Rota 01 revive trajeto histórico de 1923 e reúne cerca de 60 motos em viagem até Antonina
Passeio recriou caminho percorrido há 103 anos por Ricardo Wagner e Afonso Lange; tradição foi redescoberta em 2015 e desde então é realizada anualmente

Mais de um século depois da aventura que entrou para a história do motociclismo, cerca de 60 motocicletas voltaram a percorrer no último sábado (22) o trajeto entre Ponta Grossa e Antonina, no Litoral do Paraná. A viagem da Rota 01 Mototurismo recriou, da forma mais próxima possível, o percurso realizado em 1923 por Ricardo Wagner e Afonso Lange, considerado um marco pioneiro das viagens de motocicleta na América Latina.
A partida foi realizada a partir do Monumento Marco Zero da Rota 01, localizado em frente ao Planalto Select Hotel Ponta Grossa, ponto simbólico ligado à memória da viagem histórica. Durante o deslocamento, o comboio contou com o acompanhamento das forças de segurança municipais até a saída de Ponta Grossa e da Polícia Rodoviária Estadual nos trechos entre Ponta Grossa e Palmeira e, posteriormente, na Estrada da Graciosa, contribuindo para a organização e a segurança do grupo durante a viagem.
A edição de 2026 celebrou os 103 anos da jornada histórica e reuniu motociclistas de diferentes experiências em um percurso que passou por Ponta Grossa, Palmeira, Campo Largo, Curitiba, Serra da Graciosa e Antonina. Mais do que chegar ao destino, a proposta foi colocar novamente na estrada uma história que permaneceu por décadas pouco conhecida e que foi redescoberta em 2015. Desde então, o passeio é realizado todos os anos no mês de agosto.
Um dos principais incentivadores dessa retomada é Carlos Eduardo Biazetto, motociclista que participa diretamente da organização e mobilização dos grupos e que se define como um “aficionado pelo passeio”.

Pesquisa permitiu reconstruir caminho original
Segundo Biazetto, o resgate da história envolveu pesquisas sobre as antigas rodovias e caminhos disponíveis no Paraná no início do século passado, permitindo reconstruir o percurso percorrido pelos pioneiros.
“Foi feita uma pesquisa, traçando a rota antiga e as rodovias que existiam naquela época. Desde 2015 estamos repetindo esse passeio como uma forma de homenagem, baseado também no espírito de empreendedorismo e no desafio que eles tiveram”, explica.
O contraste entre a viagem de 1923 e a estrutura disponível aos motociclistas atualmente é justamente um dos elementos que mais impressionam quem conhece a história.
“Eles fizeram um passeio por estradas péssimas, que não eram como as estradas que conhecemos hoje, com motos rudimentares, sem mapa, GPS, ABS, postos de gasolina e toda a estrutura que estamos acostumados a encontrar”, destaca Biazetto.
Para ele, Wagner e Lange foram verdadeiros pioneiros. “Eles foram aventureiros. Desde 2015, em agosto, a gente tende a repetir esse passeio, trazendo amigos e pessoas que são apaixonadas por essa história e que todos os anos vêm participar”, afirma.

Cerca de 60 motos participaram da edição de 2026
De acordo com Daniel Wagner, aproximadamente 60 motocicletas participaram da viagem deste ano, reforçando a adesão ao passeio histórico e a tradição que vem sendo mantida desde a redescoberta da rota.
O trajeto completo, considerando ida e retorno, supera os 400 quilômetros, o que transforma a experiência em um desafio especialmente para motociclistas que ainda não estão acostumados a percorrer grandes distâncias ou participar de comboios.
“Cada evento é um reencontro com amigos, com a história e também uma oportunidade de fazer novos amigos na estrada. Existem desafios pessoais que são vencidos, porque há pessoas que fazem essa rota pela primeira vez, que não têm tanto hábito de rodar em estrada, em grupos ou fazer uma viagem mais longa em um único dia”, explica Biazetto.
“Não é chegar, é estar na moto”
Essa sensação foi vivida pelo designer Rafael Zem, que participou pela primeira vez de uma viagem em um grupo tão numeroso.
Acostumado a fazer viagens sozinho ou acompanhado por poucos amigos, Rafael conta que a experiência em comboio trouxe uma percepção diferente.
“Você sente que faz parte de algo maior. Conhece gente nova e também tem mais segurança na estrada, porque está em um comboio de 40, 50, 60 motos. Você não está sozinho e as pessoas conseguem enxergar melhor o grupo”, relata.
Para ele, um dos pontos mais marcantes foi justamente poder aproveitar o percurso sem pensar apenas no destino.
“Você se preocupa menos com o caminho que tem que fazer e mais em estar no caminho. Acho que essa é a grande diferença de viajar de moto. Não é chegar, é estar na moto”, resume.

