Umbanda completa 110 anos
O Código Penal de 1890, vigente no ano em que a umbanda foi fundada, criminalizava a prática dos cultos afros
O Código Penal de 1890, vigente no ano em que a umbanda foi fundada,
criminalizava a prática dos cultos afros
Preocupada, sua família, uma das
mais tradicionais de São Gonçalo, a 25 km do Rio, o levou a inúmeros médicos.
Nem o tio do rapaz, o psiquiatra Epaminondas de Moraes, quis arriscar um
diagnóstico. O máximo que uma "rezadeira" conseguiu foi aconselhá-lo
a desenvolver sua mediunidade. Um dia, Zélio acordou bem disposto e
aparentemente curado. Na dúvida, um amigo sugeriu uma visita à Federação
Espírita do Estado do Rio, em Niterói. Era o dia 15 de novembro de 1908.
Chegando lá, o médium José de
Souza, que dirigia a sessão espírita kardecista, pediu que Zélio sentasse à
mesa. A certa altura, espíritos de caboclos (ancestrais indígenas brasileiros)
e pretos velhos (escravos africanos) começaram a se manifestar. Na mesma hora,
o dirigente, alegando que eram espíritos "atrasados", pediu que se
retirassem.
Logo, Zélio foi incorporado por
uma entidade que saiu em defesa das demais: "Se não houvesse ali espaço
para espíritos de negros e índios cumprirem sua missão, ele (espírito)
fundaria, já no dia seguinte, um novo culto na casa de Zélio".
Quando perguntaram seu nome, a
entidade respondeu: "Caboclo das Sete Encruzilhadas". E, em seguida,
completou: "Para mim, nunca haverá caminhos fechados".
"Há várias maneiras de
definir a umbanda. Espiritismo abrasileirado é apenas uma delas. A religião valorizou
o papel de caboclos e pretos velhos como entidades espirituais", explica o
antropólogo Emerson Giumbelli, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS).
No dia seguinte ao de sua
primeira manifestação, 16 de novembro de 1908, o Caboclo das Sete Encruzilhadas
voltou a incorporar Zélio de Moraes. Dessa vez, para traçar as diretrizes da
nova religião: vestir roupas brancas, usar guias de contas coloridas e, entre
outras faculdades mediúnicas, priorizar a incorporação de espíritos.
"Com os que sabem mais,
aprenderemos. Aos que sabem menos, ensinaremos. Mas, a ninguém viraremos as
costas", teria dito, na ocasião, Zélio de Moraes. Por outro lado, proibiu
o jogo de búzios, o uso de atabaques e o sacrifício de animais.
"Um dos princípios básicos
da umbanda é jamais fazer o mal. Isso inclui querer algo que pertença à outra
pessoa, interferir no livre-arbítrio de terceiros ou cobrar para fazer
consultas ou atendimentos", exemplifica Leonardo Cunha, bisneto de Zélio.
Direito de imagemPEDRO PAULO
FIGUEIREDOImage captionLeonardo Cunha dos Santos (bisneto do Zélio) e Lygia
Maria Marinho da Cunha (neta de Zélio) são dirigentes espirituais da Tenda
Espírita Nossa Senhora da Piedade
'Psicólogo do pobre'
Se o dia 15 de novembro entrou
para a história como o Dia Nacional da Umbanda, o 16 de novembro ficou marcado
pela fundação da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. A casa situada no
número 30 da rua Floriano Peixoto, em Neves, São Gonçalo, já nem existe mais.
Foi demolida em 2011. Hoje, funciona em Cachoeiras de Macacu, a 97 km da
capital, e, pelo menos uma vez por mês, atende uma média de 120 pessoas.
"A umbanda pratica a
caridade e não cobra um centavo de ninguém. O preto velho é o psicólogo do
pobre", afirma Fátima Damas, presidente da Congregação Espírita Umbandista
do Brasil.
No Brasil, a liberdade de credo é
assegurada desde a primeira Constituição da República, de 1891. Mesmo assim, a
intolerância religiosa nunca deixou de existir. O Código Penal de 1890, vigente
no ano em que a umbanda foi fundada, criminalizava a prática dos cultos afros.
