Escassez de mão de obra é principal desafio para produtores
Estudo do Sistema CNA/Senar revela que quase 95% dos agropecuaristas enfrentam entraves para contratar e 89% registram impactos diretos no desempenho das propriedades

A escassez de trabalhadores tornou-se o desafio número um do agronegócio brasileiro, superando gargalos históricos como custos de produção, instabilidades climáticas e oscilações de preços. É o que aponta o estudo “Produtividade e Emprego: Novas Diretrizes para as Políticas Públicas”, encomendado pelo Sistema CNA/Senar. De acordo com o levantamento, 94,8% dos produtores consultados relatam dificuldades para contratar pessoal, e 44,5% posicionam a disponibilidade de mão de obra como o problema mais crítico do setor atualmente.
O impacto da escassez atinge a rotina operacional de maneira direta: 89% dos entrevistados avaliam que o problema gera consequências de nível moderado a muito alto em seus negócios. Além disso, 88,3% reportaram prejuízos produtivos concretos, incluindo atrasos em operações de campo, adiamento ou cancelamento de planos de expansão, elevação dos custos trabalhistas, antecipação de aportes em automação e redução na taxa total de produção.
TRANSFORMAÇÕES NO MERCADO DE TRABALHO E FATOR RENDA
A retração na oferta de trabalhadores rurais é reflexo de transformações estruturais de longo prazo. O avanço da urbanização reduziu a população do campo, enquanto o aumento nos níveis de escolaridade abriu novas oportunidades no meio urbano. Conforme o levantamento, a participação da agropecuária no mercado de trabalho nacional caiu de 5,68% em 2012 para 5,01% em 2025.
Para tentar conter a evasão e atrair profissionais, o agronegócio tem elevado as remunerações acima da média da economia. Entre 2012 e 2025, o diferencial salarial do setor melhorou em diversos níveis de instrução:
- Ensino Superior: A relação entre o salário no agro e a média da economia subiu de 0,87 para 0,96.
- Técnicos de Nível Médio: O indicador saltou de 0,82 para 1,27.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) destacados no relatório, o rendimento real por hora dos empregados na agropecuária cresceu mais do que no restante do mercado de trabalho nos períodos de 2012 a 2015 e de 2021 a 2025.
PROGRAMAS SOCIAIS E CONJUNTURA NACIONAL
As informações foram divulgadas pela CNN Brasil. A análise evidencia que a restrição de mão de obra ultrapassa os limites do agronegócio e reflete a conjuntura nacional. Em 2025, o país contabilizava 6,3 milhões de desempregados à procura de vaga, 5,5 milhões de pessoas em idade ativa fora do mercado de trabalho e 4,5 milhões em empregos ocasionais. Juntos, esses contingentes somavam uma taxa de subutilização da força de trabalho de 14,4%, apresentando grande variação entre as regiões Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste.
O relatório também avaliou o reflexo das políticas de transferência de renda na oferta de trabalho. A estimativa apresentada é de que o Bolsa Família gere uma redução de 3,07 pontos percentuais na oferta de mão de obra rural. Um estudo paralelo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), citado no levantamento, aponta um impacto nacional entre 2,2 e 4,7 pontos percentuais. Na consulta direta aos produtores, 83% relataram perceber efeitos dessas transferências na captação de funcionários, e 63,2% afirmaram ter presenciado, por repetidas vezes, candidatos recusando contratação formal para não perder o benefício social.
TECNOLOGIA, PRODUTIVIDADE E POLÍTICAS PÚBLICAS
Com a escassez de profissionais, 88,8% dos agropecuaristas buscaram alternativas para contornar o problema, principalmente acelerando a mecanização das operações. A produtividade do trabalho no agro brasileiro cresceu 515% entre 1995 e 2025, bem acima dos 28% registrados pela economia em geral.
No recorte global entre 1997 e 2024, a produtividade do trabalho agrícola no Brasil avançou 218%, superando a média mundial de 125%. Contudo, a defasagem frente aos países desenvolvidos continua expressiva: o valor adicionado por trabalhador no Brasil foi de US$ 12,7 mil, enquanto a média das nações de alta renda alcançou US$ 29,3 mil e a dos Estados Unidos atingiu US$ 85 mil.
Diante desse cenário, o Sistema CNA/Senar defende uma agenda integrada de políticas públicas focada em qualificação profissional, redução dos custos de capital e acesso a tecnologias de ponta. A entidade reforça que o crescimento sustentável da produção rural dependerá da elevação da escolaridade e da capacitação técnica dos trabalhadores para operar em tarefas de alta complexidade.
LEIA ABAIXO UM RESUMO DA NOTÍCIA
- Escassez crítica: 94,8% dos produtores rurais enfrentam dificuldades de contratação, com 89% relatando impactos diretos na produção e 44,5% apontando o problema como a principal crise do setor.
- Respostas do setor: Como reação à escassez de mão de obra, os produtores estão aumentando os salários acima da média nacional e acelerando investimentos em automação e tecnologia.
- Gargalos estruturais: Fatores como a urbanização, programas de transferência de renda e o nível de qualificação influenciam a oferta de trabalhadores, demandando políticas públicas focadas em capacitação.





















