PUBLICIDADE

Caps de PG inicia 2026 com 6,4 mil atendimentos a dependentes químicos

Segundo dados do Município, a Rede de Atenção Psicossocial realiza o acompanhamento de 330 pacientes; em janeiro de 2026, a equipe de enfermagem do Caps - Álcool e Drogas executou 2,5 mil intervenções

A sede do Caps-AD III em Ponta Grossa.
A sede do Caps-AD III em Ponta Grossa. -

O Município de Ponta Grossa tem adotado, por meio das frentes de trabalho de abordagem social, estratégias de acolhimento, atenção à saúde e ações de reinserção a dependentes químicos e seus familiares. Conforme dados da Prefeitura, a Rede de Atenção Psicossocial (Raps) do Município conta atualmente com 330 pacientes ativos, sendo 252 usuários do sexo masculino e 78 do sexo feminino. Já, no Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas (Caps-AD), o Município contabilizou 6.472 ações assistenciais somente em janeiro de 2026.

Iniciada há 20 anos, a Raps contabiliza 8.855 prontuários. Destes registros, 7.460 são homens, enquanto 1.396 são mulheres. A média etária da população cadastrada é de aproximadamente 42 anos. Sob a gestão de Elizabeth Schmidt (União Brasil), a Fundação de Assistência Social de Ponta Grossa (Faspg), a Secretaria Municipal da Saúde (Sms), a Secretaria de Família e Desenvolvimento Social (Smfds) e a Secretaria Municipal de Cidadania e Segurança Pública (Smcsp) são órgãos centrais para a eficácia das estratégias intersetoriais, que iniciam na escuta qualificada e, em seguida, a construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS).

Na ponta do atendimento estão o Caps-AD, localizado na Rua Vicente Spósito, no bairro Uvaranas, e os Centros de Referência Especializada da Assistência Social (Creas) instalados em áreas estratégicas pela cidade. As unidades oferecem acolhimento, escuta qualificada e orientação para usuários de drogas e suas famílias, visando fortalecer vínculos e superar vulnerabilidades.

SAÚDE PÚBLICA

A reportagem buscou entender como funciona o atendimento no Caps-AD, serviço específico para o cuidado, atenção integral e continuada às pessoas com necessidades em decorrência do uso de álcool, crack e outras drogas. O coordenador da equipe de enfermagem da unidade, Bruno Aguiar Condas, explica que o serviço não depende de encaminhamentos, ou seja, o Caps é aberto ao público e atende por fluxo de demanda. Ainda assim, existem casos indicados por via judicial ou seguimento de outro serviço de saúde pública. “Temos vários pacientes que dão entrada por espontânea vontade, porque enxergam que precisam de um acompanhamento. Muitos vêm porque a família estimula”, contou Bruno.

No Caps-AD, o paciente recebe o primeiro atendimento, no qual será aberto um prontuário. Os profissionais de saúde colhem dados e documentos para a confecção de uma ficha, e em seguida, ele passa por um momento de escuta qualificada. Esta etapa é importante para ouvir o indivíduo e compreender suas demandas, perfil demográfico, econômico e social. A partir deste acolhimento, é agendado um retorno ao grupo de integração inicial e ao Projeto Terapêutico Singular (PTS), focado na saúde mental do paciente. Bruno explicou ao Jornalismo do Grupo aRede como funciona o protocolo. “O PTS nos orienta a desenvolver um tratamento que faça sentido para cada indivíduo e, se necessário, até uma permanência na unidade no período diurno”.

A sede do Caps-AD III em Ponta Grossa.
A sede do Caps-AD III em Ponta Grossa. |  Foto: Iolanda Lima.

Por se tratar de saúde mental, o tratamento é subjetivo, conforme aponta o coordenador de enfermagem. “São medidas que propomos ao paciente. Um termo que norteia o que fazemos aqui é a ‘redução de danos’”, diz. O enfermeiro traz como exemplo casos em que o paciente vai até a unidade e passa um dia inteiro no Caps-AD. Ali, ele pode fazer a sua higiene, se alimentar, receber as orientações de saúde. “Ao fim, é um dia em que o paciente não usou a substância”, conta Bruno. Ou seja, em um período de tratamento, há a possibilidade de mitigar os danos causados pela dependência química.

ATENDIMENTOS

O Caps-AD processa os atendimentos no programa de Saúde do Município. Bruno reforçou à Redação que o número de 6,4 mil ações em 2026 se refere exclusivamente ao serviço para situações de uso de álcool e drogas. O dado inclui atendimentos a domicílio, individuais, em grupo, crises, articulações de rede intersetoriais de saúde, redução de danos, entre outros. Segundo o coordenador, já foram geradas até 12 mil ações em meses de altas demandas, e em períodos com menos solicitações, o número mais baixo chega a 5 mil ações.

