Ponta Grossa
Ponta Grossa adota diferentes medidas para proteger o patrimônio histórico
Segundo a Prefeitura de Ponta Grossa, através da Secretaria Municipal de Cultura, o município avançou na área, já especialistas apontam melhorias, mas reforçam necessidade de ampliar políticas e investimentos no setor
João Bobato | 21 de março de 2026 - 06:50
Ponta Grossa carrega, em suas ruas e edificações, marcas de diferentes períodos históricos que ajudam a contar a formação da cidade, dos povos indígenas e tropeiros à chegada da ferrovia, passando pela influência europeia, o ciclo do café e a industrialização. Apesar dessa riqueza, especialistas alertam que a preservação do patrimônio histórico ainda enfrenta desafios estruturais e culturais no município.
Para o professor aposentado da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e integrante da Associação de Preservação do Patrimônio Cultural e Natural (APPAC), Leonel Brizolla, a cidade possui um vasto acervo cultural, mas historicamente negligenciado. Segundo ele, o poder público nunca tratou a preservação como prioridade, o que resultou na perda de parte significativa desse patrimônio ao longo do tempo. “Hoje temos apenas traços dessa história espalhados pela cidade, sem que seja possível compreender plenamente o que existiu ali”, aponta.
Brizola destaca ainda que espaços importantes, como o antigo complexo ferroviário, perderam sua capacidade de comunicação histórica. Para ele, a falta de políticas contínuas de preservação impediu que Ponta Grossa se consolidasse como um destino turístico cultural, como ocorreu em cidades como Ouro Preto e Paraty.
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ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL RESSALTA AVANÇOS NA ÁREA
Na avaliação do secretário municipal de Cultura de Ponta Grossa, Alberto Portugal, apesar das limitações, o município avançou na área. Ele afirma que Ponta Grossa está entre as cidades com maior número de imóveis tombados no Sul do Brasil e que há um trabalho constante junto ao Conselho Municipal do Patrimônio Cultural (COMPAC). “Temos promovido ações de sensibilização e educação patrimonial, e a ideia de que o patrimônio impede o desenvolvimento vem mudando gradualmente”, explica.
O secretário também ressalta que a preservação não depende apenas do poder público. “A memória é coletiva. É preciso que a população participe, compreenda e se envolva no processo”, diz. Segundo ele, muitos imóveis demolidos nos últimos anos não estavam protegidos por tombamento ou inventário, o que evidencia a necessidade de maior participação social na identificação e proteção desses bens.
Entre os projetos em andamento, Portugal cita a revitalização da Estação Paraná, que deve abrigar a futura Escolinha do Patrimônio. A iniciativa, no entanto, enfrenta limitações orçamentárias e entraves burocráticos. “Levamos um ano para conseguir autorização do Estado para executar a obra com recursos próprios”, relata.
Segundo a prefeita Elizabeth Schmidt, há um trabalho técnico consistente da Prefeitura, que fortalece o posicionamento do município na área do turismo e amplia a visibilidade dos espaços “A gestão cria condições concretas para novos investimentos em infraestrutura, qualificação e promoção turística.”
ESPECIALISTA APONTA IMÓVEIS A SEREM RECUPERADOS
A arquiteta e urbanista Gabriela Sgarbossa, especialista em conservação e restauro, avalia que a cidade ainda precisa avançar no entendimento do patrimônio como parte do desenvolvimento urbano. “Existe um discurso de que o patrimônio é um entrave, mas cidades que o valorizam o transformam em ativo econômico, com potencial turístico e cultural”, afirma.
Ela aponta que diversos imóveis poderiam ser recuperados, como o edifício da antiga “Magic” e o barracão das oficinas da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), e defende soluções contemporâneas, como o retrofit, técnica que preserva elementos históricos, como fachadas, ao mesmo tempo em que adapta o interior às necessidades atuais. “É possível conciliar preservação e modernização”, destaca.
Já a professora de Arquitetura e Urbanismo e Artes Visuais, Jeanine Mafra Migliorini, chama a atenção para um problema central: a ausência de uma cultura de preservação consolidada. “A população, em geral, não compreende por que esses bens devem ser conservados, e isso impacta diretamente no cuidado com eles”, explica.
Ela também aponta a especulação imobiliária como um fator de pressão sobre o patrimônio. “Muitas vezes, uma edificação antiga é vista apenas como oportunidade de negócio. Isso gera mais lucro para poucos, mas menos história para a cidade, além de perda de identidade urbana”, afirma.
Apesar disso, Jeanine ressalta que o município ainda possui importantes exemplares preservados, tanto em nível local quanto estadual. Para ela, o desafio está em ampliar o olhar sobre o que deve ser considerado patrimônio e fortalecer a educação patrimonial. “Quando as pessoas se reconhecem nesses espaços, elas passam a defendê-los. A preservação deixa de ser individual e passa a ser coletiva”, diz.
Entre críticas, avanços e propostas, há um ponto de consenso entre especialistas e poder público: a preservação da memória de Ponta Grossa depende não apenas de recursos ou legislação, mas de uma mudança de mentalidade. Sem isso, a cidade corre o risco de continuar perdendo, aos poucos, parte de sua própria história.
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PRIMEIROS IMÓVEIS TOMBADOS EM PONTA GROSSA (1990)
CASA DA MEMÓRIA
Foi inaugurada em 1894, servindo de ponto terminal da Estrada de Ferro Paraná, fazendo a ligação Paranaguá-Curitiba e Ponta Grossa. Era o ponto de embarque e desembarque de passageiros e servia para o transporte de cargas. O prédio foi tombado como Patrimônio Cultural do Paraná em 1990.
