Coluna Fragmentos: As múltiplas possibilidades do olhar
A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Lucien Febvre, historiador francês de grande projeção no século XX, registrou que o historiador não é necessariamente aquele que sabe, mas é, obrigatoriamente, aquele que pergunta. Com essa afirmação, Febvre pretende mostrar que a história é um campo do conhecimento que possibilita múltiplos olhares sobre um mesmo objeto.
Tal perspectiva saltou-me aos olhos quando me deparei com a matéria sobre um transplante cardíaco publicada no JM em 04 de janeiro de 1968. Confesso que, ao encontrá-la, vislumbrei inúmeras possibilidades de abordagens para esta coluna.
A começar pelo período em que foi publicada. A década de 1960 configura-se em um momento central para a compreensão da contemporaneidade. No seu decorrer a humanidade passou a conviver com grandes fenômenos sociais e culturais: a explosão mundial do rock n’roll; o avanço do movimento negro nos Estados Unidos; o nascimento do movimento hippie; os estudantes tomando as ruas na Cidade do México, em Paris e em São Paulo; a revolução sexual viabilizada pelos anticoncepcionais. Nas Américas Che Guevara seguia sua luta por um mundo mais justo e humanitário. Já na França, Jean Paul Sartre se consolidava como um dos mais importantes intelectuais do século passado. Por sua vez, no Brasil, o golpe de 31 de março intensificava a perseguição aos chamados subversivos e sustentava a repressão num “milagre econômico” que projetaria o país à condição de potência mundial. Como testemunhamos o tal “milagre” não se realizou.
Uma segunda possibilidade é associar a notícia às questões científicas do período. As idéias evolucionistas e a eugenia – teoria que busca produzir uma seleção nas coletividades humanas, baseada em leis genéticas – encontravam defensores em todo o mundo. Na África do Sul, local em que o transplante cardíaco foi realizado pela primeira vez, o “apartheid” regia as relações entre brancos e negros, estupidamente ancorado nos princípios eugenistas. Aqui mesmo em nossa cidade, em uma coluna semanal assinada pela Associação Médica de Ponta Grossa e divulgada nos órgãos de imprensa local, é possível encontrar textos escritos por médicos ponta-grossenses que defendiam velada ou explicitamente a “melhoria da raça” como forma de fazer o Brasil avançar. O próprio título – “Coração de mulato prolonga vida de um dentista branco” – já deixa transparecer que tais questões estavam subliminarmente presentes na matéria.
Por fim, podemos abordar esta notícia pelo aspecto das doenças e das terapias próprias aos meados dos Novecentos. Foi nesse momento em que os profissionais da medicina se voltaram para o aperfeiçoamento científico em áreas específicas. Assim fortaleceu-se a idéia dos especialistas: pediatras, ginecologistas, ortopedistas, cardiologistas, etc. Os antibióticos passaram a ser utilizados de forma cada vez mais intensa e eufórica pelos profissionais da saúde. O câncer projetava-se como o grande inimigo a ser combatido pela medicina. A letalidade da doença preocupava a classe médica que não encontrava formas eficazes de enfrentá-la.
Por fim, as doenças cardíacas provocadas principalmente pelo tabagismo, pelo estresse do mundo moderno e pelo sedentarismo, levaram a medicina a desenvolver práticas clínicas e cirúrgicas para combatê-las. Foi neste cenário que Christiaan Barnard, cardiologista sul-africano mundialmente conhecido, revolucionou a medicina do século XX ao realizar os primeiros transplantes cardíacos da história. É fato que, num primeiro momento, os transplantados acabaram falecendo poucos dias após o ato cirúrgico. Quatro décadas depois, com o avanço da medicina, a humanidade se rende ao pioneirismo de Barnard.
Se, por um lado, pode-se falar em progresso das técnicas cirúrgicas atuais quando comparadas as da década de 1960, por outro, infelizmente, ainda nos deparamos com discursos eugenistas mais viscerais e ignorantes do que aqueles que se surpreenderam por ver o “coração de um mulato” salvar a vida de um “dentista branco”.
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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.
Publicada originalmente no dia 25 de maio de 2008.
Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.





















