Ponta Grossa pode se consolidar como grande plataforma multimodal do Sul do Brasil
Conselheiro de Saúde do Grupo aRede compara o crescimento de Ponta Grossa a um organismo em que as "artérias viárias" não podem ficar sobrecarregadas

O conselheiro da área da Saúde do Grupo aRede, Mário Rodrigues Montemór Netto, compara o crescimento econômico de Ponta Grossa ao funcionamento de um organismo humano, no qual o sistema vascular precisa acompanhar o metabolismo para garantir seu pleno funcionamento. Na avaliação do médico, a cidade vive forte expansão industrial, mas suas “artérias” viárias estão sobrecarregadas pelo tráfego de cargas e urbano. A opinião é referente a uma reportagem especial do Grupo aRede.
O diagnóstico, porém, aponta para uma oportunidade de revascularização: investimentos no novo Contorno Rodoviário, na ferrovia e no Aeroporto Sant’Ana podem reorganizar o fluxo, reduzir gargalos e fortalecer a conexão logística da cidade, desde que acompanhados de planejamento territorial e sustentabilidade.
Confira abaixo a opinião na íntegra de Mário, que é médico, Diretor de Saúde da Acipg, presidente da AMPG, professor do curso de Medicina da UEPG e conselheiro de Saúde do Portal aRede:
O Diagnóstico: O Crescimento Metabólico e a Ameaça de Isquemia
Na medicina, aprendemos que quando um organismo experimenta um rápido crescimento muscular e metabólico, seu sistema vascular precisa se expandir na exata mesma proporção. Se as artérias não acompanham essa evolução, o corpo sofre de isquemia — a privação de oxigênio e nutrientes que conduz ao colapso tecidual.
O diagnóstico atual de Ponta Grossa reflete com precisão esse fenômeno biológico: nosso "metabolismo econômico" atingiu um patamar formidável, impulsionado pela força do setor industrial, que responde por 64,59% do Valor Adicionado Fiscal do município, movimentando cerca de R$ 14 bilhões. Contudo, nossas "artérias" viárias encontram-se sobrecarregadas e obstruídas, misturando perigosamente o fluxo pesado de cargas ao tráfego urbano diário do cidadão.
Felizmente, Ponta Grossa está prestes a vivenciar a maior "cirurgia de revascularização" da história dos Campos Gerais, por meio de investimentos integrados nos modais rodoviário, ferroviário e aeroviário.
O Bypass Rodoviário: Curando a Trombose Urbana e a Epidemia do Trauma
O projeto do novo Contorno Rodoviário de Ponta Grossa — uma obra de aproximadamente 42 quilômetros e mais de R$ 1 bilhão em investimentos — funcionará como uma autêntica ponte de safena (bypass). Ao desviar o tráfego pesado que hoje asfixia corredores urbanos como a Avenida Souza Naves e o atual Contorno Sul, a intervenção removerá um trombo crônico do tecido urbano.
Sob a ótica da saúde pública e da medicina social, o impacto dessa obra é imediato e profundo. A sobrecarga viária atual gera atrasos econômicos e alimenta a "epidemia do trauma". Retirar os caminhões pesados do centro do fluxo comunitário significa reduzir colisões graves, salvar vidas e aliviar a pressão contínua sobre as UTIs e prontos-socorros da cidade. Além disso, a fluidez do trânsito diminui a emissão concentrada de poluição atmosférica e reduz a carga diária de estresse (cortisol) enfrentada pela população nos congestionamentos.
Ferrovias e Aeroporto: O Sistema Venoso Profundo e a Oxigenação da Economia
Para que um organismo multimodal funcione com plenitude, seus subsistemas precisam atuar de forma especializada:
- O Sistema Venoso Profundo (Malha Sul): A reorganização ferroviária da nova concessão da Malha Sul insere Ponta Grossa de forma definitiva no Corredor Paraná-Santa Catarina, conectando o interior aos portos de Paranaguá, São Francisco do Sul e Itapoá. Operando como as grandes veias e artérias do corpo, a ferrovia absorve cargas pesadas e de alto volume — como grãos, celulose, madeira e fertilizantes —, aliviando a sobrecarga do asfalto com eficiência contínua.
- O Sistema Respiratório (Aeroporto Sant’Ana): A inserção do aeroporto no bloco de concessão com o Aeroporto Internacional de Brasília (com leilão previsto para dezembro de 2026) e a ampliação da pista em 150 metros (atingindo 1.430 metros úteis) representam a capacidade de oxigenação rápida da cidade. Viabilizar a operação de jatos regionais (como a família Embraer E195-E2) conecta a cidade instantaneamente aos grandes centros de decisão do país. Para o setor produtivo e médico, um aeroporto estruturado significa atração de investimento, mobilidade de executivos e agilidade vital no transporte aeromédico e de órgãos.
A Homeostase: Planejamento Territorial e Sustentabilidade
Na fisiologia, o equilíbrio interno de um organismo é chamado de homeostase. A expansão dos modais exige esse mesmo equilíbrio no planejamento urbano. O crescimento econômico atrai novas indústrias, gera empregos e impulsiona a chegada de novos residentes.
Se não houver um ordenamento rígido do uso do solo, qualificação profissional, moradia digna e transporte coletivo eficiente, o desenvolvimento corre o risco de assumir uma forma "tumoral" desordenada, gerando novos gargalos e patologias urbanas. É indispensável incorporar soluções de infraestrutura verde e sustentabilidade, garantindo que o ganho logístico não ocorra às custas do meio ambiente ou do bem-estar da população.

O Prognóstico
Ponta Grossa deixará de ser apenas um ponto de passagem cruzado por rodovias para se consolidar como o cérebro logístico e a grande plataforma multimodal do Sul do Brasil — o local onde a riqueza chega, é processada, armazenada e distribuída.
A oportunidade para esta transformação histórica está posta. Cabe ao poder público, à iniciativa privada, à academia e aos conselhos de classe atuar em sinergia. Com artérias desobstruídas, pulmões fortalecidos e um metabolismo eficiente, Ponta Grossa estará plenamente preparada para um futuro de prosperidade, saúde pública e elevada qualidade de vida para toda a sua gente.
Leia um resumo da notícia
- Crescimento e gargalos: expansão industrial aumenta a pressão sobre as vias urbanas e o tráfego de cargas.
- Investimentos em modais: novo Contorno Rodoviário, ferrovia e Aeroporto Sant’Ana podem reorganizar a logística e reduzir a sobrecarga viária.
- Planejamento urbano: crescimento precisa ser acompanhado de infraestrutura, mobilidade, moradia, qualificação profissional e sustentabilidade.



