Cães e gatos desenvolvem demência? Saiba como reconhecer sinais em animais idosos | aRede
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Cães e gatos desenvolvem demência? Saiba como reconhecer sinais em animais idosos

Médica veterinária Érika Zanoni, que é conselheira da Causa Animal do Grupo aRede, destaca mudanças na memória, orientação e interações de animais idosos

A médica veterinária e pesquisadora Érika Zanoni com a paciente Carlota, felina de 13 anos
A médica veterinária e pesquisadora Érika Zanoni com a paciente Carlota, felina de 13 anos -

Lilian Magalhães

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A médica veterinária e pesquisadora Érika Zanoni destaca que o envelhecimento dos animais exige atenção não apenas à saúde física, mas também à saúde mental e ao bem-estar emocional. Em cães e gatos idosos, mudanças na memória, na orientação, no sono e na interação social podem indicar a Síndrome da Disfunção Cognitiva, condição que compromete progressivamente as funções cerebrais.

A especialista ressalta a importância de compreender essas alterações, investigar possíveis doenças associadas e oferecer cuidados individualizados, com acompanhamento veterinário, adaptações no ambiente e estratégias que garantam conforto, segurança e qualidade de vida aos animais.

Confira abaixo a opinião na íntegra da Érika, que também é conselheira da Causa Animal do Grupo aRede, especialista em Neurociência Clínica, mestre em Ciências Veterinárias, doutora em Zoologia e pós-doutora em Direito Animal pela Universidade Federal do Paraná (UFPR):

"Você já imaginou seu cachorro se perder dentro da própria casa? Ou seu gato começar a miar durante a madrugada, aparentemente sem motivo, como se estivesse procurando alguma coisa?

Muitas vezes, quando um animal envelhece e começa a apresentar comportamentos diferentes, ouvimos aquela frase: “Ah, é a idade!”. Mas nem sempre é tão simples assim.

Assim como acontece com os seres humanos, cães e gatos também podem desenvolver alterações cognitivas relacionadas ao envelhecimento. Uma delas é conhecida como Síndrome da Disfunção Cognitiva, uma doença que afeta progressivamente o funcionamento do cérebro, comprometendo a memória, o aprendizado, a orientação e até a maneira como o animal se relaciona com o ambiente e com as pessoas.

Podemos fazer uma comparação com algumas formas de demência humana, incluindo a doença de Alzheimer, embora não sejam exatamente a mesma condição.

Mas o que acontece no cérebro desses animais?

Com o passar dos anos, o cérebro também envelhece. Algumas células nervosas podem perder eficiência, a comunicação entre os neurônios pode ficar prejudicada e certas proteínas podem se acumular de maneira anormal.

Além disso, podem ocorrer alterações na circulação, no metabolismo energético e nos mecanismos que protegem o cérebro contra processos inflamatórios e oxidativos.

Tudo isso pode prejudicar funções importantes, como lembrar onde fica o pote de comida, reconhecer determinadas rotinas, aprender novas tarefas e se orientar em ambientes conhecidos.

É importante lembrar que envelhecer não significa necessariamente desenvolver demência. Existem animais muito idosos que continuam apresentando boas capacidades cognitivas.

Quais sinais merecem nossa atenção?

Um dos sinais mais conhecidos é a desorientação. O cachorro pode ficar parado olhando para uma parede, se perder em um cômodo conhecido ou não conseguir encontrar a saída de um espaço onde sempre circulou tranquilamente.

Outros animais começam a apresentar alterações importantes no sono. Dormem durante boa parte do dia, mas passam a madrugada acordados, caminhando pela casa ou vocalizando.

Também podem ocorrer mudanças na interação social. Um animal que sempre foi carinhoso pode ficar mais distante. Outro, que era independente, pode começar a seguir o tutor o tempo inteiro e demonstrar ansiedade quando fica sozinho.

Alguns cães voltam a fazer xixi ou cocô dentro de casa, mesmo tendo aprendido há muitos anos onde deveriam eliminar. Isso não significa teimosia ou desobediência. Pode existir uma dificuldade real de memória e orientação.

Nos gatos, um sinal que merece bastante atenção é a vocalização noturna. Aquele gatinho idoso que começa a miar alto durante a madrugada pode estar enfrentando alguma dificuldade cognitiva.

Mas atenção: nenhum desses comportamentos, isoladamente, confirma um diagnóstico de demência.

Nem toda mudança de comportamento é demência

Esse é um dos pontos que considero mais importantes.

Imagine um cão idoso que deixou de subir no sofá, não quer mais passear e parece menos interessado nas atividades que antes adorava. Será que ele está desenvolvendo demência? Ou será que está sentindo dor?

Um animal com osteoartrite, por exemplo, pode apresentar irritabilidade, alterações no sono, redução da atividade e até evitar contato físico.

Da mesma forma, um gato que começa a miar excessivamente durante a noite pode estar com hipertireoidismo, hipertensão arterial, dor ou alguma outra doença.

