Coluna Fragmentos: A Grande Cidade | aRede
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Coluna Fragmentos: A Grande Cidade

A coluna ‘Fragmentos’, assinada pelo historiador Niltonci Batista Chaves, publicada entre 2007 e 2011, retorna como parte do projeto '200 Vezes PG', sendo publicada diariamente entre os dias 28 de fevereiro e 15 de setembro

Matéria publicada no JM em 06 de agosto de 1971, na qual o jornal ressalta o crescimento e o progresso ponta-grossense. A imagem destaque a verticalização da cidade com os edifícios Marieta e Vila Velha (ainda em fase de construção), ambos localizados na Vicente Machado
Matéria publicada no JM em 06 de agosto de 1971, na qual o jornal ressalta o crescimento e o progresso ponta-grossense. A imagem destaque a verticalização da cidade com os edifícios Marieta e Vila Velha (ainda em fase de construção), ambos localizados na Vicente Machado -

João Gabriel Vieira

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Na década de 1930, modernizar o Brasil era a palavra de ordem, e nesse contexto a idéia de modernização se ancorou na negação ao passado lusitano. O colonialismo português e sua herança maldita foram vistos por intelectuais, a exemplo de Fernando de Azevedo, como responsáveis pelo atraso em que o país estava mergulhado. Era necessário construir um novo Brasil. Novo mesmo, no sentido literal da palavra. A perspectiva da modernização, adotada por intelectuais e pelo próprio Estado Nacional, se fundamentava na eliminação de qualquer coisa que tivesse vínculo com o nosso passado, interpretado exclusivamente como sinônimo de atraso e de dependência.

Nesse mesmo período, o Brasil, ainda predominantemente rural, assistia ao início do processo que levaria, em cerca de três décadas, a inversão da distribuição espacial de sua população. A partir de então, as cidades projetaram-se como o centro da vida nacional. Nelas o discurso pela modernização ganhava sentido e encontrava um campo fértil para disseminação de seus princípios e valores.

Além da incorporação de comportamentos e hábitos associados aos princípios da modernidade, os aspectos físicos e urbanísticos das cidades também passaram a adequar-se aos novos tempos.

No caso de Ponta Grossa, a década de 1930 foi marcada pela urbanização do largo do Rosário – que se transformou em Praça Barão do Rio Branco –, pelo reordenamento das ruas, pela implantação de uma eficiente estrutura de saneamento e saúde pública (postos de puericultura nas periferias, inauguração da maternidade municipal, implantação do Instituto Pasteur), etc. Desde o início do século XX, as construções já haviam, em grande parte, se adequado as tais perspectivas modernizantes. Em substituição as edificações coloniais, foram aparecendo os casarões em estilo eclético, em art nouveau e em art decô, reproduzindo, desta forma, aquilo que estava “na moda” em centros europeus como Paris e Londres. Foi assim que surgiram a Vila Hilda, a antiga Catedral de Sant’Ana, o Palacete Osternack, o Palácio Episcopal e inúmeras outras construções que, exceto a primeira, só podem ser vistas em fotografias.

A busca pela modernidade é algo que atravessa os tempos, e assim, aquilo que foi moderno no início do século XX passou a ser visto pelas gerações futuras como algo velho, indesejável e ultrapassado. Desta forma, percebemos que a decantada modernidade traz em si uma essência antropofágica: o moderno de ontem é o velho de hoje.

Tal tendência se torna cada vez mais forte na medida em que avançam os processos de ocupação e valorização do solo urbano. A Ponta Grossa de hoje, infelizmente, reproduz bem tal perspectiva. Exemplos não faltam, e o espaço reservado para esta coluna seria insuficiente para cita-los. Aqui ainda predomina a visão de que preservar o patrimônio arquitetônico é manter a cidade no atraso e no passado, percepção antagônica ao que ocorre, por exemplo, em cidades da região como Castro, Lapa e Tibagi. Sem contar Curitiba, cidade que desde a década de 1970 investiu maciçamente num projeto de conservação patrimonial e valorização da história e da identidade locais.

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O material original, com mais de 170 colunas, será republicado na íntegra e sem sofrer alterações. Por isso, buscando respeitar o teor histórico das publicações, o material apresentará elementos e discussões datadas por tratarem-se de produções com mais de uma década de lançamento. Além das republicações, mais de 20 colunas inéditas serão publicadas. Completando assim 200 publicações.

Publicada originalmente no dia 11 de maio de 2008.

Coluna assinada por Niltonci Batista Chaves. Historiador. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

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