Coluna Fragmentos: A São Silvestre ponta-grossense
A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Um momento de efervescência social, cultural, estética e política! Assim é possível resumir o que significou a década de 1920 para o Brasil. Fase que antecedeu as diversas mudanças estruturais pelas quais o país passaria a partir das décadas seguintes, os anos 20 foram marcados, entre outras coisas, pelas ações dos intelectuais modernistas, pela criação do Partido Comunista, pelo avanço das reivindicações feministas, pelas transformações no perfil da população nacional (que aos poucos se tornava mais urbana) e pelas diversas manifestações de cunho político como, por exemplo, as marchas da Coluna Miguel Costa – Luis Carlos Prestes.
E foi exatamente nos meados desses frementes anos 20 que o Brasil viu surgir um de seus mais tradicionais eventos esportivos: a corrida de São Silvestre (uma homenagem ao papa morto nessa data no século IV d.C.). Criada pelo advogado e jornalista paulista Cásper Líbero, a prova nasceu timidamente em São Paulo e tinha como objetivo original promover o jornal A Gazeta, adquirido por ele em 1918. Líbero teve a ideia de criar a prova após assistir, nos anos anteriores em Paris, uma corrida noturna na qual os competidores carregaram tochas de fogo e cruzavam as principais ruas do centro da capital francesa.
A primeira edição da prova foi disputada no dia 31 de dezembro de 1925. Naquele ano foram 60 inscritos (todos masculinos, uma vez que somente a partir de 1975 a prova foi estendida para a participação feminina), dos quais apenas 48 compareceram ao evento. Até 1945 a prova era restrita a brasileiros ou imigrantes que morassem no país. A partir de então foi aberta para competidores internacionais, porém só ganhou apelo junto aos atletas de outros países depois de 1953, quando o checo Emil Zatopek – conhecido como “a locomotiva humana” – ganhou a prova.
Inicialmente a corrida tinha início às 23:30 horas e sua chegada ocorria poucos minutos antes da virada do ano. A partir da década de 1980, por orientação da Federação Internacional de Atletismo, a prova teve seu horário alterado para a tarde.
Até ai, nada de muito novo! Porém, você sabia que Ponta Grossa (mesmo que esporadicamente) já teve a sua própria São Silvestre? E mais, de acordo com registros históricos, em nossa cidade essa prova ocorreu, pelo menos, em dois momentos históricos distintos? Ao que tudo indica, a primeira vez que se disputou uma São Silvestre em terras princesinas foi na década de 1930, mais precisamente em 31 de dezembro de 1937. Naquele ano, a prova teve apenas soldados do exército como seus competidores.
A segunda vez foi no final da década de 1960. Conforme publicado pelo JM em janeiro de 1970, uma prova local havia ocorrido na passagem de 1968/1969, sendo idealizada pelo professor José Hyczy Fonseca, o qual por muitos anos integrou o quadro de docentes do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. A realização ou não de uma segunda edição da prova, ao que se percebe, esteve ligada a uma disputa política entre os diretores do Diretório Acadêmico Joaquim de Paula Xavier, entidade estudantil que precedeu ao Diretório Central dos Estudantes da UEPG. Como aquele foi um momento que coincidiu com a criação da nossa Universidade e que também foi marcado por intensas disputas estudantis e políticas em nosso país, é possível que tais elementos tenham interferido na realização do evento esportivo.
Cásper Líbero
Nascido em Bragança Paulista no final do século XIX, Cásper Líbero teve papel fundamental da imprensa no Brasil. Apesar de ser formado em direito, foi um apaixonado pelo jornalismo, atuando como proprietário e redator em diversos jornais como a Última Hora, O Estado de São Paulo e, principalmente, A Gazeta. Em 1913 Cásper Líbero criou a primeira agência nacional de notícias: a Agência Americana. Em 1918 comprou o jornal A Gazeta (fundado em 1906) e tornou esse periódico um dos mais poderosos órgãos de imprensa no país nas décadas seguintes. Também criou cadernos como a Gazeta Esportiva (que depois ganhou “vida própria”); fundou a Rádio Gazeta e instalou auto-falantes no Vale do Anhangabaú, por meio dos quais transmitia jogos de futebol realizados nos estádios paulistas. Morto em um acidente aéreo em 1943, determinou (em testamento) que fosse implantada a Fundação Cásper Líbero – integrada por todos os seus veículos de comunicação – e que fosse criada uma escola de jornalismo, a Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero.
O atletismo
As disputas esportivas são encontradas desde os povos da antiguidade. O lançamento de dardos ou discos, o arremesso de pesos, os saltos e as corridas são práticas registradas, pelo menos, desde o século VIII a. C., nos jogos disputados pelos gregos na cidade de Olímpia (onde nasceu a tradição das Olimpíadas modernas). Tais disputas expressavam a capacidade física do homem grego e significavam a confirmação de que estes estavam aptos para as batalhas e guerras daqueles tempos.
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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.
Publicada originalmente no dia 25 de abril de 2010.
Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.





















