Modernização dos modais vai acelerar o desenvolvimento em PG
Superintendente da Fiep, João Arthur Mohr destaca obras rodoviárias, ferroviárias e aeroportuárias como estratégicas para sustentar o crescimento da região

Ponta Grossa e os municípios do entorno vivem um dos períodos de maior crescimento econômico do Paraná, impulsionados principalmente pela atração de investimentos industriais, incluindo grandes multinacionais e empresas nacionais. O avanço gera emprego, renda e desenvolvimento, mas também aumenta a pressão sobre a infraestrutura logística. Para o superintendente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), João Arthur Mohr, acompanhar esse processo exige investimentos integrados nos modais rodoviário, ferroviário e aeroviário.
“Esse desenvolvimento e esse crescimento acabam gerando problemas, especialmente na questão logística, devido ao aumento do fluxo de veículos tanto na cidade quanto nas rodovias que cortam Ponta Grossa”, afirma Mohr. Segundo ele, a expansão industrial precisa ser acompanhada pela modernização da infraestrutura para evitar que o aumento da circulação comprometa a mobilidade e a segurança.

No setor rodoviário, o superintendente destaca uma característica que coloca Ponta Grossa em posição estratégica: a cidade é o ponto de encontro de três concessões rodoviárias. Entre elas está o lote 1, que liga a região de Ponta Grossa a Imbituva e Prudentópolis, com previsão de duplicação integral da BR-373. O lote 2 contempla o eixo entre Ponta Grossa, Carambeí e Castro e prevê melhorias, além da duplicação do trecho entre Piraí do Sul e Jaguariaíva, até a divisa com São Paulo.
Já o lote 3, que percorre a BR-376, é responsável por uma das obras consideradas mais importantes para Ponta Grossa: o novo Contorno da cidade. A estrutura deverá retirar o tráfego pesado das áreas urbanas, especialmente da Avenida Souza Naves, e reduzir os acidentes registrados no atual Contorno Sul.
Mohr explica que a atual estrutura está sobrecarregada por reunir, no mesmo espaço, o trânsito urbano e o fluxo de caminhões que atravessam a região em direção a Curitiba e ao Porto de Paranaguá. O novo contorno partirá da BR-376, nas proximidades da indústria Makiita, seguirá pela Rodovia do Talco, contornará Ponta Grossa, cruzará a PR-151 próximo às instalações da DAF Motors e chegará ao Trevo do Caetano.
A primeira etapa, entre a região da Makiita e a PR-151, deverá ser concluída em abril de 2031. A segunda, entre a PR-151 e o Trevo do Caetano, tem previsão de entrega para abril de 2032. Antes da execução, será necessário concluir o projeto executivo, o licenciamento ambiental e as desapropriações. A estimativa apresentada por Mohr é de que essa fase ocorra entre 2027 e 2028, com as obras concentradas em 2029 e 2030.
FERROVIAS
Além das rodovias, a modernização ferroviária também é apontada como essencial. Ponta Grossa é um importante entroncamento ferroviário e deverá estar inserida no futuro Corredor Paraná-Santa Catarina, previsto na nova concessão da Malha Sul.
A atual concessão, operada pela Rumo Logística, será prorrogada até 2029, segundo Mohr, enquanto o Governo Federal prepara a licitação da nova Malha Sul. A proposta prevê a divisão da estrutura em três partes, com o corredor de interesse do Paraná e do Norte de Santa Catarina conectando regiões como Londrina, Maringá, Ponta Grossa e Lapa.
O sistema também deverá ser integrado a um corredor ferroviário entre Cascavel, Guarapuava e Lapa. A partir da Lapa, as composições poderão seguir tanto em direção ao Porto de Paranaguá quanto aos portos catarinenses de São Francisco do Sul e Itapoá. O edital é esperado para os próximos meses, com previsão de licitação em 2027.
AEROPORTO
Outro eixo estratégico apontado pelo superintendente da Fiep é o Aeroporto Santana. Ponta Grossa deverá integrar a próxima concessão vinculada ao Aeroporto Internacional de Brasília, que também contemplará outros dez aeroportos regionais.
Para Mohr, a ampliação do aeroporto é fundamental para que a cidade volte a contar com voos regulares e constantes, especialmente para São Paulo. A pista atual limita a operação a aeronaves turboélices, como o ATR-72. O edital prevê a ampliação de 150 metros na cabeceira 26, elevando a extensão útil para decolagens a 1.430 metros.
Com a mudança, a expectativa é permitir a operação de aeronaves Embraer E-195 E2, abrindo possibilidade para ampliar a concorrência entre companhias aéreas e aumentar a oferta de voos. Mohr avalia que a maior disponibilidade de voos poderá contribuir também para reduzir os preços das passagens.
A licitação está prevista para dezembro de 2026. Após a definição da concessionária, haverá etapas de contratação e diagnóstico dos aeroportos. A empresa vencedora terá 90 dias para avaliar as necessidades de cada terminal e apresentar os projetos de ampliação.
O superintendente ressalta, porém, que o planejamento deve ir além da ampliação inicialmente prevista. No futuro, a retirada do ramal ferroviário das cabeceiras do aeroporto poderia permitir uma expansão maior da pista, criando condições para a operação de aeronaves como o Boeing 737 e o Airbus A320.
“Não descartemos, no médio prazo — quando digo médio prazo, refiro-me a 10 a 15 anos — um sítio aeroportuário novo para a região com um aeroporto de grande capacidade”, afirma Mohr. Até que uma estrutura desse porte seja viabilizada, ele considera que o Aeroporto Santana, com a ampliação prevista, poderá atender às necessidades de crescimento dos Campos Gerais.
CONCESSÕES
Ponta Grossa entra em uma nova fase de investimentos em infraestrutura de transportes, com três importantes processos de concessão que podem influenciar diretamente o desenvolvimento do município. A cidade está no centro das discussões sobre a nova concessão das rodovias estaduais, administradas pela Motiva Paraná, acompanha o processo de modernização da Malha Sul, em análise pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), e se prepara para a nova concessão do Aeroporto Sant’Ana, cujo leilão está previsto para dezembro.
Mais do que obras isoladas, os projetos representam, na avaliação do arquiteto e mestre em Projeto Arquitetônico Henrique Wosiack Zulian, uma oportunidade para Ponta Grossa estruturar um sistema de transportes integrado. Conselheiro da área de Urbanismo no projeto “Conselho da Comunidade”, do Grupo aRede, ele alerta que os investimentos precisam considerar os impactos sobre a mobilidade e o planejamento urbano.
“As concessões podem contribuir muito para Ponta Grossa, desde que sejam pensadas para além da simples ampliação da capacidade viária”, afirma.

