Crônica da semana é de Aline Sviatowski | aRede
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Crônica da semana é de Aline Sviatowski

Texto de autoria de Aline Sviatowski, estudante de Ponta Grossa

Aline Sviatowski é ponta-grossense, tem 26 anos, é ex-acadêmica de Direito na Uepg, caloura de farmácia na Usp e segue buscando seus sonhos na Medicina e na escrita.
Aline Sviatowski é ponta-grossense, tem 26 anos, é ex-acadêmica de Direito na Uepg, caloura de farmácia na Usp e segue buscando seus sonhos na Medicina e na escrita. -

Da Redação

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Texto de autoria de Aline Sviatowski, estudante de Ponta Grossa

A casa de madeira, em meio à selva paranaense de sobreviventes araucárias, exalava odores com notas amadeiradas e ecoava os sons do ovo que espirrava ao ser frito. Um gavião gritava na janela acima do telhado. Assim como gritava em torno da casa há intermináveis três horas.

A acústica da casa de madeira deixava o “canto” impregnar todas as paredes e estremecer os sonhos dos moradores. O segundo andar da casa sempre era, ainda, inundado pelos cheiros alimentícios de temperos abrasileirados; mas, principalmente, de alho e cebola. Refogados no óleo quente, até que transparentes e dourados estivessem prontos para fundirem seus aromas nos sabores.

Em casa de polaco, tudo tem: passarinho disputando terreno consigo mesmo, cachorro latindo para formiga, formiga roubando as últimas migalhas, repolho colhido da horta do vizinho e café com gosto de “pão-chinelo”, ou no mínimo, de corrimão.

Sofia descia as escadas, encantada pelos cheiros. O disco de vinil rodava rangendo e cantando. As tábuas do chão resmungavam ante os passos.

A casa vibrava os sons do dia nascente, uma canção antiga gravada na superfície do long play e anedotas sobre acontecimentos triviais. Ela também absorvia o cotidiano. O subir e descer constantes da escadaria ficavam, então, gravados no corrimão. Assim como os sons, no vinil. O movimento, na madeira. Também o café, moído recentemente, absorvia toda a atmosfera sempre viva de uma casa interiorana de descendentes poloneses.

Barulho oco de copo de vidro batendo levemente na superfície da mesa. Os dedos de Sofia envolvem o copo americano, que é preenchido com café puro. Simultaneamente, o ovo frito pula para o seu prato de sobremesa (que anarquicamente é utilizado para todo tipo de refeição). Gema dura, como sempre. Os olhos? Fechados, para degustar o gosto de corrimão: piadas constantes, resmungos de braveza diante da fome, cansaço de um dia laborioso, beijo da sobrinha, lambida de cachorro, cheiros vindos do forno, briga de irmãos, sapo na varanda, “chinelada” de mãe, manhã de Natal.

Nada é mais brasileiro do que um copo americano, repleto de histórias miscigenadas.

Texto escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais.

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