Crônicas dos Campos Gerais: “Andanças”
Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, Professora aposentada de Ponta Grossa

Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, Professora aposentada de Ponta Grossa
Era compulsório. Juntar as tralhas e seguir o chefe da família. Uma empreitada para jovens. Na bagagem, sonhos e esperanças. Um filho no colo e outro na barriga. Em pé, na carroceria do caminhão, o cachorro em cima de tudo, sem saber de nada. Fazia pose de quem acabou de ganhar o cinturão de peso-pesado.
Às vezes penso que os animais são mais privilegiados que os seres humanos. Seguem o dono sem saber o destino, porém têm cama, mesa e banho gratuitos. O cachorro Waldick não era adepto do banho. Sempre fugia da água como um gato. Um pratão de polenta com sobras de carne era bem melhor aceito.
Foram parar em Castro, a terceira cidade mais antiga do Paraná, um caminho de passagem dos tropeiros que cruzavam o Brasil colonial. Com seus alicerces fincados no tropeirismo, ali ainda flutuava a energia deixada por aqueles pioneiros. Uma bela cidade antiga, hospitaleira, casario do século XVIII, a Igreja Matriz construída por escravos, o Museu do tropeiro com respeitável acervo histórico. Capital do Paraná por três meses. Nascida às margens do Rio Iapó, próximo do “vau”, um trecho menos profundo onde era possível atravessá-lo montado a cavalo. O escritor princesino Ribas Silveira mencionou em um poema: “O vau do Xapecó é tôrva corredeira/ tendo de um lado o poço e doutro uma cachoeira/ quem passa por ali enfrenta a guilhotina/ é preciso seguir as curvas do penhasco/ para não rolar no abismo e virar churrasco/ à lontras, suruvis e aves de rapina.”
Decidiram viver numa casa em frente à Estação Ferroviária... Que decisão corajosa! O barulho provocado diuturnamente pela ferrovia, entretanto, não interferiu em que o menino nascesse saudável e calmo.
De dia viam-se aquelas máquinas vermelhas puxando muitos vagões que pareciam uma serpente de metal resfolegando e deslizando pelos trilhos. À noite recebiam a visita infalível de muitos representantes da figura símbolo de Castro: os sapos. Seres inofensivos, porém de aparência amedrontadora. As galinhas espalharam-se pelo capinzal e por lá se multiplicavam como coelhos. Frango e ovos eram fartos na mesa da família.
A prainha refrescava os domingos calorentos.
Vida pacata de cidade interiorana, vizinhança solidária e amistosa. A ameixeira carregada de frutos amarelos fazia sombra para a rede na varanda. Tudo isso tinha sabor de paz, de tranquilidade, mesmo ousando conviver com os ruídos, em frente à Estação Ferroviária.
Texto produzido no âmbito do projeto Crônica dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais.





















