Debates
A pandemia final
Da Redação | 27 de janeiro de 2026 - 00:17
Por Mário Sérgio de Melo
Alguns especialistas afirmam tê-la identificado, mas são
desacreditados por outros, que parecem já infectados por ela. Seus sintomas são
intricados: esquecimento, falta de discernimento, alheamento, dificuldade de
enxergar a realidade e distinguir engodo de veracidade. Estes sintomas
desencadeiam distorções de comportamento, tais como um alucinante conflito
entre ceticismo e incredulidade, e, de outro lado, fé cega em supostos
vaticínios religiosos, inventados por outros já infectados.
Outros sintomas são intolerância com o diferente, apego ao
dinheiro, posses, status e poder, perda do senso crítico e da ética,
irritabilidade, violência, hipocrisia, desonestidade, perversão sexual. Os
contaminados o são em todos os países, raças, classes socioeconômicas,
religiões, gêneros, ideologias e ocupações. Médicos, militares, políticos,
agricultores, religiosos, professores, estudantes, cientistas, esposas do lar,
parece que ninguém escapa. Um idoso encanecido e engelhado encontrado
casualmente na rua, no shopping ou na repartição, pode subitamente irromper em
uma cruzada verbal odienta. Transforma-se num Dom Quixote arremetendo contra os
moinhos de vento.
Pesquisas têm buscado, sem sucesso, identificar o vírus,
suas origens e as causas da propagação da nova pandemia. Os pesquisadores ainda
debatem entre si, alguns dizem que ela é inexistente, seriam ilusões da
inteligência artificial, que já atua para dominar a humanidade. Àqueles que
acreditam nessa pandemia, resta a hipótese de que se trate de um novíssimo tipo
de vírus, que não tem materialidade. É como energia pura, no campo das ideias e
do psiquismo humano. Há suposições da origem extraterrestre de tais vírus.
Embora imateriais, agem no mundo material, provocando comportamentos de
rebanho, em que a lucidez individual é substituída pela vontade da massa enlouquecida.
Alguns pesquisadores lembram que já em 1921, no livro
“Psicologia das massas e análise do eu”, Sigmund Freud já tinha previsto a
pandemia, mas não foi acreditado. Ou, pior, foi compreendido por alguns poucos
inescrupulosos, que usaram as descobertas do psicanalista para manipular e
aproveitar-se das massas. Por outro lado, o desafio está colocado: quais são as
causas mais severas da patologia, como combatê-las?
A busca da prevenção e cura da avassaladora doença está
angustiante, ainda sem solução. Alguns falam que seria a educação, mas ela
parece também já contaminada. Outros dizem seja a religião, ela também
infectada e suspeita. Outros dizem ser doença incurável, da qual estamos só
começando a ver os sintomas e seus calamitosos efeitos: a pandemia vai
alastrar-se de forma inexorável, vai extinguir todos os contaminados.
Só vai sobrar uma minoria, a dos naturalmente imunes. Pesquisas
preliminares têm indicado um certo grau de correlação entre imunidade e
empatia, amizade, humildade, despojamento, solidariedade, amorosidade, afeto
sincero e desinteressado...
Mário Sérgio de Melo é Geólogo, professor aposentado do Departamento de Geociências da UEPG