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Com show de 50 anos, Djavan transforma Pedreira Paulo Leminski em imenso coro

Show de Djavan em Curitiba começou quase no horário, pois antes do espetáculo, o público assistiu à estreia do Brasil na Copa do Mundo, contra o Marrocos

Djavan em Curitiba transformou a Pedreira Paulo Leminski em um grande coro celebrando 50 anos de carreira
Djavan em Curitiba transformou a Pedreira Paulo Leminski em um grande coro celebrando 50 anos de carreira -

Publicado por Iolanda Lima

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Há artistas que fazem shows. Outros criam experiências capazes de permanecer na memória por muito tempo. Foi exatamente isso que aconteceu na noite deste sábado (13), quando, em Curitiba, Djavan passeou por várias fases dos seus 50 anos de carreira.

Diante de uma Pedreira Paulo Leminski lotada (recebendo o artista pela primeira vez), com aproximadamente 23 mil pessoas, o cantor alagoano mostrou que sua obra atravessou gerações sem perder força e que sua presença de palco continua impressionante aos 77 anos. A cobertura foi do Portal Banda B, parceiro do Portal aRede.

O show começou quase no horário previsto, pois antes do espetáculo, o público pôde assistir à primeira partida do Brasil na Copa do Mundo, contra o Marrocos. Após o término do jogo, as luzes se acenderam, a banda assumiu o palco e o instrumental de “Improviso” preparou o terreno para a entrada de Djavan. Bastaram os primeiros acordes de “Sina” para que a Pedreira se transformasse em um gigantesco coral.

Mais do que uma celebração de números redondos, “Djavanear – 50 Anos. Só Sucessos” funcionou como uma viagem pela trajetória de um dos compositores mais importantes da música brasileira. E talvez o mais impressionante tenha sido perceber que não havia uma única faixa etária predominante na plateia.

Jovens, casais, famílias inteiras e fãs que acompanham o artista desde os anos 1970 cantavam juntos, como se todos compartilhassem a mesma história.

Djavan em Curitiba: “Sina”, “Eu Te Devoro” e a força de um repertório que atravessa gerações

Desde os primeiros minutos, ficou claro que o cantor não precisaria conquistar o público. A conexão já estava estabelecida. “Sina” abriu os trabalhos com a mistura característica de jazz, samba e sofisticação harmônica que transformou Djavan em uma figura singular dentro da MPB.

Logo depois vieram canções como “Eu Te Devoro”, “Boa Noite” e “Cigano”, recebidas com entusiasmo por uma plateia que parecia conhecer cada palavra.

A banda que o acompanha merece destaque. Piano, teclados, metais, baixo, bateria, guitarras e vocais de apoio ajudaram a construir arranjos sofisticados sem jamais tirar o protagonismo das canções. O resultado foi um espetáculo elegante, sem excessos, mas repleto de riqueza musical.

Djavan também demonstrou impressionante vigor físico. Caminhou pelo palco, ocupou a passarela diversas vezes e dançou discretamente, não só para diversificar a performance das canções, mas também para se aquecer e escapar do frio lancinante que tomou conta da noite.

De todo modo, manteve uma performance vocal consistente durante mais de duas horas, apresentando um fôlego invejável. Não foram poucos os comentários na plateia, com as pessoas comentando, surpresas, sobre a idade do cantor e a sua disposição.

O momento mais emocionante da apresentação aconteceu quando a grandiosidade da produção deu lugar à simplicidade. Djavan caminhou até a ponta da passarela, sentou-se em um banco com o violão no colo e ficou sozinho diante de milhares de pessoas. O estádio inteiro pareceu diminuir de tamanho.

Foi nesse cenário que surgiu “Meu Bem Querer”, recebida com um dos maiores coros da noite. A interpretação carregava a mesma delicadeza que tornou a canção um clássico absoluto da música brasileira.

Em seguida veio “Oceano”. Poucas músicas conseguem provocar uma reação tão imediata em um público numeroso. Muito disso por conta da inserção da canção como tema da protagonista vivida por Malu Mader na novela “Top Model” (um dos maiores ibopes da história da Rede Globo).

Centenas de celulares se levantaram ao mesmo tempo enquanto milhares de vozes assumiam boa parte da canção. Não havia necessidade de estímulo. O público simplesmente sabia o que fazer. Foi um daqueles momentos em que o espetáculo deixa de ser apenas uma apresentação e passa a funcionar como uma experiência coletiva.

A sequência ainda trouxe “Lambada de Serpente” e “Mal de Mim”, mantendo a atmosfera intimista antes da volta da banda completa ao palco.

Outro instante de forte carga emocional ocorreu durante a trinca “Azul”, “Açaí” e “O Vento”. As músicas serviram como homenagem a Gal Costa, uma das maiores intérpretes da obra de Djavan. A lembrança da cantora baiana emocionou parte da plateia e deu ao show um tom de celebração da própria história da música brasileira.

Na reta final, o show voltou a ganhar energia, apesar das versões reduzidas de “Fato Consumado” e “Flor de Lis”. São músicas tão importantes em sua trajetória que talvez merecessem aparecer completas no repertório. Ainda assim, a reação do público era a mesma: condensando ou não as canções, as duas horas e meia de show não eram suficientes. Todas as pessoas presentes queriam muito mais de Djavan.

Antes do encerramento, o cantor apresentou seus músicos, abrindo espaço para a despedida, que veio com uma sequência praticamente imbatível. “Samurai”, “Lilás” e “Um Amor Puro” foram cantadas em coro por uma Pedreira completamente entregue ao espetáculo. O bis reservou novamente “Sina”, fechando o show da mesma forma como havia começado: com a multidão acompanhando cada verso.

Ao final, ficou a sensação de que Djavan não estava apenas comemorando cinco décadas de carreira, mas confirmando o óbvio: a consolidação de uma trajetória rara. Um artista que continua fiel à própria identidade, que não precisa recorrer à nostalgia para emocionar e que ainda consegue reunir mais de 20 mil pessoas em torno de canções sofisticadas, complexas e profundamente populares ao mesmo tempo.

Cinquenta anos depois daquele jovem compositor que causou fascínio e estranheza entre público e crítica, Djavan segue ocupando um lugar que poucos artistas brasileiros alcançaram. E, pelas cenas vistas, continua sem ter sucessor à vista. Mas essa “despedida” com certeza merece um “até logo”.

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