Para Zulian, a localização estratégica de Ponta Grossa exige uma articulação entre os diferentes modais. O município possui papel relevante na circulação de cargas entre diferentes regiões do Paraná e do país, mas o crescimento da atividade logística também gera impactos sobre o trânsito e a ocupação urbana.
“Uma cidade estrategicamente localizada precisa integrar rodovias, ferrovia, aeroporto e transporte urbano de forma inteligente”, avalia.
Nesse cenário, o especialista defende que os novos investimentos não sejam concentrados apenas na construção ou ampliação de rodovias. A melhoria das conexões entre os modais, os acessos urbanos e a segurança viária também devem fazer parte das prioridades.
A retirada do tráfego pesado das áreas urbanizadas é outro ponto considerado fundamental. Com a expansão da atividade logística, Ponta Grossa precisa encontrar formas de garantir eficiência para o transporte de cargas sem transformar as principais vias da cidade em corredores permanentes de veículos pesados.
“Isso significa melhorar a logística de cargas e, ao mesmo tempo, reduzir conflitos entre o tráfego pesado e a vida urbana”, destaca.
O mesmo raciocínio, segundo Zulian, deve ser aplicado à mobilidade da população. Transporte coletivo, ciclovias e acessos mais seguros precisam ser considerados nos projetos de infraestrutura, de maneira que o desenvolvimento econômico não seja acompanhado pelo aumento da dependência do automóvel.
SUSTENTABILIDADE
A sustentabilidade também deve fazer parte da estratégia, segundo o arquiteto. Os novos projetos podem incorporar soluções de infraestrutura verde, sistemas de drenagem e medidas capazes de reduzir os impactos ambientais provocados pela expansão urbana e pelo aumento da circulação de veículos.
A preocupação ganha relevância diante da ocorrência cada vez mais frequente de eventos climáticos extremos. Para Zulian, grandes obras de infraestrutura precisam ser planejadas considerando não apenas a capacidade de transporte, mas também os efeitos sobre o território e a população.
“O desenvolvimento logístico só tem ganhos quando gera empregos e competitividade sem aumentar os custos ambientais e urbanos”, ressalta.
Nesse sentido, a nova concessão do Aeroporto Sant’Ana pode complementar a estrutura logística existente, enquanto os investimentos rodoviários e ferroviários têm potencial para ampliar a capacidade de movimentação de cargas. A integração entre esses sistemas, porém, será determinante para que os investimentos produzam efeitos mais amplos.
Na avaliação de Zulian, Ponta Grossa tem diante de si uma oportunidade de transformar a expansão da infraestrutura em uma estratégia de desenvolvimento. Para isso, será necessário que os projetos sejam pensados de forma articulada entre os diferentes modais e em sintonia com o planejamento da cidade.
“As concessões devem ser vistas como instrumentos de planejamento territorial, e não apenas como contratos de infraestrutura”, conclui.
RESUMO
Rodovias e o Novo Contorno: Ponta Grossa está no centro de três concessões de rodovias, com destaque para a construção do novo Contorno pela BR-376, previsto para ser executado entre 2029 e 2032 para retirar o tráfego pesado da Avenida Souza Naves.
Ferrovias e Aeroporto: O planejamento abrange a inserção da cidade no Corredor Paraná-Santa Catarina da nova concessão da Malha Sul e a ampliação em 150 metros da pista do Aeroporto Sant’Ana (leilão em dezembro de 2026), permitindo a operação de jatos como o Embraer E-195 E2.
Integração e Planejamento Urbano: Especialistas da Fiep e do setor de urbanismo defendem que os investimentos nos três modais devem ser integrados ao transporte urbano e à sustentabilidade, evitando gargalos de mobilidade e reduzindo impactos ambientais.