Problemas renais, hepáticos, hormonais, alterações na visão e na audição, doenças neurológicas e até efeitos de medicamentos podem provocar mudanças semelhantes.

Por isso, antes de concluir que um animal está desenvolvendo demência, precisamos investigar sua saúde de maneira completa.

E existe outro detalhe importante: o animal pode apresentar duas condições ao mesmo tempo. Um cão pode ter disfunção cognitiva e também sofrer com dor crônica, por exemplo.

Existe tratamento?

Sim! Embora ainda não tenhamos uma cura para a Síndrome da Disfunção Cognitiva, existem maneiras de ajudar esses animais a viverem melhor.

O tratamento depende das necessidades individuais e pode envolver medicamentos, alimentação específica, controle da dor, adaptações no ambiente e atividades que estimulem o cérebro.

Algumas estratégias nutricionais, como dietas formuladas com determinados antioxidantes e triglicerídeos de cadeia média, têm apresentado resultados interessantes em pesquisas com cães.

Também existem medicamentos utilizados em situações específicas, mas a escolha deve ser feita pelo médico-veterinário, considerando a saúde geral do paciente e os possíveis efeitos adversos.

Outra ferramenta importante é o enriquecimento ambiental. Pequenas atividades que estimulem o olfato, a exploração e a interação podem contribuir para manter o animal mentalmente ativo.

Mas precisamos ter cuidado: um animal com dificuldades cognitivas pode ficar ainda mais confuso quando mudamos constantemente os móveis de lugar ou alteramos toda a sua rotina.

Às vezes, manter a casa organizada, oferecer horários previsíveis e facilitar o acesso à água, à alimentação e aos locais de descanso é muito mais importante do que propor atividades complexas.

O objetivo não é exigir que aquele animal continue fazendo tudo o que fazia quando era jovem, mas ajudá-lo a viver bem dentro das suas possibilidades atuais.

E os sentimentos desses animais?

Aqui entramos em um aspecto que merece muita atenção: o bem-estar emocional.

Imagine como pode ser assustador não conseguir se orientar em um ambiente que sempre foi familiar.

Um animal que começa a perder referências pode sentir medo, ansiedade, insegurança e frustração.

Por isso, precisamos entender que muitos comportamentos considerados inconvenientes podem ser manifestações de sofrimento.

Aquele cachorro que anda pela casa durante a madrugada não está necessariamente tentando chamar atenção. Aquele gato que mia repetidamente pode estar expressando desconforto, confusão ou alguma necessidade que não consegue resolver sozinho.

E nenhum deles deve ser punido por isso.

Esses animais precisam de compreensão, acompanhamento veterinário e um ambiente que transmita segurança.

Também precisamos observar se ainda conseguem dormir bem, se alimentar com conforto, interagir, explorar o ambiente e aproveitar as pequenas coisas de que sempre gostaram.

A qualidade de vida não depende apenas da ausência de doenças, mas também das experiências positivas que o animal ainda consegue vivenciar.

O que a ciência nos ensina?

Em 2026, foram publicadas novas recomendações internacionais para o diagnóstico e o acompanhamento da disfunção cognitiva em cães.

Um dos pontos importantes dessas recomendações é justamente a necessidade de observar as mudanças comportamentais ao longo do tempo, investigar outras doenças e avaliar o quanto essas alterações estão prejudicando a vida do animal.

Isso reforça algo que sempre considero fundamental na Medicina Veterinária: comportamento e saúde não podem ser avaliados separadamente.

Nem tudo é uma questão de educação, temperamento ou envelhecimento. Às vezes, o comportamento está nos mostrando que alguma coisa não vai bem no organismo.

Envelhecer também é precisar de novos cuidados

Nossos animais estão vivendo cada vez mais, e isso é maravilhoso. Mas a longevidade traz novos desafios.

Precisamos aprender a reconhecer os sinais de envelhecimento cerebral e entender que a saúde mental também faz parte dos cuidados com cães e gatos idosos.

Se o seu animal começou a apresentar mudanças na memória, no sono, na interação ou na maneira de se comportar, procure uma avaliação médico-veterinária.

Quanto mais cedo identificarmos o problema, maiores serão as oportunidades de oferecer suporte e melhorar sua qualidade de vida.

E quero terminar com uma reflexão.

Um animal que está perdendo a memória não está perdendo a capacidade de sentir.

Ele continua podendo experimentar carinho, conforto, medo, alegria e segurança. Continua tendo necessidades, preferências e uma história construída ao lado das pessoas com quem convive.

Talvez ele já não consiga compreender o mundo da mesma maneira, mas nós podemos aprender a tornar esse mundo mais acolhedor para ele.

Porque cuidar de um animal idoso não é apenas prolongar sua vida. É garantir que os anos que ainda temos juntos sejam vividos com respeito, dignidade e bem-estar".

CONTEÚDO DE MARCA

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