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Setor madeireiro projeta expansão em PG

Presidente do Sindimadeira, Álvaro Scheffer Júnior, analisa impactos das tarifas, oportunidades de novos mercados e a corrida pela industrialização da madeira no Paraná

Sob a liderança de Álvaro Scheffer Júnior, o sindicato se tornou referência na articulação entre empresas, governo, universidades e fornecedores
Sob a liderança de Álvaro Scheffer Júnior, o sindicato se tornou referência na articulação entre empresas, governo, universidades e fornecedores -

Ponta Grossa e os Campos Gerais abrigam uma das cadeias produtivas mais tradicionais e, ao mesmo tempo, mais inovadoras da economia paranaense: o setor madeireiro. Muito além da percepção comum de um segmento restrito à produção de madeira bruta, trata-se de um arranjo industrial complexo, tecnológico e decisivo para o desenvolvimento regional — responsável por movimentar exportações, gerar milhares de empregos, atrair investimentos e impulsionar avanços em construção civil sustentável, energia limpa e indústria 4.0.

À frente desse ecossistema, o Sindicato das Indústrias de Serrarias, Carpintarias e Tanoarias, e de Marcenarias de Ponta Grossa (Sindimadeira) vem se consolidando como um dos atores mais importantes da Casa da Indústria dos Campos Gerais. Sob a liderança de Álvaro Scheffer Júnior, o sindicato se tornou referência na articulação entre empresas, governo, universidades e fornecedores de tecnologia, atuando diretamente na defesa da competitividade regional, no estímulo à inovação e na promoção da madeira engenheirada como solução estratégica para o futuro da construção civil no Brasil.

Em um momento decisivo, marcado por desafios tarifários internacionais, transformações tecnológicas e novas oportunidades ambientais e produtivas, ouvir quem está no centro desse processo é fundamental para compreender o presente e projetar o futuro do setor. Nesta entrevista, Álvaro Scheffer Júnior apresenta uma análise profunda do cenário atual, das perspectivas para 2026 e das ações que podem transformar a região em um dos polos mais avançados do país na industrialização da madeira.

1. O Paraná foi destacado como o segundo maior produtor florestal do Brasil, respondendo por 17,2% da produção nacional de madeira em tora para papel e celulose, e 39,4% da produção para outras finalidades. Como o senhor avalia a competitividade das empresas do setor madeireiro em Ponta Grossa e região para aproveitar esse potencial?

Álvaro Scheffer Júnior: O Paraná, sem dúvida, é o polo mais completo do país no que diz respeito à cadeia produtiva da madeira. Aqui nós utilizamos a floresta por completo, desde as pontas dos galhos até os troncos mais grossos. A madeira mais fina é destinada à produção de celulose, papel e chapas, enquanto as partes mais grossas vão gerar produtos para a construção civil, móveis e outros usos, aproveitando também serragem, casca e cavaco. A cadeia aqui é muito completa. Na região dos Campos Gerais, onde fica Ponta Grossa, temos essa cadeia numa escala menor, mas muito bem estruturada. Somos capazes de utilizar toda a floresta como um recurso multiproduto.

2. O setor madeireiro do Paraná registrou crescimento de aproximadamente 12,4% em 2024, superando outros estados como Santa Catarina. Quais fatores internos contribuíram para esse desempenho e quais obstáculos persistem para 2026?

Álvaro Scheffer Júnior: Como mencionei, temos uma cadeia produtiva muito completa. O ano de 2024 foi excelente, principalmente para as empresas exportadoras, com destaque para o mercado americano, que consumiu muita madeira até o meio deste ano. Contudo, houve uma queda brusca depois disso. Para 2026, espera-se uma retomada do mercado americano, caso as questões tarifárias sejam solucionadas. Paralelamente, buscamos outros mercados, diversificando. Também estamos focando muito na inserção da madeira engenheirada na construção civil. O ano de 2025 não terá o mesmo desempenho de 2024, mas a expectativa para 2026 é positiva.

3. Segundo relatório estadual, está em curso no Paraná a certificação nacional da madeira engenheirada, liderada pelo Tecpar. Como as empresas do segmento madeireiro da região estão envolvidas e qual o impacto esperado para a industrialização da madeira?

Álvaro Scheffer Júnior: Trabalhamos intensamente, especialmente o polo de Ponta Grossa, em parceria com os governos estadual e federal e a FIEP, para inserir a madeira na construção civil e desenvolver a tecnologia necessária. Buscamos inovação para equiparar a madeira engenheirada à alvenaria. Esse é um mercado em forte crescimento, também impulsionado pelo apelo ambiental. A madeira industrializada na construção fixa carbono, reduzindo emissões de gases do efeito estufa e possibilitando construções de carbono negativo. Essa tendência pode substituir o concreto e sistemas convencionais por madeira engenheirada, que é mais rápida, eficiente e oferece maior conforto térmico e acústico, além de ser ambientalmente correta.

