Miguel Sanches Neto lança livro sobre experiência na estrada

O escritor paranaense Miguel Sanches Neto lança na próxima semana o livro Muitas Margens – Sete Dias na Rodovia. As sessões de autógrafo e bate-papo com o leitor acontecem na terça-feira (12), às 18h45, na Livraria Curitiba, em Ponta Grossa, e na próxima quarta-feira (13), às 18h45, na Livraria Arte & Letra, em Curitiba. O projeto foi aprovado pelo Ministério da Cultura e desenvolvido através da Lei Rouanet com o patrocínio da CCR Rodonorte.
A bordo de um furgão, Sanches Neto percorreu o trecho entre Apucarana e Curitiba, na Rodovia do Café, no começo de janeiro numa velocidade diferente da convencional. A viagem durou sete dias. “Esta viagem faz parte de todo um projeto maior de reabitar literariamente espaços que foram marcantes em minha trajetória. Parte de meus livros tem um acentuado viés autobiográfico, então a viagem se insere nesta linha”, explica o escritor.
Foi pela Rodovia do Café que o Norte do Paraná, região de onde Sanches Neto é oriundo, se comunicou e integrou-se com Ponta Grossa, Curitiba e com o Porto de Paranaguá. Foi por essa rodovia que ele deixou Peabiru, sua cidade natal, para se mudar para Ponta Grossa. “Sempre passei por esta estrada, mas com objetivo de chegar ao ponto final quanto antes. Mas eu nutria o desejo de, um dia, ficar mais tempo por suas margens, dando atenção à vida que transcorre ao lado da rodovia. O Paraná tem muitas áreas que não foram ocupadas literariamente. Com o livro Muitas Margens, tentei ocupar este espaço em que há grande extensões despovoadas ou pouco povoadas. Este é um papel da literatura também – dar espessura a regiões onde não nos detemos”, assinala.
Muitas Margens representou para Sanches Neto uma viagem no tempo, reencontrando em alguns momentos o passado vivido na infância. Os velhos armazéns de peroba rosa, tão comuns no passado, por exemplo, representaram uma dessas conexões com uma idade perdida. A dinâmica da viagem, a poesia pronta para ser captada pelo observador que olha pela janela de carros, ônibus e caminhões, também está presente no livro, captada por um autor sem pressa de chegar.
A viagem teve ainda o viés poético do contato com a natureza, pois, ao longo dos 7 dias, Sanches Neto escreveu 50 haicais nascidos na beira da estrada, que falam de rio, de pontes, de borboletas, de árvores, mas também de andarilhos, personagens e da própria viagem. Percorrer regiões de grande beleza natural, atento às paisagens, no ritmo da caminhada, permitiu o contato poético. Mas significou também uma viagem humana, em contato direto com pessoas.
O sentimento mais marcante durante a “expedição” foi o da dependência das pessoas em relação à rodovia. “Na maior parte do trajeto, a estrada é tudo para as pessoas que moram ao seu redor. A estrada é uma grande cidade, muitas vezes com vizinhos distantes, mas que se sentem unidos pela rodovia. É um locus de trabalho. E de diversão. Em vários pontos, no final da tarde, as pessoas saem de suas casas e se sentam à margem da rodovia, para ver o mundo passar por suas vidas. Há uma irmandade de quem habita estas margens.”, sintetiza o escritor.
O momento pessoal mais tenso foi quando o autor encontrou, num final de tarde, sob uma ponte, um andarilho. Os dois travaram uma conversa franca. “Éramos apenas ele e eu, e ele tinha perturbações mentais, estava revoltado com o mundo”, revela.
Já, em Witmarsum, Sanches Neto experimentou um sentimento animador. Ao longo de todo o trecho, ele via sua história sendo repetida, com jovens deixando a casa dos pais para trabalhar em cidades maiores. “Na Colônia Witmarsum, por conta do turismo, propiciado principalmente pela rodovia, no entanto, os filhos estão voltando para trabalhar com os pais. É uma reversão do processo de evasão do interior”, comemora.
Mapa literário
Para o presidente da CCR RodoNorte, José Alberto Moita, Muitas Margens coloca a Rodovia do Café em um novo mapa, o mapa literário. “Miguel mostra com o olhar do escritor muito daquilo que nós vivemos todos os dias na estrada, em sua essência. Uma excelente obra para se ler em viagem. Quem ama a rodovia, quem ama viajar, vai se identificar muito com este projeto e vai lançar a partir de agora um olhar diferente sobre a paisagem e o dia a dia deste trecho histórico entre Apucarana e Curitiba”, define.
Muitas Margens de fato é uma obra de literatura. Não é uma reportagem, nem um relatório antropológico. É o olhar de um escritor que percorre um espaço cheio de significação autobiográfica e que tenta deixar inscrito em um documento literário seu afeto por esta região. É uma obra que tenta ensinar a viajar por paisagem que percorremos sem ver direito, a cultivar uma disposição para as descobertas. As paisagens mais próximas são tão inusitadas quanto as regiões distantes, exóticas. Basta treinar os olhos e a sensibilidade.
Informações da assessoria.





















