Nova tabela de fretes impacta no polo moageiro
Indústrias suspenderam, momentaneamente, o recebimento e o transporte de grãos devido aos novos valores cobrados

Empresas instaladas em Ponta Grossa, especialmente ligadas ao agronegócio, são impactadas pela implantação da tabela de preços mínimos de frete, por parte da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Com os novos valores já determinados, após a assinatura da Medida Provisória nº 832 pelo presidente Michel Temer, que regulamentou essa nova política, houve um acréscimo nos valores do transporte, que agora variam conforme a quilometragem rodada e o número de eixos do caminhão. Para se adaptar a esse nova política, algumas empresas, inclusive, estão deixando de receber produtos ou fazer o despacho. O diretor de Supply Chain da Cargill, Ricardo Nascimbeni, revelou que o fluxo de soja foi reduzido, e confessou que esse novo tabelamento traz enormes impactos financeiros para a empresa.
Conforme informou o presidente da Sociedade Rural dos Campos Gerais, Edilson Gorte, há cerca de uma semana moageiras de Ponta Grossa não estão recebendo os grãos. “Para fechar o contrato, a empresa precisa saber quanto tem que pagar de frete. Os caminhoneiros estão querendo a tabela que obriga a empresa a pagar o frete de retorno. Então o valor do frete vai subir entre 15% e 30%”, revela. Porém, como lembra Gorte, as empresas já fecharam previamente os contratos de grãos, determinando os valores mesmo antes da resolução, e agora há esse incremento no custo logístico, onerando as empresas. “E estamos no mês de junho, temos pagamentos, financiamentos para pagar, e não estamos podendo vender”, diz.
Haverá também o reflexo nos produtores rurais, com uma perda do valor, estimada entre R$ 60 e R$ 80 por tonelada. O presidente da Sociedade Rural explica a conta. “Vamos supor que me paguem R$ 80 a saca de soja, com um frete de X. Se eu pagar o frete X mais 1, vão tirar da saca se soja; vão pagar R$ 79, descontar do meu para não subir o preço da soja”, esclarece. Diante disso, algumas empresas estão arriscando fazer o transporte no valor antigo, mesmo sujeitas a pagar multa, explica Gorte. Uma comparação do Sindicato dos Transportadores de Ourinhos mostrou, inclusive, um frete ofertado por R$ 6 mil, entre Descalvado (SP) e Sorriso (MT), que pela nova tabela custaria R$ 11,6 mil.
O presidente do Sindicato dos Transportadores Autônomos de Cargas de Ponta Grossa e dos Campos Gerais, Neori Tigrão, afirma que esse tabelamento do frete realmente era uma necessidade para o setor do transporte, buscada desde 1999. Ele diz que está sendo feito um trabalho de diálogo junto às empresas, para que elas coloquem em prática os novos valores. “Algumas empresas suspenderam os embarques para ver como fica esse reajuste, como vai ser repassado. Tem algumas multinacionais que tinham uma programação, com o produto vendido com frete passado, e aí causou dificuldade, porque tem que ser feito um reajuste. Tem que ver onde pode ser repassada essa diferença, então alguém vai perder”, alega.
Indústria revela que alteração traz grande impacto financeiro
A reportagem do Jornal da Manhã e do Portal aRede entrou em contato com as três maiores empresas do agronegócio em Ponta Grossa, as moageiras Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Company. Segundo a Ricardo Nascimbeni, Diretor de Supply Chain da área de grãos da Cargill para América Latina, a fábrica de processamento de grãos está rodando normalmente, mas os fluxos de soja na planta de fato reduziram devido a imposição da tabela de fretes. “Na avaliação da Cargill, o tabelamento é incompreensível e traz enormes impactos financeiros, comprometendo as operações no país e os avanços do agronegócio”, relatou. Outra moageira, porém, não revelou alterações: “A Bunge afirma que a unidade está com a operação normal". A Louis Dreyfus, por sua vez, não respondeu à reportagem até o fechamento desta edição.
Metodologia levou em conta custos
A Resolução nº 5.820, da ANTT, tabela os preços mínimos referentes ao quilômetro rodado na realização de fretes, por eixo carregado, instituída pela Medida Provisória nº 832. As tabelas têm caráter obrigatório para o mercado de fretes do país. Foram elaboradas em conformidade com as especificidades das cargas e estão divididas em: carga geral, a granel, frigorificada, perigosa e neogranel. A metodologia utilizada para definição dos preços mínimos baseou-se no levantamento dos principais custos fixos e variáveis envolvidos na atividade de transporte.





















