Crônicas dos Campos Gerais: O Bielinha | aRede
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Crônicas dos Campos Gerais: O Bielinha

Crônicas dos Campos Gerais: O Bielinha

Texto de autoria de Rosicler Antoniácomi Alves Gomes, Professora de Português e Inglês
Texto de autoria de Rosicler Antoniácomi Alves Gomes, Professora de Português e Inglês -

Da Redação

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Crônicas dos Campos Gerais: O Bielinha

Minha Carteira de Trabalho contém a prova: com quinze anos de idade eu trabalhei no setor de polimento da Metalúrgica Santa Cecília, empresa da qual o trigésimo quarto prefeito de Ponta Grossa, Dr. Luiz Gonzaga Pinto, era sócio proprietário e diretor.  Não durou muito minha lida com bielas, anéis e outras peças que saíam das minhas mãos inexperientes. Acabei desistindo, com medo de “matar” mais peças do que poli-las, mesmo após um fato ocorrido nas vésperas das férias coletivas, às quais eu nem fazia jus plenamente. Na confraternização oferecida aos funcionários, regada a refrigerante com cachorro-quente, e com discurso do diretor, eu ouvi pela primeira vez a expressão “não dar o peixe, mas ensinar a pescar”. Na minha ingênua adolescência, isso me pareceu a melhor frase para se dizer a qualquer jovem.

A imagem de um adulto experiente, se prontificando a ensinar um novato a “pescar”, não um peixe, mas o seu ganha-pão, me veio à mente como se fosse uma missão sacerdotal (hoje, essa frase me causa estremecimento, pois imagino as pessoas que a ela se referem, entregando a um pobre coitado um manual de pesca, uma vara de pescar, sem nenhuma isca, e o abandonando às margens de um rio podre). Apesar da frase sacerdotal, alguns dias após o retorno ao trabalho, eu me demiti.

O ambiente do setor de polimento não era o cenário idealizado por mim. O ideal eu havia descrito, antes de conhecê-lo, num conto que escrevi para O Bielinha, um periódico, que minhas irmãs, funcionárias do setor administrativo, ajudavam a redigir. Não tenho nenhum arquivo do conto, nem me lembro do título. Inspirei-me em um fato que havia circulado pela fábrica como misterioso, relatado por minhas irmãs: haviam encontrado algumas peças ainda sem polimento no encanamento de esgoto de um banheiro. Criei um apólogo, cujo enredo apresentava o encontro de um anel e uma biela, que, num curto e idílico momento, cada um em sua bandeja de transporte para o setor de polimento, haviam se apaixonado.

Cientes de que partiriam, após o procedimento, para destinos desencontrados, os apaixonados optaram por uma fuga, saltando das bandejas, tentando interferir em seus infelizes destinos. Uma aventura que acabou num trágico “afogamento” nos esgotos da fábrica.

O contador da empresa, Sr. João Teles, apreciou a narrativa e efetivamente tentou me ensinar a pescar: emprestou-me, por intermédio de minha irmã, alguns livretos que ele próprio gostava de ler. Pesquei neles com muita satisfação. 

Texto de autoria de Rosicler Antoniácomi Alves Gomes, Professora de Português e Inglês, Ponta Grossa, escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais (https://cronicascamposgerais.blogspot.com/).

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