Ponta Grossa amplia ações para retirar famílias de áreas de risco
Após tragédia no bairro da Ronda, Prefeitura aposta em mapeamento, drenagem, recuperação de fundos de vale e reassentamento de moradores para enfrentar eventos climáticos extremos

O deslizamento de terra que matou três pessoas de uma mesma família no bairro da Ronda, em Ponta Grossa, durante o temporal dessa quinta-feira (10), recoloca no centro do debate a necessidade de políticas permanentes para prevenção de desastres e retirada de moradores de áreas consideradas de risco. O casal, ambos de 21 anos, e o filho de cinco anos morreram depois que um barranco atingiu a residência. A área foi interditada diante do risco de novos deslizamentos.
Em meio ao período de alerta provocado pelo excesso de chuvas, a prefeita Elizabeth Schmidt afirmou que o município está adotando uma estratégia de longo prazo para enfrentar situações que, segundo ela, são agravadas pela topografia da cidade e pela ocupação irregular, especialmente em fundos de vale. A declaração foi feita nas redes sociais após os episódios registrados nos últimos dias.
Segundo Elizabeth, a Prefeitura concluiu neste mês, em parceria com a Universidade Livre do Meio Ambiente (Unilivre), um amplo estudo das bacias dos arroios Ronda, Olarias e Pilão de Pedra. O trabalho identificou áreas de risco, pontos sujeitos a alagamentos, nascentes e locais que demandam intervenções de drenagem, recuperação ambiental e reurbanização. O levantamento incluiu mais de 150 nascentes.
O estudo representa uma das principais apostas do município para transformar o enfrentamento das chuvas em política permanente. A iniciativa começou a ser estruturada em 2024, quando a Prefeitura autorizou investimento superior a R$ 4 milhões para pesquisas e estudos técnico-científicos voltados à recuperação socioambiental e à reurbanização dos fundos de vale das três bacias.
Com a conclusão da etapa técnica, o planejamento passa a prever intervenções de maior alcance. Entre as medidas estão obras de micro e macrodrenagem, criação de áreas verdes, parques lineares, lagos e ações de proteção dos cursos d'água. O projeto tem horizonte estimado de 25 a 30 anos e investimento superior a R$ 120 milhões. A proposta busca não apenas responder aos alagamentos depois que eles acontecem, mas reorganizar áreas urbanas onde a ocupação e as características naturais aumentam a vulnerabilidade.
RETIRADA DE FAMÍLIAS
Um dos pontos mais sensíveis do novo planejamento é justamente a retirada e realocação de famílias que vivem em locais onde não há condições de permanência segura. A própria prefeita afirmou que o plano prevê a remoção dos moradores dessas áreas e a transferência para locais adequados, com garantia de condições dignas de moradia.
A política habitacional do município já possui mecanismos para esse tipo de situação. O Programa Lar Acolhedor, regulamentado pela Lei Municipal nº 13.245/2018, prevê o pagamento de aluguel social para famílias de baixa renda que estejam vivendo em áreas de risco apontadas pela Defesa Civil ou pelo Conselho Municipal de Habitação, além de moradores atingidos por deslizamentos, inundações, interdições ou calamidades.
O benefício funciona como uma solução emergencial até que a família possa ser reassentada definitivamente. Em situações anteriores de chuvas, a Prefeitura utilizou o programa para retirar moradores de imóveis que não apresentavam mais condições de segurança. Em outubro de 2023, por exemplo, famílias atingidas por deslizamentos e outros danos foram encaminhadas ao Lar Acolhedor, que permitiu o pagamento do aluguel de uma residência segura enquanto se buscava uma solução definitiva.
A política também está relacionada aos programas habitacionais permanentes. Entre os critérios utilizados pelo município para programas como o Minha Casa, Minha Vida estão famílias que vivem em áreas irregulares, de risco ou insalubres. Dessa forma, a identificação das áreas vulneráveis pode servir como instrumento para priorizar o reassentamento das pessoas que não podem permanecer nos locais onde vivem.
PREVENÇÃO
A necessidade de antecipar os problemas também aparece nas discussões recentes sobre legislação municipal. Em junho deste ano, a Câmara de Ponta Grossa aprovou projeto que estabelece a necessidade de mapeamento das áreas de risco, definição de rotas de evacuação e pontos de encontro, além de protocolos para situações de desastre. A proposta também prevê diretrizes para obras preventivas de drenagem, contenção de encostas e limpeza de galerias.
Na prática, a Defesa Civil continua sendo a primeira estrutura acionada durante os eventos extremos. Em ocorrências anteriores, o município mobilizou equipes da Defesa Civil, Assistência Social, Serviços Públicos e Meio Ambiente para atendimento emergencial, interdição de imóveis, limpeza de vias e assistência às famílias. Em dezembro de 2024, por exemplo, foram registrados 20 atendimentos relacionados às chuvas, incluindo alagamentos, desmoronamentos, deslizamentos e situações de risco de desabamento.
O desafio agora é fazer com que o planejamento avance para a execução. A tragédia da Ronda demonstra que mapas, estudos e protocolos precisam estar associados a ações concretas de fiscalização, drenagem, contenção, recuperação ambiental e, principalmente, retirada preventiva de famílias que vivem em locais onde a permanência representa ameaça à vida.
A própria Prefeitura reconhece que se trata de um trabalho de longo prazo. A conclusão do estudo das bacias representa uma base técnica inédita para o município, mas o resultado mais importante será medido pela capacidade de transformar esse diagnóstico em obras e reassentamentos. Em uma cidade marcada por fundos de vale e sujeita a eventos climáticos cada vez mais severos, prevenir pode significar evitar que novas famílias sejam obrigadas a pagar com a própria vida pelo risco conhecido.
RESUMO
Tragédia na Ronda e plano de longo prazo: Após o deslizamento que matou três pessoas da mesma família, a Prefeitura de Ponta Grossa apresentou um plano de R$ 120 milhões para os próximos 30 anos, baseado em um estudo recém-concluído das bacias dos arroios Ronda, Olarias e Pilão de Pedra.
Ações de infraestrutura e reurbanização: O projeto prevê intervenções de micro e macrodrenagem, criação de parques lineares e proteção de nascentes para enfrentar os problemas causados pela topografia da cidade e pela ocupação irregular em fundos de vale.
Remoção de moradores e prevenção: O planejamento inclui o reassentamento definitivo de famílias em áreas de risco, utilizando o aluguel social (Programa Lar Acolhedor) como transição emergencial, aliado às diretrizes aprovadas pela Câmara Municipal para mapeamento e evacuação preventiva.