Por essa razão, a Tenda Espírita
Nossa Senhora da Piedade foi alvo constante de batidas policiais. "Meu avô
enfrentou preconceito até mesmo dentro de casa. Sua família era
predominantemente católica", relata a neta, Lygia Maria Cunha.
Zélio de Moraes dirigiu a Tenda
Espírita Nossa Senhora da Piedade até 1946, quando passou o comando para as
filhas Zélia e Zilméa, ambas já falecidas. Quando ele morreu, em 3 de outubro
de 1975, Lygia, sua neta, tinha 38 anos, e Leonardo, seu bisneto, 11.
Atual dirigente espiritual da
Piedade, como a família se refere à tenda espírita, Lygia conta que seu avô não
sabia nadar e até de piscina tinha medo. No entanto, quando incorporava a
entidade Orixá Malet, era capaz de entrar no mar e arriscar umas braçadas por
entre ondas fortíssimas.
"Da areia, acompanhávamos
tudo, apavorados. Já imaginou se a entidade resolvesse deixá-lo antes de ele
estar são e salvo na praia? Felizmente, isso nunca aconteceu", relata.
Adeptos
O atual presidente da Piedade,
Leonardo Cunha, explica que o nome umbanda só veio muito depois de sua
fundação. Originalmente, o nome do culto era alahbanda - em homenagem à
entidade Orixá Malet, que fora muçulmano em sua encarnação anterior. De origem
árabe, Alá ou Alah significa Deus. Já "banda", palavra coloquial do
idioma português do século 15, é sinônimo de lado. "Umbanda pode ser
entendida como Ao lado de Deus ou Com Deus ao lado", explica.
Segundo dados do Censo de 2010, o
número de umbandistas hoje no Brasil, 110 anos depois de sua fundação, chega a
432 mil. Uma queda de 20% em relação ao Censo de 1991.
Para Fátima Damas, da Congregação
Espírita Umbandista do Brasil, esses números não correspondem à realidade.
"Muitos umbandistas não admitem publicamente que são umbandistas. Por medo
ou vergonha, preferem dizer que são católicos", justifica.
Os casos de intolerância
religiosa, segundo a Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Políticas para
Mulheres e Idosos (SEDHMI), aumentaram, só no Rio de Janeiro, 56% em relação ao
primeiro trimestre de 2017. São 25 denúncias entre janeiro e abril contra 16 no
mesmo período do ano passado.
Em alguns casos, vândalos
depredam os terreiros, destroem imagens e fazem pichações: "Fora
macumbeiros!", "Não queremos macumba aqui!" e "Só Jesus
expulsa demônio das pessoas!". Em outros, pais, mães, filhos e filhas de
santo são impedidos de vestir branco, usar guias e até de entoar cânticos.
'Muita religião para pouco devoto'
Dados da Secretaria de Direitos
Humanos (SDH), órgão vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos (MDH),
revelam que os ataques a terreiros de umbanda e candomblé, entre outras, não
estão restritos ao Rio. Em 2011, o Disque 100 (Disque Direitos Humanos) atendeu
15 casos. Em 2015, foram 556. Ano passado, saltou para 759.
"Há uma teologia que se
dedica a ganhar territórios 'para Cristo' e a enfrentar 'inimigos'. Alguns
identificam esses inimigos entre os praticantes de religiões com elementos
espíritas e entendem a metáfora de 'guerra espiritual' no sentido literal da
palavra", analisa Giumbelli, da UFRGS.
Para o sociólogo Reginaldo
Prandi, da Universidade de São Paulo (USP), a intolerância religiosa nasce do
preconceito racial e agrega que "há muita religião para pouco devoto. Por
essas e outras, algumas igrejas neopentecostais chegam a impor metas de
conversão de umbandistas aos seus pastores".
Em quase 110 anos de fundação, a
Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade sofreu um único caso de vandalismo. Foi
nos anos 1980 quando um invasor, durante um surto psicótico, teria quebrado
alguns santos e ateado fogo no terreiro. As chamas não se alastraram.
Para os dias 15 e 16 de novembro,
Leonardo avisa que não vai ter festa. No máximo, bolo com champanhe. "Na
umbanda, espírito não desce para dançar, desce para trabalhar. Nossa vida só
tem sentido quando nos colocamos à disposição de Deus para servir ao
próximo", afirma.
Informações BBC
Brasil