Além das ações assistenciais, a equipe de enfermagem executou 2.553 ações no período de janeiro, incluindo administração de medicações, monitoramento clínico e intervenções assistenciais. A Saúde de Ponta Grossa reforça que, com estas ações intersetoriais, as políticas públicas visam a reinserção social, fortalecimento de vínculos familiares e apoio na reconstrução de autonomia e funcionalidade social. Também são articuladas ações com Comunidades Terapêuticas, dispositivos da Assistência Social, albergues e demais serviços da rede socioassistencial e hospitalar quando necessário, conforme informou a Prefeitura.

Na foto, um registro da ação alusiva ao 'Dia da Luta Antimanicomial' no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas.
Na foto, um registro da ação alusiva ao 'Dia da Luta Antimanicomial' no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas. |  Foto: Divulgação/PMPG.

Segundo o órgão, o modelo assistencial prioriza o tratamento voluntário e a construção de vínculo terapêutico como estratégia principal de adesão. Nos casos em que há agravamento do quadro com risco à integridade do usuário ou de terceiros, pode ser indicada internação involuntária conforme legislação vigente. A internação compulsória ocorre exclusivamente por determinação judicial, geralmente mediante solicitação ao Ministério Público, não sendo fluxo conduzido pelo CAPS-AD, embora o serviço possa emitir parecer técnico quando solicitado e realizar o acompanhamento posterior.

VULNERABILIDADE

Há, ainda, casos atendidos pela Secretaria de Família que, apesar de não dispor de política pública específica voltada ao atendimento de pessoas em situação de dependência química, acolhe e encaminha vítimas de violência que relatam fazer uso de drogas, como no caso do Centro de Referência da Mulher Brasileira (Cmrb). Nos casos que envolvem crianças e adolescentes, o Conselho Tutelar também integra o atendimento. Por meio dele, são feitas as orientações às famílias, requerimento de vagas para tratamento e o acompanhamento de cada caso com o objetivo de assegurar o desenvolvimento saudável dos envolvidos, sem caráter punitivo.

Para a Cidadania e Segurança Pública, a atuação do Município em relação às drogas envolve um trabalho integrado, desenvolvido em diversas frentes, em conjunto com as forças de segurança. Segundo o secretário Guilherme Rangel, somente em fevereiro, foram apreendidos mais de 130 quilos de drogas em operações conjuntas entre a Guarda Civil e a Polícia Civil. O gestor afirma entender que o vício em drogas impacta diretamente a segurança pública. “É por meio da prática de crimes como furtos e roubos que o usuário acaba recorrendo para sustentar o vício”, diz Rangel.

As equipes da Guarda Civil Municipal (GCM) integram estratégias do combate ao tráfico de drogas em Ponta Grossa.
As equipes da Guarda Civil Municipal (GCM) integram estratégias do combate ao tráfico de drogas em Ponta Grossa. |  Foto: Divulgação/PMPG.

O secretário se posiciona contrário à descriminalização do porte para consumo pessoal e avalia as audiências de custódia após a prática de crimes como uma “porta giratória”. Para Rangel, estas circunstâncias dificultam a aplicação de dispositivos voltados ao combate às drogas e reduzem a capacidade de repressão para o tráfico de entorpecentes e toda a estrutura que sustenta redes criminosas. Diante disso, o gestor de Segurança Pública e Cidadania de Ponta Grossa afirma que a pasta tem adotado uma estratégia que consiste no reforço à atuação preventiva e ostensiva da Guarda Civil.

Com estas frentes, o Município apresenta as estratégias da gestão da prefeita Elizabeth para o combate às drogas e na disponibilização de políticas públicas para atender individualmente cada caso de dependência química. Destacam-se as ações da Rede de Atenção Psicossocial que, ao longo de 20 anos, tem aprimorado o atendimento aos indivíduos em dependência química e seus familiares. Já a Segurança Pública tem se posicionado como um agente de combate ao que chama de estrutura de redes criminosas, que se sustentam do vício e abuso de substâncias.

O processo terapêutico é dividido em três fases principais: acolhimento, desenvolvimento pessoal e reinserção social.
O processo terapêutico é dividido em três fases principais: acolhimento, desenvolvimento pessoal e reinserção social. |  Foto: Mariele Zanin/aRede.

Atendimento humanizado transforma vidas de moradores de rua e dependentes químicos

O tratamento de pessoas em situação de dependência química vai muito além de fornecer abrigo ou medicação. Pesquisas e experiências clínicas mostram que o acolhimento humanizado aumenta a adesão ao tratamento, promove mudanças de comportamento e fortalece a reinserção social.

