Ponta-grossense homenageia Exército com poesia

Ex-integrante das forças armadas, o ponta-grossense João Osório Miranda decidiu resgatar uma poesia escrita há 56 anos para homenagear o Dia do Soldado, celebrado no próximo dia 25. Intitulada ‘A Última Batalha’, a poesia narra os dramas vividos pelos soldados que vão para a batalha. Veja abaixo a poesia:
A Última Batalha
O vasto campo perdido no horizonte;
Planície móvel, onde infantes vagam,
Alvo lençol verdejante desenrola.
Por sobre a tua solidão sem termo,
Nossa bandeira, símbolo da força,
Paira como vôos triunfantes de águias...
O campo deserto, palpitante e enorme,
Pátria de nossas almas erradias.
Sobre o teu dorso movediço corre
Nossas vidas selvagens, repartidas.
Entre o furor sangrento das batalhas e o
Desguiar da paz, no campo varrido;
Entre o “raivar” dos temporais desfeitos e
O galopar das cavalarias;
E sempre à vista do infinito ermo,
O imenso orgulho de nos sentir fortes;
E o grande gosto de nos ver livres.
Certo não podes tu, mísero escravo,
Que empalidece ante o horror das lutas,
Batidas de canhão.
Nem tu, por certo, crapuloso fidalgo esmorecido,
Ao peso das orgias, compreendê-las:
As emoções que lhe sacodem a alma;
O capitoso encontro desta vida;
Passada entre as batalhas rugidoras
Nas brutas lutas no campo sanhoso.
Tanques cortando os campos em tumulto,
Frente aberta como grandes asas,
E os caprichos do vento sacodem a bandeira sem rumo....
Assim vagamos tristonhos e aborrecidos,
Pela infinita solidão dos campos,
Chãos verdejantes, que do sangue ficam pegadas.....
Que é que buscamos?
O perigo e a luta;
O estrondo das metralhas, a glória das batalhas;
O sibilar sinistro das balas;
O coriscar das lâminas das espadas;
Os grandes golpes que o sangue espirra.
E sobre os “ais” flamejantes dos que morrem
O trovejar dos cantos de vitória.
A morte vista frente à frente,
Ao meio da acesa fúria do combate certo,
Assusta o mole coração dos fracos,
Descora o rosto ansioso dos covardes.
A nós, porém, aviva o sangue e os olhos,
Enrijece o coração e dá força aos braços.
Não tememos a morte que afrontamos.
Cantando e rindo no fragor da luta,
Lutamos, derramando sangue pela Pátria.
Se tantas vezes, tão perto a vemos,
Vemo-la tal qual, a qual se mostra,
Continuação do descuidado sono
Que dormimos, depois de uma batalha.
Os fatigados membros descansando
Sobre o troféu sangrento da batalha
Nele um dia, por fim descansaremos,
Sobre os louros da vitória.
Nas derradeiras contusões morrendo:
Matar. Vencer ainda!
E como a rocha
Que se despenha do alcantil de um morro,
Rola arranhando o chão, lascando troncos
Para a sombra do abismo onde se afunda,
Arrastando um cortejo de destroços.
Assim é belo, sucumbir lutando.
Morrer vibrando um derradeiro golpe,
E ao cair arrastar à própria queda
O corpo e a vida de um inimigo morto...
Pois nos cumpre morrer, que devemos
Pagar um dia esse tributo ou nada.
Venha quando quiser a incerta morte,
Pois sem medo, esperamo-la a pé firme.
E é bem a morte quando fere
Em cheio o peito de um valente,
Que chega rastejante
No solitário leito de um enfermo.
Enquanto enfermos extenuados e pávidos,
Gota a gota, destila o fel da vida...
Suspiro a suspiro, o alento exala...
Num longo sopro, num arranco heróico,
Nossas vidas esvaem-se e nossos espíritos,
O vôo eleva para a eternidade.
Que inútil morrer no fofo leito,
Se escravo é sempre o lívido despojo,
Que na estreita cova ficará cativo
Até que liberte a lama apodrecente.
A nós, quando caímos.
Na surpresa de um belo golpe de uma bala rápida:
A glória de um combate!
Na apoteose dos clarões das metralhas,
A nós vencidos, como rubra mortalha:
O próprio sangue!
Por sepultura, o céu azul dos campos,
Por adeus e oração estas palavras:
Dos que se deixam sobre os campos, bravos!
Por aqueles que se foram,
Termina a última batalha.





















