‘Spiderhead’ é ótimo como drama e sci-fi

Longa faz ótimo uso do elenco e tira o máximo de um roteiro simples com boas execuções e técnicas de captação e filmagem

Chris Hemsworth tem liberdade poucas vezes vista para trabalhar no papel de Steve Abnesti
Chris Hemsworth tem liberdade poucas vezes vista para trabalhar no papel de Steve Abnesti -

Da Redação

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Gravado durante alguns dos meses mais intensos da pandemia da covid-19 na Austrália, quando o país da Oceania se tornou um porto-seguro para produções cinematográficas, ‘Spiderhead’ carrega o ascetismo próprio das construções visuais de seu diretor, mas em uma escala tímida: os quatro ou cinco ambientes nos quais a trama se passa, todos parte de uma mesma locação (e, portanto, coerentes entre si) são bem desenhados, sofisticados… mas não particularmente engenhosos, expressivos ou emblemáticos das temáticas da história.

O protagonista aqui é Jeff (Teller), prisioneiro de Spiderhead, um misto de complexo penitenciário e laboratório de pesquisa. Por lá, detentos têm mais liberdade para ir e vir e mais conforto, mas também precisam se submeter a testes com produtos químicos diversos, que provocam alterações de consciência severas.

No comando desses testes está o carismático cientista Steve Abnesti, papel que dá a Chris Hemsworth a rara oportunidade de se esticar para além do charme estúpido de suas atuações cômicas ou da nobreza estoica de seus heróis de ação. Aqui, o ator constrói um antagonista dinâmico e perigoso, cujos discursos de intimidação resvalam na paródia dos CEOs megalomaníacos da nossa realidade, mas cuja intensidade emocional o empurra para o campo do grotesco. Justamente por fazê-lo tão humano, machucado, múltiplo, Hemsworth torna Abnesti ainda mais assustador.

O brilho da performance é ainda mais evidente porque essa é a verdadeira identidade de Spiderhead como filme: ele é um drama de atuações, uma história sobre interações humanas e construída em interações humanas. Esta não é uma ficção científica particularmente profunda, mas tem ideias interessantes sobre a superioridade de uma vida levada em tranquila imperfeição diante da busca eterna, exaustiva, insustentável pela emoção impecável, fabricada, pura. Como toda boa obra do gênero, Spiderhead é um testemunho de humanidade.