nós falarmos e levarmos essa informação para as pessoas, mais elas vão entender que buscar ajuda é um momento certo, que vai ajudar e apoiar”, afirmou.
Segundo ela, abordar o assunto de maneira responsável pode contribuir para que pessoas em sofrimento se sintam acolhidas. “Quanto mais a gente fala, não vai fazer com que as pessoas tenham mais essa intenção. Pelo contrário, elas vão se sentir acolhidas e compreendidas, de que têm meios de buscar ajuda, de voltar a sentir prazer, voltar a valorizar a vida e voltar a se sentir bem.”
A psicóloga também ressalta que valorizar a vida não significa estar feliz o tempo inteiro. “Nós não vamos ser felizes a todo momento. Valorizar a vida não é estar bem, plena sempre, mas sim viver uma vida com prazer, com alegria, sabendo que a vida tem altos e baixos e que em alguns momentos precisamos buscar apoio e ajuda”, explicou.
Cuidado integral
A nutricionista Letícia reforça que saúde física e mental estão diretamente relacionadas. “O cuidado com a mente e com o corpo sempre anda junto. Praticar uma atividade física, se alimentar da forma correta e ter uma boa noite de sono impactam na saúde mental”, afirmou.
“A gente não está sozinho”
Ao final da entrevista, a psicóloga deixou uma mensagem para quem pode estar passando por um momento difícil. “Algumas situações que a gente passa são difíceis, tem momentos em que sentimos mais tristeza e podemos até imaginar que estamos sozinhos, mas, na verdade, não estamos”, afirmou.
A orientação é procurar pessoas de confiança e falar sobre o que está acontecendo. “É importante buscar uma rede de cuidado, seja familiar, amigo, alguém no trabalho, alguém em quem a gente confie, falar sobre o que estamos sentindo e buscar ajuda profissional”, destacou.
A mensagem reforçada durante a entrevista é de que momentos de sofrimento podem parecer permanentes, mas existem possibilidades de encontrar outros caminhos. “Quando a gente passa por um momento, pensa que aquela dor nunca vai passar, que aquele problema nunca vai resolver, mas a gente consegue encontrar outros caminhos, outras formas de resolver aquele problema”, afirmou Angélica.
Com a chegada do Setembro Amarelo, a campanha reforça a importância de ampliar o diálogo sobre saúde mental, reconhecer sinais de sofrimento, acolher sem julgamentos e incentivar a busca por ajuda. E, como reforçado pelas especialistas, quem está passando por um momento difícil não precisa enfrentar isso sozinho.
Confira um resumo da notícia:
Setembro Amarelo reforça o cuidado com a saúde mental: a psicóloga Angélica Nogueira destaca que o sofrimento emocional nem sempre é perceptível e orienta atenção a mudanças de comportamento, isolamento, desesperança e perda de interesse por atividades.
Acolhimento e busca por ajuda são fundamentais: a especialista recomenda escutar sem julgamentos, evitar minimizar a dor e incentivar a busca por apoio profissional e por uma rede de pessoas de confiança.
Hábitos cotidianos também contribuem para o bem-estar: a nutricionista Letícia Ronko ressalta a relação entre alimentação, sono, atividade física e saúde mental. As profissionais defendem pequenas mudanças na rotina e o cuidado integrado entre corpo e mente.





