“Compreendemos a dependência como uma doença progressiva e crônica. O foco da Terapia Cognitivo-Comportamental é a reestruturação cognitiva, a mudança de hábitos, o distanciamento de gatilhos e o desenvolvimento de estratégias sólidas para a prevenção de recaída”, explica a psicóloga Fernanda Fernandes, do Esquadrão da Vida, instituição que atua no atendimento de homens adultos. Além do acompanhamento individual, famílias também recebem suporte por meio do GADEEF (Grupo de Apoio ao Familiar e ao Dependente Químico), reconhecendo que a doença afeta todos ao redor do usuário.

O período de acolhimento varia de seis a nove meses, podendo chegar a 12 meses conforme a necessidade individual. Após a alta, os pacientes são encaminhados para a rede pública de saúde e incentivados a manter vínculo com o grupo de apoio, com o objetivo maior de reinserção social. Atualmente, a taxa de recuperação e reinserção bem-sucedida gira em torno de 20% a 30%, alinhada às médias nacionais.

A REALIDADE DA RUA

Apesar do acolhimento oferecido, a vida nas ruas ainda impõe desafios enormes. Em Ponta Grossa, um homem de 43 anos, que vive na rua há anos e atualmente sofre com o vício no álcool, afirma ter superado a dependência química de substâncias como o crack e cocaína.

Com lágrimas nos olhos e visivelmente emocionado, ele descreve a rotina de fome, frio e solidão, mas também ressalta a solidariedade entre quem enfrenta a mesma situação. “Mesmo sem ter nada, eu prefiro estar com quem tem fome, com quem tem sede. A gente se levanta e ajuda o outro. Se um cai, o outro ajuda a levantar”, disse.

O atendimento humanizado mostra que a transformação depende tanto da oportunidade quanto da decisão individual, mas também passa pelo acompanhamento após o tratamento.
O atendimento humanizado mostra que a transformação depende tanto da oportunidade quanto da decisão individual, mas também passa pelo acompanhamento após o tratamento. |  Foto: Divulgação.

SEGURANÇA PÚBLICA

O consumo de drogas, muitas vezes ligado a crimes de menor potencial, é uma preocupação das autoridades. Segundo Guilherme Rangel, secretário de Cidadania e Segurança Pública de Ponta Grossa, “a questão do vício em drogas impacta diretamente a segurança pública, pois, em muitos casos, é por meio da prática de crimes contra o patrimônio — principalmente furtos e roubos — que a pessoa, já sem recursos próprios para sustentar o vício, acaba recorrendo.”

Contudo, esse tipo de comportamento, por mais frequente e comum que seja na atual sociedade brasileira, não se trata de uma regra que se aplica a todos que vivem em situação de dependência química.

Para o morador de rua entrevistado, não são todos que buscam o envolvimento em crimes para sustentar o vício. “Não estamos atrás de droga, crack ou cocaína… não quero me envolver em roubo nem nada.”

SOLIDARIEDADE

Mesmo diante da dificuldade, gestos de humanidade se destacam. Ele relata situações em que ajudou outros moradores de rua: “Entrei no restaurante, que estava com mais de 100 pessoas. Fui de mesa em mesa e disse: ‘Moça, não estou aqui para roubar nem para brigar por comida. Lá fora tem alguém com fome.’” Uma cliente pagou a marmita, permitindo que ele alimentasse o amigo.

Pequenos gestos, como dividir uma manta ou uma blusa, traduzem a essência do apoio mútuo. Ao conversar com o morador de rua, ele citou que, por mais de uma vez, dividiu o pouco de roupas e cobertores que tinha para garantir que outra pessoa em situação de rua não sofresse. “Você não vai sofrer essa madrugada. Vamos dormir juntos. Você vira para um lado, eu para o outro, e a gente se aquece”, relata.

Os pacientes do programa do Esquadrão da Vida em sala de aula.
Os pacientes do programa do Esquadrão da Vida em sala de aula. |  Foto: Mariele Zanin/aRede.

O CAMINHO DE MUDANÇA

O atendimento humanizado mostra que a transformação depende tanto da oportunidade quanto da decisão individual, mas também passa pelo acompanhamento após o tratamento, e pela garantia de oportunidades para aqueles que vivem marginalizados pela sociedade. “Nunca passei por clínica… acredito que a mudança começa quando a pessoa decide: ‘Não quero mais.’ O que falta é oportunidade. Emprego. Uma casa. Dignidade”, afirma um usuário. 

Apesar das dificuldades, ele mantém esperança e fé como guias. “Se minha irmã diz que a água está vencendo ou que a luz vai ser cortada, eu digo: ‘Manda o pix. Vou bater de porta em porta aqui, mas você não vai ficar sem luz nem sem água.’ Mesmo longe, eu ajudo como posso.” E, para ele, o gesto de ajudar o outro é mais valioso que qualquer conforto material. “Muitas vezes, quem menos tem é quem mais ajuda.”

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

MAIS DE PONTA GROSSA

HORÓSCOPO

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

DESTAQUES

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

MIX

HORÓSCOPO

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE