Dois homens entram, um homem sai

As mãos calejadas seguram um celular judiado pelo tempo e pelas quedas. Em instantes, o mirrado aparelho tocou três vezes e em todas elas a música ‘A vida é um desafio’ ecoou em alto e bom som. Nas estrofes cantadas por Edy Rock, membro do renomado grupo Racionais MCs, a voz firme profetiza: “A ambição é como um véu que cega os irmãos. Que nem um carro guiado na estrada da vida: sem farol no deserto das trevas perdidas”.
O rap do grupo Racionais MCs fala sobre a dificuldade em que negros tem de construir uma vida honesta, digna e de sucesso em um Brasil que ainda insiste em ser preconceituoso e desigual: dados de 2012 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que 53% da população carcerária brasileira é de negros, enquanto a etnia continua sendo minoria quando o assunto é a inserção em cursos superiores e os altos salários.
Madmax Jota Cardoso pode não saber, mas é a personificação de um Brasil desigual e de uma vida de superações constantes e, até certo ponto, inacreditáveis. Madmax, como gosta de ser chamado, tem 28 anos, orelhas deformadas pelos golpes do MMA e uma trajetória tão intensa quanto surpreendente. Natural de Toledo, Madmax já foi cabo do Exército Brasileiro, cortador de lenha, traficante, ajudante geral, mafioso, cobrador de ‘bronca’, pintor, encanador, malandro, usuário de crack e o que mais a situação permitisse e que a vida lhe impusesse.
Já experimentado por várias circunstâncias dessa curta e intensa trajetória, Madmax se divide entre o trabalho de colaborador no Esquadrão da Vida, instituição para recuperação de dependentes químicos, e os treinos de MMA. O caminho do jovem que sonha ser um lutador famoso só começou a mudar depois que uma briga de bar e quatro tiros de calibre .38 cruzaram a sua vida e o seu corpo, literalmente.
O que começou como um ‘barato’ de final de semana, logo tomou conta da vida do então jovem soldado do Exército: Madmax conheceu o crack em 2004, então com 18 anos. O álcool, o cigarro e a maconha abriram o caminho para as substâncias mais pesadas e destruidoras. Há dois anos ‘limpo’, Madmax confessa: “É você que tem que escolher entre o sim e o não. O sim pode ser prazeroso agora, mas lá na frente o custo é alto”, conta. O crack encurtou a carreira militar de Cardoso: em 2008 o jovem cabo saiu do Exército com honra ao mérito, mesmo depois de desviar munição do quartel para manter o vício.
Em 2011, logo depois de voltar de uma das então quatro fracassadas internações e tentativas de desintoxicação, Madmax entrou em um pequeno desentendimento. O bate-boca aconteceu em um boteco da periferia de Toledo, cidade no oeste do Paraná. Um malandro novo quis colocar a ‘bronca’ pro lado do já experimentado Madmax, na época, figura conhecida no submundo do crime na fronteira entre Brasil e Paraguai.
Mesmo limpo há um ano, Madmax não levou o desaforo para casa e a briga acabou em vias de fato – agredido por quatro homens, o ex-cabo do Exército resolveu deixar e encrenca de lado e cobrar a bronca em um outro momento mais favorável e melhor acompanhado – quem sabe por um revólver na cintura. Mal sabia ele que quatro quadras a frente, a menos de 200 metros da casa da mãe, uma emboscada o esperava: desaforado pela ousadia do malandro antigo, o desafeto disparou quatro tiros de calibre .38 que atingiram o ombro, a cabeça, a barriga e o joelho de Madmax.
Quase que de modo milagroso, Madmax escapou praticamente ileso da tocaia e conseguiu ir correndo para casa. Depois de ficar três dias internado no Hospital Bom Jesus, em Toledo, Cardoso pensou em voltar e cobrar a bronca, como bom malandro que era. Mas os 25 anos que havia vivido na corda bamba entre a ocupação como militar, o crime e o vício no crack já haviam desgastado e feito Madmax ver a morte de perto por vezes demais.
A história do jovem criado na periferia de Toledo e sem a figura paterna por perto só começou a mudar definitivamente em março de 2013. Depois de penhorar um carro importado para fumar crack durante oito dias em uma mata, Madmax viu a morte de perto mais uma vez: o jovem havia cansado de viver perigosamente como gangster do interior do Paraná. A sensação de poder ao andar com um ‘oitão’ na cintura e a brisa de uma pedra de crack já não satisfaziam mais.
Novamente a humilde família Cardoso fez um esforço desumano para conseguir internar Madmax pela quinta vez: agora o destino seria o Esquadrão da Vida, em Ponta Grossa. Depois de nove meses divididos entre atividades rotineiras, orações, consultas médicas e a conversão à Igreja Evangélica, mais especificamente a Igreja Cristã Presbiteriana, Madmax estava pronto para tentar (talvez pela última vez) voltar ao convívio social.
Com R$ 200,00 reais no bolso e a mentalidade refeita, Madmax comprou um colchão – quase metade do dinheiro foi consumida com essa primeira aquisição – e passou a tentar tocar a vida. Com as pessoas que conheceu durante o período como interno do Esquadrão da Vida, Cardoso conseguiu alugar uma casa (o pagamento seria feito só no mês seguinte) e com os R$ 110,00 que ainda tinha comprou os alimentos que o sustentariam forte e longe das drogas.
A nova vida de Madmax, agora modesta e sem a ostentação que antes era patrocinada pelo crime, começou em uma meia água alugada na periferia de Ponta Grossa. Cardoso procurava pequenos empregos para conseguir se sustentar e arranjou uma ocupação no Esquadrão da Vida – local em que havia conhecido a palavra de Deus e se afastado do vício do crack.
Entre as muitas pessoas que Madmax conheceu durante o período de internamento está Valmir Matos, mais conhecido apenas como Mestre Matos. Negro, alto e parrudo, Matos é descrito por muitos como uma pessoa de coração gigante: foi ele quem abriu as portas da Academia, a Arena Fight, para Madmax – o intermédio veio através de Mário Sérgio, faixa-preta de Matos e também colaborador do Esquadrão da Vida. Outros ‘anjos da guarda’ de Madmax em Ponta Grossa são Carlos Gravina, professor de Judô, o empresário Jean Mudrey e os amigos Pedro Alex e Denilson Pontes.
Há oito meses imerso no mundo do MMA, Madmax já uma intensa carreira nas artes marciais mistas com 8 lutas – com quatro vitórias e quatro derrotas – além do título paranaense de Muay Thai na categoria até 70 quilos, conquistado em maio deste ano. “Agora eu sou geração saúde, tá ligado? Meu negócio é sair na mão lá dentro do cage. Mas sempre pregando o amor”, conta emocionado.
Depois de viver intensamente entre a rigidez da carreira militar, a malandragem da vida do crime e o terror do vício causado pelo crack, Madmax Cardoso quase encarna Mel Gibson ao falar da própria vida e confunde a ficção do filme que lhe deu o nome com a dureza da vida real: “Hoje eu vivo o melhor momento da minha vida, cara. Não tem carro importado ou mulher que pague isso. As pessoas gostam de mim pelo que sou e não pelo que tenho. Isso sim é ser feliz”, confessa.
Como pregava o longa-metragem recorde de bilheteria nos anos 80: na vida dois homens podem entrar, mas apenas um pode sair ileso.





