Rota passa por caminhos que muitos paranaenses ainda desconhecem
Um dos diferenciais da experiência é a utilização de trechos históricos que passam longe das principais rodovias utilizadas atualmente. Entre eles está a região da Estrada do Mato Grosso, em Campo Largo. Segundo Biazetto, muitos motociclistas participam do passeio sem imaginar que existem caminhos históricos tão próximos de Ponta Grossa.
“Todo ano vão 60, 70, 100 motos e sempre existem 20 ou 30 pessoas que nunca fizeram. Elas voltam impressionadas ao conhecer trechos próximos da gente que nem imaginavam que existiam, como a Estrada do Mato Grosso, em Campo Largo, uma região histórica, com construções antigas”, afirma.
Uma aventura que segue inspirando motociclistas
Para Biazetto, participar da Rota 01 também representa uma forma de colocar os desafios atuais em perspectiva. Motociclista desde 2013 e praticante de mototurismo, ele afirma que a aventura realizada por Wagner e Lange em 1923 continua impressionante mesmo para quem possui experiência em longas viagens.
“O que Wagner e Lange fizeram em 1923 foi uma coisa surreal. Eram duas pessoas saindo naquela época sem qualquer estrutura. O que eles fizeram até hoje impressiona e inspira os motociclistas”, afirma.
Ele lembra que os pioneiros enfrentaram situações que hoje seriam difíceis de imaginar em uma viagem programada.
“Eles enfrentaram estrada de terra, passaram por dentro de rio, ficaram sem combustível, tombaram a moto dentro do rio e desceram a Graciosa. Até hoje a Graciosa exige cuidado e, quando chove, nós nem fazemos esse trecho pelo risco”, conta.
História redescoberta em 2015
A preservação dessa memória ganhou força a partir de 2015, quando o levantamento histórico permitiu identificar e reconstruir o trajeto percorrido em 1923.O trabalho de Carlos Eduardo Biazetto foi importante nesse processo, especialmente na pesquisa, valorização da história e mobilização para transformar novamente o percurso em uma experiência sobre duas rodas.
Desde então, a viagem passou a ser repetida anualmente, sempre próxima à data da aventura original. Biazetto ressalta que a importância da Rota 01 vai além do motociclismo e também envolve a valorização da própria história regional.
“Muitas vezes o brasileiro não valoriza a própria história. A pessoa vai aos Estados Unidos fazer uma rota, uma montanha ou um trajeto e não prestigia um passeio que foi feito aqui, uma história como a nossa”, afirma.
Segundo ele, há registros documentais da viagem de Wagner e Lange, o que reforça o caráter pioneiro da aventura.
“Do México para baixo, ninguém tinha feito uma viagem como a deles de forma documentada. Eles são realmente pioneiros. Eu acho que hoje é uma rota que qualquer motociclista que se preze tem que ter no seu passaporte”, destaca.

Legado que atravessa gerações
Daniel Wagner também destacou que a edição deste ano conseguiu preservar o espírito do percurso original.
“Foi muito bom a gente poder fazer o roteiro original, ou o mais original possível. Ponta Grossa, Palmeira, Campo Largo, Curitiba e depois a Serra da Graciosa. Foi um passeio muito agradável”, afirma.
Para ele, a receptividade encontrada em Antonina demonstra que a história ganhou reconhecimento ao longo dos anos.
“O pessoal reconhece e celebra a existência da Rota 01, com esse legado e esse tesouro que o Paraná tem hoje, com um grande potencial turístico”, ressalta Daniel.
A chegada dos motociclistas também integrou o 6º Encontro de Motos de Antonina, ampliando a confraternização entre os participantes. A aventura original começou em 23 de agosto de 1923, quando Ricardo Wagner e Afonso Lange deixaram Ponta Grossa em direção a Antonina enfrentando estradas precárias, dificuldades mecânicas e praticamente nenhuma estrutura de apoio.
Em 2015, essa história foi redescoberta e voltou às estradas. Desde então, todos os anos novos motociclistas se juntam aos veteranos para repetir a experiência.
Mais do que refazer quilômetros percorridos há 103 anos, a Rota 01 mantém viva uma história de pioneirismo, aventura e paixão pelo motociclismo, transformando o caminho entre os Campos Gerais e o Litoral em patrimônio turístico e afetivo para quem escolhe conhecer o Paraná sobre duas rodas.
Com informações da Assessoria.





















