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Ave Maria! – o filme “O quarto ao lado”
Da Redação | 07 de março de 2026 - 00:58
Por Mário Sérgio de Melo
A oração católica diz “... rogai por nós, pecadores, agora e
na hora da nossa morte, amém!”. A palavra “pecadores” seria melhor substituída
por “imperfeitos”. Somos imperfeitos, parte de uma humanidade imperfeita,
oramos para que o espírito de luz da mãe de Cristo rogue por nós, mesmo na hora
da morte.
Vendo o filme “O quarto ao lado” (2024, escrito e dirigido
por Pedro Almodóvar, com Tilda Swinton, Julianne Moore e John Turturro nos
papeis principais), ele nos remete à oração católica. O filme faz corajosa
abordagem do espinhoso tema “eutanásia”. Não só a da personagem principal. Num
dado momento, um surpreendente diálogo entre os dois personagens secundários
faz uma conexão entre a morte do indivíduo – no caso pela eutanásia –, e o fim
da civilização atual, este pela pela incúria. Seria, então, mais um suicídio
não assumido, como o de um alcoólatra, um drogado, ou a sociedade fascinada e
inebriada pelo dinheiro, poder e posse.
O filme é uma mensagem que o fim pode ser belo. Alerta-nos
que deveríamos saber reconhecer a riqueza e a beleza da vida, e deveríamos
aceitar o fim inevitável, e saber fazê-lo sereno, elegante, amoroso. A
personagem principal escolhe para o fim uma casa num lugar encantador, junto à
natureza, longe da feiura e crueldades da vida real. O filme é de uma estética
impecável, tudo é belo, ao contrário dos horrores da vida de correspondente de
guerra da personagem. Ela escolheu ter um fim cercado de beleza, não só a do
ambiente, mas também compartilhando seus melhores sentimentos e memórias com a
antiga e quase esquecida amizade, que ela recuperava.
No diálogo com o intelectual pessimista que prevê o fim da
humanidade, surge a questão: não deveríamos fazer deste possível fim também um
momento belo e amistoso, resgatando o que há de melhor, e absolvendo as
imperfeições que conduzem ao fim? No caso da personagem, o fim inevitável, a
doença terminal. No caso da humanidade, o fim talvez ainda evitável, o
apocalipse fruto do desvario com os desejos e criações que se tornam
incontroláveis.
Há ainda no filme outro personagem essencial: o policial
fanático religioso, para quem abreviar a vida, ainda que seja a própria, é
crime imperdoável. E quem dele participa é cúmplice. Só vendo o filme para
sentir a contradição entre as naturezas dos personagens, compreender a
grandiosidade das imperfeições e pecados humanos.
Resta invocar Maria, mãe de Jesus, para que rogue por nós.
Talvez ela nos resgate, como a personagem do filme, tudo aquilo que há de belo
e amoroso na humanidade, que nos trouxe até esta encruzilhada que vivemos hoje.
Na visão do intelectual do filme – ou seria um lúcido realista? – estamos a
caminho de um final inevitável. Pode ser que sim, pode não ser. A doença da
humanidade pode não ser terminal, pode não ser irreversível. Então, “... rogai
por nós, imperfeitos, agora e na hora da nossa morte...”.
Que esta hora ainda esteja distante, oxalá até lá saibamos
resgatar a beleza e a amorosidade que a vida e a consciência nos concedem.
Mário Sérgio de Melo é Geólogo, professor aposentado do Departamento de Geociências da UEPG