Debates
Quando o primeiro lugar não é a linha de chegada
Da Redação | 06 de outubro de 2026 - 00:49
Por Lucas Raduy Guimarães
O Paraná obteve 458 pontos em leitura no PISA 2025. Foi o maior resultado entre os estados brasileiros, 50 pontos acima da média nacional e apenas três abaixo da média dos países da OCDE. É um resultado importante e que merece reconhecimento. O mesmo PISA, porém, ajuda a colocar essa conquista em perspectiva. A proficiência em leitura caiu fortemente em muitos países. No Brasil, o desempenho permaneceu praticamente estável em relação a 2022 e próximo do patamar observado desde 2015, mas ainda distante da média da OCDE.
Nesse cenário, a pergunta que mais me interessa não é apenas como o Paraná chegou ao primeiro lugar. É o que podemos fazer a partir dele.
O PISA mede competências dos estudantes e permite comparar resultados. Não identifica automaticamente quais políticas, comportamentos ou circunstâncias produziram o desempenho de um estado. Estabelecer relações de causa e efeito exige outras análises.
Há, no entanto, uma questão que podemos discutir independentemente disso. Uma coisa é ter jovens capazes de ler bem em uma avaliação internacional. Outra é formar pessoas que escolham continuar lendo quando não existe prova, nota ou professor cobrando.
Proficiência é indispensável, mas uma cultura leitora depende também de curiosidade, repertório, prazer e autonomia. O jovem precisa encontrar livros que façam sentido para ele, descobrir autores, experimentar gêneros, eventualmente abandonar uma obra que não o conquistou e procurar outra. E precisa de tempo.
A disputa por esse tempo ficou mais difícil. O livro concorre com notificações, vídeos curtos, jogos, redes sociais e uma oferta permanente de novos estímulos. Ler exige o movimento contrário: permanecer.
É preciso acompanhar um argumento por várias páginas, lembrar o que foi dito anteriormente, lidar com ambiguidades e sustentar a atenção quando a resposta não aparece imediatamente. Ler um livro é também aprender a não trocar de assunto a cada poucos segundos.
Foi diante desse desafio que decidimos fazer uma experiência bastante simples em mais de 20 colégios: reservar 20 minutos diários para leitura por prazer no Ensino Fundamental.
O mais importante não está apenas no relógio, obviamente. Está também na possibilidade de escolha e no estímulo. Não queremos transformar esses minutos em mais uma tarefa escolar. O aluno pode escolher o que deseja ler, descobrir autores e construir gradualmente suas preferências. Aprender a escolher também faz parte da formação de um leitor.
Não partimos da premissa de que vinte minutos diários produzirão, isoladamente, melhora nos indicadores acadêmicos. Esse efeito precisa ser acompanhado e medido. A experiência parte de uma ideia mais simples: é inviável criar o hábito de fazer algo para o qual nunca reservamos tempo.
E esse trabalho não pertence apenas à escola. Uma criança que nunca vê um adulto lendo recebe uma mensagem diferente daquela que cresce cercada por livros, conversas sobre histórias e pessoas que demonstram curiosidade pelo que leem. Pais e mães não precisam transformar a casa em sala de aula. Podem fazer algo muito mais simples: tornar a leitura visível.
Isso não significa atribuir às famílias a responsabilidade pela formação dos leitores. As condições de acesso aos livros, ao tempo e ao repertório são diferentes. Escolas, bibliotecas e comunidades têm papéis fundamentais. Mas o exemplo dos adultos também ensina.
O primeiro lugar do Paraná abre uma boa oportunidade para ampliar essa conversa. Não apenas sobre desempenho, mas sobre o espaço que queremos dar aos livros na escola, em casa e na vida cotidiana.
Os 458 pontos não nos dizem, sozinhos, como o Paraná chegou à liderança, nem permitem atribuir o resultado a uma iniciativa específica. Novos ciclos do PISA e outras pesquisas poderão ajudar a compreender melhor essa trajetória. Enquanto isso, podemos reconhecer a conquista sem transformar correlação em causalidade e, ao mesmo tempo, pensar no próximo desafio.
Se queremos uma sociedade mais leitora, precisamos de livros acessíveis, professores que leem, bibliotecas vivas, famílias que tornam a leitura visível, alguma liberdade de escolha e tempo.
O Paraná chegou ao primeiro lugar. Talvez a melhor maneira de valorizar essa conquista seja ampliar nossa ambição: além de jovens que demonstram boa proficiência em leitura, formar cada vez mais pessoas que escolham continuar lendo.
*Lucas Raduy Guimarães é presidente do Grupo Positivo