4.  Quais são as necessidades para viabilizar essa substituição?

Álvaro Scheffer Júnior: Uma equiparação tributária é fundamental, pois atualmente a construção civil convencional para fim social tem uma tributação de 1%, enquanto a construção industrializada, incluindo a de madeira, está em 33%. Essa equiparação beneficiaria todo o sistema construtivo industrializado, como Steel Frame e Wood Frame.

5. Como está a participação das indústrias madeireiras no mercado de carbono?

Álvaro Scheffer Júnior: O mercado de carbono ainda é uma questão incerta globalmente. Temos inventários que mostram a retenção de carbono pelas florestas e pelos produtos industrializados, mas a comercialização desses créditos está apenas começando. Ainda é um processo embrionário, mas certamente é um mercado que crescerá no futuro. Na nossa região, as indústrias ainda não conseguem usufruir plenamente desse benefício.

6. Municípios da região têm sido afetados por tarifas impostas pelos EUA, com impacto direto nas indústrias locais. Como o sindicato patronal está trabalhando para mitigar esses efeitos e quais ações práticas estão sendo promovidas para 2026??

Álvaro Scheffer Júnior: O sindicato trabalhou de forma ativa com a FIEP e os governos estadual e federal desde o início das tarifas, buscando medidas de curto prazo para defender empregos e a indústria. Houve promessas de crédito do ICMS na exportação, linhas subsidiadas do BRDE e o programa Brasil Soberano. Contudo, essas medidas são paliativas. A solução definitiva depende do fim das tarifas e de uma equiparação global, para restaurar a competitividade. Até lá, os efeitos serão difíceis.

7. O setor madeireiro paranaense sofre com tarifas aplicadas pelos EUA, com risco de até 10 mil demissões. Como isso afeta a estratégia de exportação das empresas e quais alternativas estão sendo planejadas para 2026 e o que está sendo feito para evitar demissões?

Álvaro Scheffer Júnior: Aqui em Ponta Grossa, várias empresas fecharam e outras reduziram drasticamente a produção, adotando férias antecipadas, rodízios e redução de jornada. O sindicato dos trabalhadores foi parceiro importante nesse processo. No Paraná, houve demissões em massa, com cortes superiores a 50% nos quadros de funcionários de algumas empresas. Muitas reduziram de três turnos para menos de um turno de trabalho. Além de demissões, houve trabalho em home office e redução salarial, mas são soluções temporárias.

8. Quais as medidas o setor considera adequadas para mitigar os impactos?

Álvaro Scheffer Júnior: O setor madeireiro do Paraná depende fortemente do mercado americano. Cerca de 80% da produção do nosso polo é destinada a esse mercado. Não é possível redirecionar rapidamente esse volume para outros mercados, que já estão atendidos. O resultado é uma queda expressiva de preços e o fechamento de empresas. A adaptação demanda investimento e tempo, que muitos não têm. Em 2025, o segundo semestre foi especialmente difícil. A melhor estratégia hoje é acelerar a inserção da madeira na construção civil no mercado interno, trazendo esse consumo para cá e gerando alternativas para a indústria.

9.  Quais os principais mercados alternativos que estão sendo buscados?

Álvaro Scheffer Júnior: Estamos tentado relocar a madeira que eram destinados ao mercado Americano em alguns outros países como China e países da Europa e no mercado interno, porém com produtos diferentes dos destinados à construção civil americana. Por exemplo, a produção de cercas e molduras que era destinada exclusivamente para o mercado americano teve que parar a produção pela situação das tarifas impostas. Realocar essa produção leva tempo e custa caro.

10. Qual a expectativa do setor em relação ao governo?

Álvaro Scheffer Júnior: Somos otimistas e acreditamos que o governo precisa sentar para resolver essa questão da tarifa norte americana. O setor florestal representa 40% do valor exportado do Paraná, mas após as tarifas, as exportações de madeira sólida praticamente cessaram, restando apenas celulose e papel. O impacto na arrecadação e no desemprego será grande. Em Bituruna, por exemplo, 67% da população trabalhava no setor florestal, e quando uma atividade para, afeta toda a cadeia, incluindo restaurantes e transportadores. Aqui em Ponta Grossa, há um diferencial: chegam novas empresas, o que ajuda na recolocação de mão de obra, mas a oferta futura de trabalhadores qualificados será um desafio. O sindicato e a federação precisam focar em qualificação profissional, preparando a mão de obra para o alto nível tecnológico das indústrias.

11. Esse momento difícil pode ser uma oportunidade para investir em qualificação?

Álvaro Scheffer Júnior: Sim, é uma alternativa importante. A qualificação deve partir do sindicato e da federação, não apenas das empresas, ajudando os empresários a aumentar a eficiência e a produtividade com a mesma ou menos mão de obra.

12.  Voltando aos desafios da estabilidade do fornecimento de matéria-prima e baixa industrialização da cadeia produtiva, quais as prioridades para 2026?

