Debates
Agronegócio brasileiro diante de um mundo mais instável
Da Redação | 10 de março de 2026 - 01:28
Por Luis Vinha e Gregori Boschi
O agronegócio brasileiro consolidou-se nas últimas décadas
como um dos pilares da economia nacional e um dos principais fornecedores de
alimentos para o mercado global. Os números mais recentes reforçam essa
relevância. Em 2025, o agro ampliado (inclui insumos, produção agropecuária,
indústria de processamento e serviços relacionados) respondeu por cerca de
29,4% do PIB brasileiro, o maior patamar em mais de duas décadas, enquanto as
exportações do setor alcançaram US$ 169,2 bilhões, quase metade de todas as
vendas externas do país.
Ao mesmo tempo, o Brasil se prepara para uma safra recorde
de grãos, estimada em 353 milhões de toneladas na temporada 2025/2026. Esse
desempenho confirma a posição estratégica do país na segurança alimentar global
e evidencia a capacidade do setor de continuar expandindo sua produção mesmo em
ambientes econômicos desafiadores.
Mas por trás desses resultados existe um cenário bem menos
simples do que os números sugerem. O agronegócio brasileiro entra em uma fase
marcada por margens mais apertadas, crédito mais seletivo e um ambiente
internacional cada vez mais volátil.
Depois do pico observado em 2022, impulsionado pela crise
global de alimentos e pela guerra entre Rússia e Ucrânia, os preços
internacionais das commodities agrícolas passaram por um movimento de correção.
Para o produtor brasileiro, isso significa operar com rentabilidade menor
justamente quando os custos permanecem elevados. Em algumas culturas, como a
soja, análises de mercado indicam queda significativa nas margens operacionais.
Esse movimento cria uma compressão típica de setores
exportadores: preços internacionais mais estáveis ou em leve queda, enquanto
insumos e custos financeiros continuam pressionando o caixa das propriedades.
Em outras palavras, o crescimento do setor continua acontecendo, mas com um
ambiente econômico mais exigente para o produtor.
O crédito rural continua sendo uma peça central da
engrenagem do agro. O Plano Safra 2025/2026 disponibilizou R$ 516 bilhões em
recursos, mas o setor percebe que a expansão nominal do crédito não acompanha o
crescimento da produção e a elevação dos custos da produção agrícola.
Ao mesmo tempo, algumas linhas tradicionais registraram
retração nas contratações, enquanto instrumentos privados, como as Cédulas de
Produto Rural, passaram a ganhar mais espaço no financiamento das atividades.
Esse movimento reflete uma mudança estrutural no sistema de financiamento do
campo. Na medida em que os Bancos e instituições financeiras estão mais
seletivos, os produtores enfrentam além dos juros elevados uma maior exigência
de garantias. Dados recentes também indicam aumento da inadimplência no meio
rural, com o consequente crescimento no número de pedidos de recuperação
judicial ligados ao setor.
Se os desafios domésticos já exigem atenção, o cenário
internacional adiciona uma nova camada de incerteza. A escalada dos conflitos
no Oriente Médio envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel trouxe novamente para
o centro do debate dois gargalos estratégicos do comércio global: o Estreito de
Ormuz e o Mar Vermelho.
Essas rotas concentram parte significativa do transporte
marítimo de energia e fertilizantes. Para o Brasil, isso tem um impacto direto.
O país importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura, e
qualquer instabilidade logística ou aumento de preços no mercado internacional
afeta imediatamente os custos de produção no campo. Em um setor altamente
dependente desses insumos, a geopolítica passa a influenciar decisões
produtivas com muito mais intensidade do que no passado recente.
Diante desse ambiente mais complexo, um fator ganha
importância crescente: a qualidade da informação disponível para a tomada de
decisão. O agronegócio brasileiro evoluiu rapidamente em tecnologia de
produção, mecanização e genética. No entanto, ainda existe uma lacuna relevante
na organização e no uso estratégico de dados sobre a própria estrutura do
setor.
Estudos recentes indicam, por exemplo, que a frota de
máquinas agrícolas no país ainda apresenta idade média elevada, próxima de 15
anos, ao mesmo tempo em que mais da metade dos produtores pretende renovar ou
ampliar seus equipamentos nos próximos dois anos.
Compreender esse tipo de informação, ou seja, quem compra,
onde compra, como financia e como utiliza suas máquinas, tornou-se fundamental
não apenas para a indústria, mas também para produtores, investidores e
formuladores de políticas públicas.
É nesse contexto que iniciativas de inteligência de mercado
começam a ganhar espaço no agro brasileiro. Pesquisas como o Panorama de
Máquinas Agrícolas no Brasil, desenvolvido pela consultoria [BIM]³ – Boschi
Inteligência de Mercado, trazem uma contribuição inédita para o setor: pela
primeira vez, um levantamento sistemático mapeia a frota agrícola brasileira e
o comportamento dos produtores a partir de dados primários. Esse tipo de
iniciativa ajuda a reduzir uma lacuna histórica de informação no setor.
O agronegócio brasileiro continua sendo uma potência
produtiva, mas o ambiente em que ele opera mudou. O setor passa a conviver com
um cenário que combina volatilidade geopolítica, custos pressionados, crédito
mais seletivo e exigências crescentes de eficiência.
Nesse novo ciclo, produtividade continuará sendo essencial. Mas a capacidade de interpretar dados, antecipar riscos e tomar decisões estratégicas pode se tornar um diferencial tão importante quanto a tecnologia presente nas máquinas ou nas lavouras. O agro brasileiro mostrou ao longo de sua história uma enorme capacidade de adaptação. Em um mundo mais instável, essa habilidade continuará sendo uma de suas maiores vantagens competitivas.
Luis Vinha e Gregori Boschi são sócios da [BIM]³ – Boschi
Inteligência de Mercado, consultoria especializada em fornecer soluções
customizadas para conectar estratégia e execução de negócios em crescimento