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MUSEU CAMPOS GERAIS
Localizado na rua Engenheiro Schamber, o imóvel foi inaugurado em 1928 para ser a sede do Fórum. Em 1983, o prédio recebeu o Museu Campos Gerais da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Foi tombado como Patrimônio Cultural do Paraná em 1990. Atualmente encontra-se desocupado, em fase de reforma para receber novamente as instalações do Museu.
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ESTAÇÃO SAUDADE
Foi construída entre 1899 e 1900, justamente pela Estação Paraná não atender mais ao constante crescimento e movimento de passageiros e cargas. Destacou-se pelo seu porte e foi considerada uma estação de primeira classe. O prédio foi tombado, em 1990, como Patrimônio Cultural do Paraná. Atualmente abriga a unidade do Sesc Estação Saudade.
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MANSÃO VILLA HILDA
A casa foi construída em 1926 pelo alemão Alberto Thielen, industrial e comerciante, que se destacou na história da cidade. Homenageou a esposa nomeando a casa como Mansão Vila Hilda. O casarão de 600 metros quadrados, com influência da arquitetura francesa neoclássica e Art Noveau, possui dois pavimentos, onde um abrigava a família e o outro os serviçais. Foi tombado como Patrimônio Cultural do Paraná em 1990
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PROEX
Construído pelo alemão Guilherme Naumann, em 1906, o prédio localiza-se na Praça Marechal Floriano Peixoto, ao lado da Catedral. Foi tombado como Patrimônio Cultural do Paraná em 1990. São dois andares de construção, onde no térreo funcionava a loja de ferragens e no superior a moradia da família. O imóvel foi vendido em 1933 e abrigou diferentes atividades como os Correios, farmácia, faculdade e creche. Hoje o prédio pertence à Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), onde está a sede da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Culturais (Proex)
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COLÉGIO ESTADUAL REGENTE FEIJÓ
De estilo eclético, o imóvel foi inaugurado em 1924 para receber a Escola Normal de Ponta Grossa. Em 1939 se tornou sede do Ginásio Regente Feijó. Pelo colégio estadual passaram muitos personagens da história ponta-grossense. Foi tombado como Patrimônio Cultural do Paraná em 1990, ano em o prédio passou por completa revitalização, preservando suas características originais. Em 2002, o estabelecimento foi reinaugurado e segue ativo até os dias de hoje. O tombamento se deu por sua relevância arquitetônica, quanto pelo papel desempenhado na educação local.
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TOMBAMENTOS GARANTEM CONSERVAÇÃO E REESTRUTURAÇÃO DE IMÓVEIS
O tombamento de imóveis é um dos principais elementos para a preservação da cultura de um local. Em Ponta Grossa, atualmente, são 70 imóveis tombados. Os dados foram divulgados pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural (Compac) e pelo Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná (CEPHA).
O tombamento serve para auxiliar na conservação e reestruturação das edificações, para que elas não percam detalhes da sua estrutura original e não sejam demolidas.
A nível municipal, o Compac é o órgão responsável por discutir e decidir quais serão as edificações preservadas no município. Uma das etapas para o cuidado com os imóveis acontece através do processo de tombamento.
Entre os principais pontos em Ponta Grossa, estão a Estação Saudade, construída entre 1899 e 1900 e tombada como Patrimônio Cultural do Paraná em 1990, se tornando uma das primeiras no município a terem o título. Nesta semana, o Sesc começou a obra de instalação dos trilhos que receberão o trem. Desta forma, os populares que visitarem o espaço pelos próximos dias devem ver uma grande movimentação que transformará a estrutura em frente à plataforma da Estação Saudade. Com a instalação, serão 72 metros de trilhos para acomodar a locomotiva 250 e seu tender.
Conforme explica a prefeita Elizabet Schmidt, a preservação desses imóveis garante a manutenção da cultura da cidade, assim como o registro da história de mais de 200 anos.
Neste sentido, o município aparece com dois cenários distintos, entre locais, como a Estação Saudade, que passam por constatantes reformas e permanecem como símbolos de conservação em Ponta Grossa, e outros pontos que, apesar de serem reconhecidos historicamente, acabam sendo deixados de lado, em questão de melhorias e utilização.
Entre os bons exemplos, também vale ressaltar a Casa do Divino, uma propriedade particular leiga de culto ao Divino Espírito Santo, existente na área central.
O local deixou de ser apenas um local de culto e passou a ser reconhecida oficialmente como um patrimônio cultural de Ponta Grossa, tendo sido tombada em 2004. De acordo com o parecer dos conselheiros do Compac, a Casa do Divino possui valor arquitetônico, histórico e referencial como lugar de memória, e como patrimônio cultural intangível.
Já na questão de exemplos considerados abandonados, podemos citar o Hospital 26 de Outubro que, apesar de ter recebido uma nova pintura recentemente, poucas ações de manutenção foram percebidas ao longo dos anos.
O prédio foi tombado pela Coordenadoria Estadual do Patrimônio Cultural, em 2004, refletindo sua valorização para a história da cidade e também para o turismo, e como uma contribuição para a construção da identidade cultural. Porém, atualmente está em desuso.
Nesse sentido, como abordado no início do material, Ponta Grossa avançou na conservação de alguns patrimônios históricos nos últimos anos, entretanto, para uma cidade com tamanha história, ainda há pontos a melhorar, buscando manter viva a história não apenas dos locais citados, mas também daqueles que participaram da construção do município.