Covid-19, Agricultura e Agrotóxicos

Por Luiz L. Foloni

A pandemia da SARS-Cov 2, ou Covid-19, impôs ao mundo uma quarentena e mudanças de hábitos sem precedentes. A velocidade de contaminação e o número de mortes advindos dessa gripe fizeram as pessoas, praticamente do mundo inteiro, alterar seus hábitos de convivência, de relacionamento familiar e interpessoais, de educação, de trabalho, de compras e de viagens, obrigando-as a ficar confinadas em casa para minimizar os riscos de contágio.  Até as compras de itens básicos de alimentação sofreram um impacto inicial, pelo medo das pessoas de irem às compras e se infectarem.

Foi veiculado, em um primeiro momento, em função desta demanda atípica, que haveria desabastecimento nas gôndolas dos supermercados, fato que ocorreu em pequena escala, mas não por falta de produtos agrícolas, mas em função de logística de abastecimento, rapidamente corrigida.

A produção nacional de produtos agrícolas e a indústria de processamento a ela ligada nunca foram tão pródigas. O agricultor, diferentemente da população urbana, não ficou de quarentena, aliás, nem poderiam, pois nas propriedades rurais é preciso seguir o calendário do clima, das plantas e dos animais. Tem o tempo de plantar, de cuidar e de colher. Ainda, o de tratar dos animais, de tirar o leite, do abate e de processar as carnes. Tudo em seu tempo.

Nesse quesito, os agricultores não poderiam mudar sua rotina e não ficaram confinados. Continuaram produzindo e gerando alimentos, tanto em qualidade como em quantidade, para abastecer a população daqui e o excedente para exportação. O agro mostrou uma força pujante durante este tempo todo, pois, enquanto todos os outros setores praticamente pararam e, consequentemente, mostraram um desempenho negativo no PIB, a força do agro continuou com seu desempenho positivo e crescente. A FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura) relatou que um país é autossuficiente quando produz 250 kg de alimentos por ano/habitante. O Brasil produz mais de 1000 kg, o que gera esse excedente exportável.

Diferentemente do veiculado na imprensa internacional, os agricultores, na sua grande maioria, não usam o bioma Amazônico, derrubando florestas, para a produção de grãos. Esta análise é feita por institutos brasileiros renomados como a EMBRAPA, que em mapeamentos por satélites, mostram que o Brasil usa menos de 10% de sua área territorial em atividades agrícolas e em torno de 20% para a pecuária. Em contrapartida mais de 66% do território está preservado em florestas. Nenhum país do mundo tem tanta área preservada. O paradoxo é que ao invés de ser reconhecido por manter mais da metade do seu território com vegetação florestal nativa, ele é severamente criticado por aqueles que já desflorestaram os seus países no passado.

O Brasil possui uma agricultura dinâmica, que utiliza tecnologia de ponta. Dentre os 65 a 70 milhões de hectares plantados para produzir grãos, 32 milhões são no sistema de plantio direto, e mais uma parte de cerca de nove milhões com cana-de-açúcar, onde não se utiliza o preparo do solo. A área é limpa com herbicidas, e, a seguir, a semeadura é feita por máquinas que depositam a semente diretamente no solo. Este processo permite que na região sul, parte da sudeste e sul do centro oeste, possam ser feitas até três culturas por ano na mesma área, chamadas de cultura de verão, de segunda safra (ou safrinha) e de inverno. Nas outras regiões são possíveis as safras de verão e safrinha. A título de exemplo, o Brasil produz mais milho de safrinha (nas mesmas áreas onde foi cultivada a soja), que na própria safra de verão. Esta tecnologia é altamente eficiente, pois permite usar o solo plenamente, contribuindo para o aumento de produtividade por unidade de área. A tecnologia do plantio direto é utilizada em outros países, mas não de forma tão eficiente quanto aqui, pois lá existe um inverno rigoroso com neve, que impossibilita tal rotação.

E tem mais: este sistema, por não revolver o solo e estar permanentemente coberto com cultura ou pelos resíduos da cultura anterior, sequestra o CO² do ar (gás do efeito estufa), armazenando-o no solo. Portanto, mais da metade da área brasileira utilizada para cultivo, utiliza desse processo conservacionista. Assim, conquanto se utilizem os agrotóxicos, pratica-se uma agricultura sustentável. Os dados estatísticos mostram que a produtividade brasileira ao longo dos últimos anos aumentou não somente por incorporação de novas áreas, mas, significativamente, por unidade de área plantada. Estes dados de produtividade são de dar inveja a qualquer país. Daí o ataque ao nosso agro, que utiliza produtos fitossanitários demais, que está derrubando a floresta para implantar o agro. Na verdade, estamos incomodando os países desenvolvidos, pois até 1970 éramos importadores de alimentos. Assim, tornamo-nos um competidor eficiente no uso da terra, produzindo mais em menos, por um custo acessível.

Para manter as lavouras livres de pragas, doenças e plantas daninhas, existe a necessidade de se utilizar agentes químicos e biológicos, além de um manejo racional destas pragas (MIP – Manejo Integrado de Pragas), objetivando colher o produto final em condições de ir ao mercado. O produtor tem que cuidar da cultura implantada, da melhor forma possível, assim faz os tratamentos preventivos e/ou curativos, conforme eles ocorrem. Aí surge a necessidade de se utilizarem os tais “agrotóxicos” (na verdade produtos fitossanitários, que buscam eliminar aquelas pragas). Estas ferramentas são eficazes se utilizadas de acordo com as recomendações. Assim como os remédios para o ser humano, se usados de forma errada, podem causar a morte, na agricultura, os alimentos podem levar resíduos para o consumidor final.

E por que comparar a agricultura com a Covid-19?

Bem, a imprensa tem relatado diariamente que a solução para acabar com o medo da população será a existência de uma vacina eficaz para imunizar a todos. Tem mostrado também a notável força dos cientistas na busca incessante dessa vacina, nos países com recursos técnicos e financeiros. Não se encontra uma vacina pronta em qualquer esquina. Depende de tempo, muito tempo, utilizando todo o conhecimento científico, para o seu desenvolvimento, de forma eficaz e segura. E, após consegui-la, tem ainda as fases de testes em laboratório, em cobaias e finalmente em humanos. O desenvolvimento é longo, custoso, avaliado por muitos pesquisadores, em várias instituições.

Para os agrotóxicos o caminho é exatamente o mesmo: necessita-se de cientistas para descobrir e muito tempo para avaliar sua eficiência, a segurança para o ser humano e o ambiente e o nível de resíduo que possa ter na alimentação. Assim, os protocolos de estudo são submetidos da mesma forma às agências reguladoras e, somente após rigorosa análise, que leva vários anos, é que o novo produto é lançado no mercado. Após o lançamento, estudos continuam a ser realizados nos centros de pesquisas e nas universidades. Todos buscam a máxima segurança; a ciência não para. Assim como o médico prescreve uma receita com a medicação, os agrotóxicos são vendidos somente com receita agronômica, emitida por um engenheiro agrônomo.

Portanto, se tem alimento disponível na gôndola do supermercado, agradeça ao agricultor a disponibilidade do alimento para o seu consumo, mesmo em tempos de Pandemia.

 

Luiz L. Foloni, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), engenheiro agrônomo pela UNESP e doutor em Agronomia (Solos e Nutrição de Plantas) pela USP

 

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