Crônicas dos Campos Gerais: “Amor ucraniano” | aRede
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Crônicas dos Campos Gerais: “Amor ucraniano”

Texto de autoria de Aline Sviatowski, estudante de Ponta Grossa

Aline Sviatowski é ponta-grossense, tem 26 anos, é ex-acadêmica de Direito na Uepg, caloura de farmácia na Usp e segue buscando seus sonhos na Medicina e na escrita.
Aline Sviatowski é ponta-grossense, tem 26 anos, é ex-acadêmica de Direito na Uepg, caloura de farmácia na Usp e segue buscando seus sonhos na Medicina e na escrita. -

Da Redação

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Texto de autoria de Aline Sviatowski, estudante de Ponta Grossa

Chegava o Circo Rivero aos Campos Gerais em 1935. Com a prerrogativa de transformar dilacerantes lembranças em sorrisos, lamentos em gargalhadas, Michel (o trapezista) tinha um sonho que concretizava todas as vezes que desafiava a pungente gravidade a alguns metros do chão, voando entre cordas. Mesmo nas atividades administrativas, sentia-se realizado. Fugira da Ucrânia cinco anos atrás, abandonando língua, costumes e amores. Sua alma repleta de cicatrizes e perdas buscava na euforia da plateia remédio para sua dor.

Francisca, 19 anos. Noiva há sete meses. Havia acordado naquela manhã primaveril de 1935 com estranha alegria pairando juntamente ao aroma de café recentemente coado. Colheu flores amarelas no campo. Levou-as até seu trabalho, na Padaria Glória. Entre comentários dos clientes, soubera da novidade: um circo argentino chegou à cidade. Animou-se e pensou no circo durante todo o dia. Trigo, ovos. Sova o pão. Deixa crescer. Abre a massa. Sua imaginação era acariciada por suaves promessas de diversão enquanto cumpria suas funções, planejou levar sua irmã mais nova. Voltou ao balcão para a venda de suas deliciosas panificações.

Seis e meia da tarde. O sol já havia deitado atrás das colinas verdes e macias, dando lentamente vez às estrelas. Fila. O vestido florido de Chica somado aos brilhos de seus olhos repletos de expectativa destacavam-se na multidão. “Buenas noches”. Chica somente sorriu, timidamente. Como flor simples, que entre capins arredios atreve-se a florescer; atrevida alegria inundava o íntimo de Michel.

Foi necessário um tímido sorriso que transbordava o que habitava em Chica, uma alma florida, para que toda a Primavera brotasse em Michel. Com a Primavera, vinham as borboletas. Seriam as borboletas as responsáveis por emudecer a razão?

Michel imantado pelo magnetismo de Chica, acompanhou com seu olhar todos os gestos doces da jovem alemã. Chica, por sua vez, não tão timidamente, observava-o quando sabia-se não vista – capacidade de dissimulação inata às mulheres.

Findo o espetáculo, as centenas de palmas ecoavam na mente de Michel como tambores que rufam ao antevir do toque da amada. Trocou-se rapidamente para outros “buenas noches” oferecer à Chica. Mas ofereceu-a uma fuga à Argentina.

Na manhã seguinte, Michel apareceu na padaria antes mesmo do amanhecer para buscar Chica. E os Campos Gerais foram palco do começo desse amor ucraniano, um pouco “porteño” e que durou uma vida. Tudo por um “boa noite” e um sorriso.

Texto escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais.

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