Coluna Fragmentos: O Vasco, o Flamengo, o Palmeiras... de Ponta Grossa!
A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

A percepção do esporte, como um fenômeno das massas, é algo relativamente recente. No caso do Brasil, foi a partir da década de 1910 que as práticas esportivas começaram a chamar a atenção dos moradores dos centros urbanos espalhados pelo país e passaram a marcar o ritmo competitivo da vida moderna.
Vindas da Europa e dos Estados Unidos, as atividades esportivas se enquadravam nas práticas “civilizatórias” destinadas a melhorar tanto a mente quanto o corpo humano. A ginástica, o boxe, a patinação, o ciclismo, o tênis e o atletismo ganharam espaço nas cidades brasileiras naquele começo de século. Porém, nenhum outro esporte despertou tanto interesse das massas como o futebol. Ironicamente, o esporte que chegara ao país trazendo um ar de aristocracia, logo caiu nas graças de grandes parcelas da sociedade brasileira, sobretudo dos seguimentos populares.
Rapidamente surgiram ligas amadoras que passaram a organizar partidas e campeonatos de futebol em diversos estados. Grupos étnicos, moradores de bairros, trabalhadores e grupos sociais vinculados as elites, começaram a fundar seus próprios times. Esse fenômeno foi observado em praticamente todas as cidades nas quais o futebol passou a ser praticado. Por exemplo: na cidade de São Paulo, enquanto os espanhóis reuniram-se em torno do Sport Clube Corinthians Paulista (1910), a colônia italiana, em 1914, fundou o Palestra (atual Sociedade Esportiva Palmeiras) e os moradores da Mooca fundaram o Clube Atlético Juventus (1924).
Em Ponta Grossa o futebol chegou pelos trilhos da Estrada de Ferro. Começando pelos ferroviários, o esporte difundiu-se rapidamente e ganhou um grande número de adeptos entre todas as classes, incorporando-se ao cotidiano urbano e tornando-se uma prática de lazer democrática.
Desde a década de 1910, a cidade foi palco para acirrados torneios entre os times que representavam categorias profissionais, bairros, etnias e a elite princesina: o Operário, o Guarani, o União Campo Alegre, o Germânia, o Bloco Sportivo Pontagrossense, o Nova Rússia, o Olinda. Nos primeiros anos as disputas ocorriam no Prado de Uvaranas, na parte interna da pista de corrida – era o chamado “pelado” de terra batida – porém, a partir da década de 1930 várias agremiações passaram a contar com estádios próprios. Nesse mesmo decênio surgiu a Liga Pontagrossense de Desporto, entidade que passou a ordenar as disputas, gerenciando campeonatos, estabelecendo regulamentos, premiando ou punindo os participantes.
Com o advento do rádio o futebol consolidou sua condição de esporte mais popular do país. A Rádio Nacional do Rio de Janeiro, criada em 1936, recebeu inúmeros incentivos do Governo Vargas e serviu como uma espécie de órgão oficial do Estado. Atingindo praticamente todo o território brasileiro, a Rádio Nacional cumpriu o papel de veículo responsável pela unificação de discursos e da identidade nacionais. Além de contar com os principais cantores, humoristas, radialistas e atores de rádionovelas do país, a Rádio Nacional acabou por tornar os times do Rio de Janeiro em agremiações nacionais. As transmissões do campeonato carioca passaram a ser ouvidas em todos os cantos do Brasil no exato momento em que o futebol se consolidava como esporte de massas, o que contribuiu para que times como o Flamengo, o Vasco da Gama, o América, o Botafogo e o Fluminense passassem a contar com torcedores em todo o país.
Foi assim que Ponta Grossa viu surgir times de futebol e diversos clubes sociais que adotaram nomes inspirados nas agremiações cariocas, como o caso do América Pontagrossense Futebol Clube (da Nova Rússia), o Flamengo (da Vila Madureira), o São Cristóvão (de Oficinas), o Vasco da Gama (do São José) e, já com a influência das rádios de outros grandes centros, o Palmeiras (das Órfãs) e o Cruzeiro (da Ronda).
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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.
Publicada originalmente no dia 04 de abril de 2010.
Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.





















