Assédio moral no trabalho deve ser crime
Proposta foi debatida pela Comissão Senado do Futuro (CSF)
Proposta foi debatida pela
Comissão Senado do Futuro (CSF)
Propostas de criminalização do
assédio moral no trabalho foram debatidas nesta quarta-feira (23) pela Comissão
Senado do Futuro (CSF). A audiência pública fez parte do ciclo de debates 2022:
O Brasil que queremos, voltado à discussão de medidas para o desenvolvimento
social, tecnológico e econômico brasileiro até o ano em que se comemora o
bicentenário da independência do país.
A discussão foi sugerida pelo
presidente da comissão, senador Hélio José (Pros-DF). Para ele, o assunto
precisa ser debatido para que a legislação seja aperfeiçoada e o assédio
eliminado das relações de trabalho.
— O assédio moral é a exposição
dos trabalhadores a situações humilhantes e constrangedoras repetitivas e
prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções. Não
podemos admitir o assédio moral, sexual e nenhum tipo de coação ou de pressão
contra o trabalhador.
A necessidade de se debater o
tema também foi defendida por Maura Lúcia Gonçalves dos Anjos, coordenadora
geral do Coletivo Nacional de Trabalhadores Assédio Nunca Mais. Ela explicou
que o grupo surgiu da sua experiência com o assédio e tem o objetivo de amparar
pessoas em igual situação.
— É um sofrimento que não consigo
relatar aqui. O assédio moral é uma coisa que deixa o profissional afastado dele
mesmo e de suas funções. Uma situação tão degradante que você não consegue
reagir. Eu passei por assédio moral durante três anos. Ele vai te roubando toda
a possibilidade de se firmar como pessoa e como profissional e você vai
adoecendo.
O coletivo propõe a criação de
duas novas normas, uma que criminalize o assédio moral e outra que reconheça o
sofrimento de assédio como uma doença do trabalho. Maura alerta ainda que
muitas vezes as pessoas só procuram ajuda quando chegam em uma situação extrema
e prolongada de assédio, podendo chegaraté ao suicídio.
Sem norma
Já Ricardo José das Mercês
Carneiro, procurador do trabalho e membro da Coordenadoria Nacional de Promoção
de Igualdade de Oportunidades (Coordigualdade), afirmou que há pouquíssimas
normas de alcance geral no Brasil, a maior parte é de âmbito estadual ou municipal.
Ele destacou que a Consolidação
das Leis do Trabalho (CLT) é insuficiente porque não prevê punição ao
assediador, exceto quando se trata de assédio corporativo, não vale para o
servidor público e e não abarca os vários tipos de assédio.
— É fundamental que se tipifique
o crime relacionado com o assédio moral. O Ministério Público do Trabalho é a
favor da criminalização do assédio moral que atenda tanto ao setor público
quanto ao setor privado — afirmou.
Ricardo disse ainda que é preciso
ter cautela na criação de uma nova legislação para que esta não banalize o
crime e não seja excessivamente analítica ou inaplicável. Ele sugere que a
conduta seja enquadrada como crime formal, sem a exigência da produção do
resultado para a ocorrência do crime, e como delito simples, possível de ser
praticado por qualquer pessoa.
Na falta de legislação, João
Paulo Ferreira Machado, auditor fiscal do Ministério do Trabalho, recomenda que
as vítimas de assédio moral interpessoal anotem com detalhes as ocorrências e
evitem ficar sozinhas com os assediadores. Na identificação da conduta, ele
recomenda que a vítima recorra aos superiores hierárquicos do assediador e às
ouvidorias institucionais, além de sindicatos e Ministério Público.
Cenário
No Brasil, segundo Ricardo Carneiro,
o assédio moral no trabalho está muito relacionado a situações de caráter
discriminatório. As principais vítimas são as mulheres, negros, pessoas com
deficiência e com idade avançada. Ele afirma ainda que a perpetuação da prática
está relacionada também ao cenário econômico do país.
— O assédio moral é uma violência
de caráter global, mas no caso brasileiro ela assume uma faceta cruel na medida
em que vem somada a um contexto de crise econômica e desemprego.
Dados sobre o cenário brasileiro
de assédio moral foram expostos por Juneia Martins Batista, secretaria nacional
da Mulher Trabalhadora da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Uma pesquisa
de 2015, realizada pelo site de oportunidades de emprego VAGAS.com, indicou que
47,3% dos entrevistados já haviam sofrido assédio moral. Destes, 87,5% não
denunciaram as ocorrências, principalmente pelo medo de perder o emprego (39%)
e de sofrer represália (31,6%).
Agência Senado