Coluna Fragmentos: A crônica: uma tradição do jornalismo ponta-grossense
A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

“Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano.
Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num
flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico,
torno-me simples espectador.”
Fernando Sabino
A última crônica
A Companheira de Viagem. Editora do Autor: Rio de Janeiro, 1965.
Fernando Sabino certa vez escreveu que a crônica é “algo para ser lido enquanto se toma o café da manhã.” Do latim “chronica”, este gênero literário é uma narração inspirada nos acontecimentos diários e, do ponto de vista do seu estilo, situa-se entre o jornalismo e a literatura.
Para Antonio Candido, a crônica é um texto que se produz ao “rés-do-chão” e desta forma toma feições de uma conversa banal. Quanto ao seu estilo, pode ser dissertativa, humorística, lírica, narrativa ou poética.
Produzida para ser veiculada em jornais ou revistas, a crônica – devido sua periodicidade constante – tem vida curta. Como é escrita na primeira pessoa, acaba produzindo um diálogo direto entre quem a escreve e quem a lê. Desta forma, o cronista transmite ao leitor a sua visão de mundo.
A crônica, tal qual a conhecemos hoje, apareceu na França em meados do século XIX. Era publicada nos rodapés dos jornais e tratava de acontecimentos corriqueiros como os fenômenos do tempo, a limpeza urbana, as cores produzidas pela natureza a cada nova estação, o movimento das ruas etc. Chegou ao Brasil no final dos Oitocentos e teve em José de Alencar e Machado de Assis dois de seus primeiros expoentes. De acordo com Antonio Candido, escritores lusitanos, como Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, serviram de inspiração para os cronistas brasileiros daquele período.
A história da imprensa em Ponta Grossa está indelevelmente marcada pela presença das crônicas e dos cronistas. Para tratar desse tema, é necessário voltarmos até os primeiros anos do século XX. Entre os precursores desse gênero na cidade destacam-se três nomes: o carioca Hugo dos Reis, o português Teixeira Coelho e o parnanguara Raul Gomes. Entre os anos de 1908 e 1912, produziram inúmeras de crônicas, publicadas no jornal O Progresso, falando sobre o dia-a-dia na pujante Ponta Grossa de então.
O destaque fica pelo conjunto de crônicas escritas por Raul Gomes, em 1912, que constitui uma importante fonte para compreensão do processo urbano-industrial ponta-grossense. Marcado por um tom ufanista, os textos de Gomes falam do progresso material, da grande movimentação de pessoas, do embelezamento urbano, das fábricas e suas chaminés que expeliam fumaça noite e dia e da sensação generalizada que a cidade se constituía em uma urbe “agitada e triunphal”. Assim o intelectual paranaense construiu a sua visão a respeito da “victoriosa rainha dos campos” (termo empregado por Raul Gomes ao descrever Ponta Grossa).
Algumas décadas depois a cidade passou a contar com uma outra importante geração de cronistas. Em meados do século passado projetaram-se dois nomes que ainda se mantém vivos na memória de muitos ponta-grossenses: Guaracy Paraná Vieira – ou Viera Filho como era mais conhecido – e Daily Luiz Wambier.
O primeiro nasceu em Paulo Frontin e veio para Ponta Grossa no final da década de 1930. Escreveu, durante cerca de 40 anos, a crônica “Perfis da Cidade”, a qual ganhou ainda mais notoriedade quando passou a ser lida, diariamente, por Barros Junior no Grande Jornal Falado HM da Rádio Clube Pontagrossense.
Daily Luiz Wambier é o único desses cronistas que nasceu em Ponta Grossa. Com longa ficha no jornalismo local, ingressou no Jornal da Manhã logo no início da história do periódico, projetando-se como um de seus principais colaboradores em todos os tempos.
Dono de um texto objetivo e tendo Ponta Grossa como foco da imensa maioria dos seus escritos, tornou-se um dos cronistas mais respeitados que a cidade já conheceu. Durante anos escreveu a crônica “Idéias e Opiniões”. Apesar de ter falecido relativamente jovem, aos 57 anos, deixou uma obra marcada por seu volume e, sobretudo, pela qualidade e abrangência de seus textos.
Com a morte de Wambier (1965) e de Vieira Neto (1991) a crônica ponta-grossense perdeu seus dois maiores referenciais. Contudo, até os dias atuais, os jornais locais mantém um espaço constante para esse gênero, o que indica que a tal “conversa banal” a que se refere Candido ainda encontra um público ávido por textos que tratem de trivialidades, dos aspectos singulares e das cenas corriqueiras que compõe o mosaico que dá vida ao cotidiano ponta-grossense.
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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.
Publicada originalmente no dia 18 de maio de 2008.
Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.




















