Mãe trata filho com remédio a base de maconha em PG
Foi a orientação médica para a realização de uma cirurgia neurológica para o filho de apenas dez anos, portador de uma síndrome epiléptica rara, chamada de Lennox-Gastaut, que fez a ponta-grossense Maria Aline Gonçalves, de 35 anos, tomar uma das decisões
Medicamento é ministrado duas vezes ao dia. Há
uma semana criança não ingere mais remédios industrializados.
Foi a orientação médica para a
realização de uma cirurgia neurológica para o filho de apenas dez anos,
portador de uma síndrome epiléptica rara, chamada de Lennox-Gastaut, que fez a
ponta-grossense Maria Aline Gonçalves, de 35 anos, tomar uma das decisões mais
difíceis de sua vida: a utilização do Canabidiol, um derivado da maconha
empregado para fins medicinais. “Ele não estava respondendo a medicação
controlada e apresentava um quadro de 12 a 20 convulsões por semana. Nos
momentos de pico da crise ele chegou a convulsionar dez vezes no dia. Ele
arrancava os cabelos, mordia as mãos até se cortar e, em um dos surtos, chegou
a quebrar o próprio nariz com socos. A única solução passada era o procedimento
cirúrgico. Mas como eu iria submetê-lo a esse procedimento se, além da
síndrome, ele ainda é autista e cego? Resolvi tentar”, desabafa.
Em contato com médicos da capital
do Estado, ela chegou até uma mãe que já fazia o tratamento. Através dela,
conheceu a Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace), com sede
na Paraíba. “Eu sempre abordava esse tema com os médicos e muitos me ignoravam.
Outros explicavam que a liberação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) demoraria muito por conta da burocracia, sem falar nos altos custos
para a importação. Confesso que me questionei muitas vezes se não iria drogar
meu filho, mas a vida dele estava em risco”, diz.
Adquirindo o produto de forma
ilegal, aqui mesmo no Brasil, Maria iniciou o tratamento com a substância – uma
espécie de óleo - há um mês. “O pessoal da Associação me mandou o produto pelos
Correios. Desde então, passei a viver outro dilema, o de retirar os
medicamentos industrializados. Há uma semana consegui fazer isso, mesmo com
muito medo. Ele não apresentou mais as convulsões, demonstrando uma melhora
significativa no humor e até mesmo na coloração da pele”, afirma a mãe que
ministra o componente duas vezes ao dia, com oito gotas cada. Por mês ela paga
uma mensalidade de R$ 120 para que as pesquisas da Associação - que é sem fins
lucrativos - tenham continuidade.
Demitida do emprego devido as
faltas motivadas pela saúde frágil do filho, Maria, que é formada em Engenharia
Elétrica, vê no Canabidiol uma luz no fim do túnel. “Que mãe não tentaria de
tudo para salvar seu filho? Em uma dessas convulsões ele poderia morrer. Tive
que fazer isso para que algo mais grave não aconteça com ele”, relata
emocionada. “A legalização desse tipo de medicamento deve sim ser discutida. Só
quem vê um filho sofrendo sabe o que eu estou falando”, completa.
Desde que começou o novo
tratamento, o garoto ainda não foi consultado por um médico. Isso irá ocorrer
na próxima semana, segundo a mãe.
Menino
luta na justiça para obter suplementação
Além de buscar a legalização do Canabidiol, a mãe também luta na justiça para
que o filho tenha direito pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a uma
suplementação. Cada lata custa R$ 270 e a família não tem condições de arcar.
“Antes de fazer o tratamento com o óleo, nós tentamos fazer uma dieta
cetogênica por orientação médica. A dieta consistia na retirada de carboidratos
da alimentação, para evitar que o açúcar estimulasse a atividade cerebral. Ela
funcionou bem, porém ele acabou ficando anêmico”, diz Maria Aline Gonçalves. O
caso está em trâmite no Ministério Público.
Legalização
Em cumprimento a uma decisão judicial, a Anvisa publicou no Diário Oficial da
União, no último dia 21, uma resolução que permite a prescrição médica e a
importação, por pessoa física, de produtos que contenham as substâncias
Canabidiol e THC em sua formulação, exclusivamente para uso próprio e para
tratamento de saúde.