Nucria terá dedicação exclusiva de delegada
Ana Paula Cunha Carvalho, que antes também se dividia no 3º Distrito, agora ficará apenas com o Nucria

“O número de registros que temos hoje não condiz com a realidade. Sabemos que os números são maiores. O motivo? A falta de denúncias”. A afirmação é da delegada Ana Paula Cunha Carvalho e diz respeito à violência contra crianças e adolescentes em Ponta Grossa.
Até o início deste mês ela se dividia entre a rotina do 3º Distrito da Polícia Civil de Ponta Grossa e o Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria). “A dedicação exclusiva ao Nucria era uma luta minha desde a implantação do órgão no município em 2015. Enfim, fomos atendidos”, comemora. O seu lugar no 3º Distrito será ocupado pelo delegado Jairo Luiz Duarte de Camargo. Ele trabalhava em Piraí do Sul.
De acordo com Ana Paula, 98% dos casos atendidos na cidade são cometidos por pessoas da mesma família ou próximas a vítima. “Por isso buscamos divulgar as situações. É como se fosse um alerta. Não para chocar ou dizer que estamos prendendo. Isso não é mais do que a nossa obrigação. A divulgação serve para mostrar que as ocorrências não estão somente nas famílias de baixa renda, na favela ou no vizinho. Elas podem estar dentro da própria casa”, justificou a delegada.
Outro desafio constante apontado por Ana Paula está na consciência das vítimas de que estão sofrendo algum tipo de abuso. “Esse aspecto é principalmente nas ocorrências de crime sexual. As vítimas não encaram o que acontece com elas como uma violência. Na maioria das vezes são coagidas de tal maneira que o fato é comparado a um carinho, por exemplo”, afirma. “Já atendia a um caso em que a menina só procurou o Nucria após uma palestra que ela participou na escola”, complementou a delegada.
Mãe de dois filhos – um menino de dois anos de idade e uma menina de seis anos de idade -, Ana Paula destaca que a experiência nestes quase nove anos de profissão é fundamental para seguir trabalhando. “Muitas pessoas me perguntam: você não fica chocada? Claro que fico, principalmente por que as situações, em grande parte, são de extrema crueldade. Mas consigo separar e não absorver tudo”, explica.
O Nucria de Ponta Grossa conta, além da delegada, com dois investigadores, uma escrivã e uma psicóloga. “É um efetivo pequeno. Porém, o trabalho não pode parar”, conclui a delegada.
Crimes podem ser evitados?
Para a delegada Ana Paula Cunha Carvalho, a única forma de se evitar crimes contra a criança e o adolescente, principalmente os de cunho sexual, é através da conscientização. “Os pais precisam conversar com seus filhos, explicando o que é certo e errado. Tem que deixar claro que existem partes do corpo das crianças, por exemplo, que são somente delas e não podem ser tocadas por qualquer pessoa”, reforçou. Outras medidas estão no acompanhamento da mudança de comportamento, baixo rendimento escolar e retração. “São todos sinais”, finalizou a delegada.





















