Editorial
Acidentes que se repetem e soluções que não chegam
Da Redação | 09 de junho de 2026 - 03:01
O tombamento de mais um caminhão no quilômetro 486 da BR-376, em Ponta Grossa, ontem (8), não pode ser tratado como um fato isolado. Trata-se de mais um capítulo de uma história que se repete há anos e que continua cobrando um preço alto da população, dos motoristas e da economia regional. A cada novo acidente, a cidade assiste ao mesmo roteiro: congestionamentos, riscos à vida, prejuízos materiais e discussões sobre providências que, na prática, permanecem insuficientes.
Os números divulgados pela Polícia Rodoviária Federal são claros e preocupantes. Somente entre junho de 2025 e maio de 2026 foram registrados oito acidentes entre os quilômetros 485 e 486 da rodovia, com dez pessoas feridas e uma morte. A própria PRF reconhece que o trecho urbano da BR-376 em Ponta Grossa é um ponto crítico, marcado por colisões, engavetamentos e atropelamentos. Não se trata, portanto, de uma percepção da comunidade ou da imprensa. É um diagnóstico oficial.
O Jornal da Manhã tem alertado há muitos anos para a gravidade da situação. Em diferentes momentos, reportagens, editoriais e artigos apontaram os riscos gerados pela convivência entre o trânsito urbano e o intenso fluxo de caminhões que utilizam a BR-376 como principal corredor logístico rumo aos portos paranaenses. Infelizmente, apesar dos constantes alertas, as respostas apresentadas até agora têm sido predominantemente paliativas.
É verdade que a PRF desenvolve um trabalho importante de fiscalização, monitoramento e orientação aos motoristas. Também merece reconhecimento a instalação de radares fixos, medida que contribuiu para reduzir excessos de velocidade em alguns pontos da rodovia. Entretanto, os próprios dados demonstram que essas ações, embora necessárias, não são suficientes para resolver o problema estrutural existente naquele segmento.
Da mesma forma, a concessionária responsável pela rodovia precisa assumir um protagonismo maior na busca por soluções imediatas. O levantamento realizado pela empresa mostra que, em menos de um ano, foram registrados 202 acidentes entre os quilômetros 471 e 502. Desses, 44 envolveram veículos pesados. As colisões traseiras lideram as estatísticas, seguidas por tombamentos e choques contra defensas metálicas. Os números revelam que existe um padrão de ocorrências que exige intervenções específicas e urgentes.
Enquanto o tão aguardado Contorno Rodoviário de Ponta Grossa não sai do papel, a população não pode ficar refém da espera. O projeto é fundamental e promete retirar mais de 7,5 mil caminhões por dia do trecho urbano, reduzindo significativamente os conflitos entre o tráfego local e o transporte de cargas. Porém, trata-se de uma obra de longo prazo. Até sua conclusão, vidas continuarão circulando diariamente por uma rodovia reconhecidamente perigosa.
Por isso, é necessário discutir medidas complementares de curto e médio prazo. Estudos técnicos mais aprofundados, reforço na sinalização, melhorias geométricas em pontos críticos, ampliação das áreas de escape, revisão dos acessos urbanos e novos mecanismos de controle de tráfego devem integrar uma agenda permanente entre concessionária, PRF, ANTT e autoridades locais.
Os acidentes registrados nos últimos meses reforçam a urgência dessa discussão. Houve colisões envolvendo múltiplos caminhões, veículos arrastados por centenas de metros, capotamentos e até uma morte. São ocorrências distintas, mas que compartilham um mesmo cenário: uma rodovia sobrecarregada e pressionada por um volume de tráfego muito superior ao que o trecho urbano consegue absorver com segurança.
Ponta Grossa é um dos mais importantes entroncamentos logísticos do Sul do Brasil. Sua posição estratégica impulsiona o desenvolvimento econômico, mas também impõe responsabilidades. Garantir segurança viária não pode ser apenas um compromisso futuro associado ao novo contorno. Precisa ser uma prioridade presente.
A população já conhece os riscos. A PRF conhece os riscos. A concessionária conhece os riscos. As estatísticas conhecem os riscos. O que falta é transformar esse conhecimento em ações efetivas. Porque cada novo acidente na BR-376 deixa de ser uma fatalidade quando ocorre em um problema amplamente identificado, repetidamente denunciado e ainda insuficientemente enfrentado. O tempo das soluções paliativas já passou. A rodovia exige medidas concretas, antes que novos números sejam acrescentados a uma estatística que há muito deixou de ser aceitável.