Álvaro Scheffer Júnior: Precisamos expandir a área plantada, especialmente em pastagens degradadas. Recentemente, houve estagnação ou redução da área plantada no estado, o que deve ser revertido com incentivos do governo. O Paraná possui a maior área plantada de pinus do país e é o quarto em área total plantada. É fundamental industrializar totalmente essa floresta disponível. O fechamento de indústrias no segundo semestre reforça a necessidade de investimentos públicos e privados em novas tecnologias para aumentar a produção.

13. O índice de preços ao produtor da indústria da madeira registrou queda acumulada em 2025. Qual o impacto dessa redução para as empresas regionais e como se proteger em 2026?

Álvaro Scheffer Júnior: Será necessário desenvolver novos mercados e incentivar fortemente o uso da madeira na construção civil. A queda de preços ocorreu no mercado externo, resultado das tarifas que encerraram o maior mercado consumidor de madeira sólida que tínhamos. O caminho para recuperar competitividade inclui qualificação da mão de obra e investimentos em tecnologia, evoluindo para uma indústria 4.0. Essa ajuda depende fortemente do apoio do governo federal, estadual e federações.

14. O que sindicato e federação estão fazendo para incentivar a inovação?

Álvaro Scheffer Júnior: Estimulamos a participação em feiras e busca por novas tecnologias, além de desenvolver a madeira engenheirada para construção civil. O setor de madeira sólida está passando por um momento de grande transformação tecnológica nos últimos quatro anos, semelhante ao que já ocorreu na área florestal, que evoluiu para uma silvicultura de precisão com alta mecanização e controle digital, aumentando produtividade mesmo em terrenos acidentados.

15. Quais são as principais oportunidades previstas para o setor madeireiro local e estadual em 2026?

Álvaro Scheffer Júnior: A maior oportunidade é a incorporação da madeira na construção civil e desenvolvimento do mercado interno. A situação tarifária levantou um alerta positivo, destacando o potencial da madeira como um produto nobre que oferece conforto térmico e acústico, qualidade habitacional e benefício ambiental muito valorizado globalmente.

16. E do que depende esta agenda atualmente?

Álvaro Scheffer Júnior: O incentivo deve ser uma ação conjunta entre sindicatos, federações, governos estadual e federal. Dependemos de apoio financeiro e equiparação tributária, especialmente para que a madeira engenheirada entre em programas habitacionais sociais, como o Minha Casa Minha Vida, com tributação equiparada à construção convencional. É uma cadeia onde todos devem colaborar.

17. O lobby da FIEP atua nesse sentido?

Álvaro Scheffer Júnior: Sim, os sindicatos trabalham fortemente com a FIEP. Buscamos linhas de crédito diferenciadas na Caixa Econômica Federal e colaboramos com o governo para incentivos à construção civil com madeira engenheirada. O governo estadual possui programa de habitação rural que prioriza esse tipo de construção. O governo federal também tem metas de redução de emissões na construção civil. Em outros países, como EUA e países da Europa, a construção com madeira é consolidada, o que representa uma oportunidade para o Brasil desenvolver esse mercado com alta tecnologia e qualidade, incluindo painéis CLT e sistemas Wood Frame e Steel Frame.

18. Quais riscos o sindicato identifica para as empresas da região no próximo ano e como pretende enfrentá-los?

Álvaro Scheffer Júnior: Que o tema tarifário não seja resolvido; falta de avanço na qualificação profissional; paralisação em melhorias de infraestrutura viária, especialmente nas estradas de terra que dificultam o transporte de madeira; deficiências na rede de energia elétrica, com oscilações que prejudicam a indústria 4.0; e falta de investimentos públicos em infraestrutura e transporte público no distrito industrial de Ponta Grossa, que hoje força empresas a contratar transporte privado.

19. Como está o diálogo com o governo sobre esses desafios?

Álvaro Scheffer Júnior: Temos diálogo constante, principalmente por meio do coordenador do Conselho Regional da Fiep nos Campos Gerais/Centro-Oriental, Rafael Rickli, que tem atuado muito na questão da energia. Contudo, investimentos em melhorias de rede elétrica e transmissão dependem do governo e da Copel. O município precisa melhorar transporte público e qualificação profissional, com uma Agência do Trabalhador mais ativa em parceria com sindicatos e federação, para transformar benefícios sociais em capacitação e emprego.

20. Como o senhor avalia o papel da cooperação entre empresas, governo e fornecedores de tecnologia para tornar o setor da madeira da região de Ponta Grossa uma referência nacional em 2026?

Álvaro Scheffer Júnior: A tecnologia está disponível, nacional e internacionalmente. Os empresários necessitam de linhas de crédito para investir em modernização, é essencial que governos federal e estadual apoiem esse desenvolvimento. Dependemos de um apoio também no desenvolvimento de novos mercados, como o da construção civil. Precisamos de melhorias em rodovias, transmissão de energia e infraestrutura. Todas essas melhorias e incentivos fazem com que o empresário corra atras de novas tecnologias e consequentemente tenha aumento de produção.

Com informações de assessoria de imprensa 

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