Ponta Grossa
Subutilização e alto custo inviabilizam gestão do Centro de Eventos
Tema foi discutido já na primeira sessão legislativa de 2026; proposta não é inédita, mas volta à pauta com possibilidade de conceder administração do espaço com prazo de 20 anos, com a possibilidade de prorrogação
João Bobato | 14 de fevereiro de 2026 - 06:50
O Centro de Eventos “Cidade de Ponta Grossa” pode passar por um processo de privatização. Ao solicitar a primeira sessão extraordinária de 2026, a Prefeitura Municipal de Ponta Grossa (PMPG) encaminhou à Câmara Municipal o Projeto de Lei 007/2026, que autoriza a concessão de uso onerosa do complexo à iniciativa privada, e a assim que a proposta entrou em pauta, os vereadores levantaram questionamentos sobre prazos, contrapartidas e preservação do caráter público do espaço.
À Redação do Grupo aRede, a prefeita municipal de Ponta Grossa, Elizabeth Schmidt (União Brasil), esclareceu algumas dúvidas sobre o projeto. Em justificativa, ela afirma que a concessão permitirá a ampliação de atrativos e a efetiva utilização do imóvel, que hoje mantém-se fechado durante longos períodos, mas excede em custos de manutenção. “Por anos, o Centro de Eventos vem sendo submetido a reformar paliativas que consomem milhões de reais”, explicou. Segundo Elizabeth, a proposta reorganiza o modelo de gestão para deixar de comprometer recursos públicos, gerar retornos à sociedade e servir ao interesse público com a garantia da realização de eventos no local.
A discussão não é exatamente nova. Ainda em 2017, a antiga Fundação Municipal de Turismo de Ponta Grossa (Funtur) estudava sugestões de privatização do espaço. Entre os argumentos da época, estava o custo de R$ 450 mil em consumo de água e luz por ano. Neste planejamento primário, a proposta de concessão seria de uma década. Entretanto, o projeto não se estendeu.
Já em 2019, um projeto que previa a transformação do local para outras finalidades, o Projeto de Lei 281/2019, de autoria do ex-prefeito e atual deputado Marcelo Rangel (PSD) propôs a instalação do Polo Tecnológico de Ponta Grossa no imóvel, mas foi vetado pelo Legislativo. Em 2023, o mesmo projeto voltou a ser pauta de discussão na Câmara, mas foi arquivado na sequência. Essas fases anteriores do debate revelam que o potencial do Centro de Eventos está constantemente sendo avaliado pelos representantes municipais, e em 2026, este assunto é retomado com o novo projeto.
INFRAESTRUTURA
A estrutura física do Centro de Eventos reforça o peso da discussão. Com área total de 227.964 m², o complexo reúne pavilhões, palcos e camarins, um espaço interno com capacidade para cerca de 5.000 pessoas e uma área externa que pode receber até 40.000 pessoas, além de duas praças de alimentação (1.250 m² cada), restaurante, espaços para atendimentos de saúde, escritórios e estacionamentos. Estas características tornam o espaço apto a feiras, exposições setoriais e shows de grande porte, a exemplo dos tradicionais eventos realizados pelo Município: Münchenfest, a Festa Nacional do Chope Escuro; Exposição Feira Agropecuária e Industrial (Efapi); Festa da Uva (Fesuva); Fé Ponta Grossa; Festival de Balonismo; e até mesmo eventos universitários promovidos pela comunidade acadêmica da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).
A prefeita Elizabeth Schmidt (União Brasil), autora do PL 007/2026, afirma no texto que a concessão não configura venda do patrimônio, mas sim a transferência da gestão por prazo determinado de 20 anos, com a garantia da incorporação de melhorias ao patrimônio público ao final do contrato, que pode ser prorrogado. Pelo modelo previsto, o concessionário assumiria despesas operacionais e executaria investimentos previstos no edital, enquanto o Município manteria a função de fiscalizar o contrato. À Redação, a prefeita justifica que, nos moldes atuais, o Centro de Eventos representa um elevado custo de manutenção, baixa eficiência operacional e subutilização crônica para o Município.
Em entrevista à equipe de Jornalismo do Grupo aRede, o secretário municipal de Turismo, Paulo Stachowiak, declarou apoio à proposta como caminho para garantir melhorias estruturais e ampliar a captação de eventos, ressaltando o potencial do equipamento para movimentar a economia local. Projeções da Secretaria indicam que o calendário de eventos previsto para 2026 pode movimentar mais de R$ 10 milhões na economia de Ponta Grossa, e Paulo garante que os grandes eventos realizados no local em pauta estão resguardados pelo projeto de lei, além de compartilhar que já está tratando a organização da Münchenfest, prevista para o fim do 2º semestre.
Por outro lado, a Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Ponta Grossa (Acipg), órgão da sociedade civil organizada que representa o setor produtivo no município, demonstra cautela com a proposição. “Somos favoráveis a tudo aquilo que represente um avanço para o desenvolvimento da cidade”, diz Giorgia Bin Bochenek, presidente da associação, “No entanto, entendemos que medidas dessa natureza precisam ser amplamente debatidas com a sociedade”, diz. A gestora da instituição considera fundamental o esclarecimento de dúvidas e promoção de ajustes solicitados pela comunidade, que devem ser considerados para construir a melhor solução.
LEGISLATIVO EXIGE ATENÇÃO
Na Câmara, o debate tem sido acompanhado com atenção. O relator da Comissão de Obras e Serviços Públicos, vereador Professor Careca (PV), já se posicionou favoravelmente ao projeto, afirmando em seu parecer que reconhece a oportunidade, relevância e conveniência para a aprovação do projeto. Por outro lado, o vereador Ricardo Zampieri (PL), indicado presidente da Comissão de Agricultura, Indústria e Comércio, disse à reportagem que possui questionamentos referentes ao volume de recursos que o possível contratante poderá investir no Centro de Eventos, além de reforçar o caráter público do espaço. “O local é voltado à população, e a nossa função, enquanto vereadores, é representá-la”, diz.
O presidente do Legislativo, vereador Julio Küller (MDB) destacou que o projeto integra uma pauta decisiva para a gestão municipal, e é papel do Legislativo garantir que o debate seja técnico e transparente. Para ele, este e outros projetos que foram debatidos na primeira sessão do ano são focados no desenvolvimento de Ponta Grossa, e portanto, é preciso ter cuidado na análise e encaminhamento dos projetos. Conforme informações apuradas pela Redação, a Comissão de Redação, Justiça e Legislação, presidida pelo vereador Léo Farmacêutico em 2026, optou por dar o parecer dentro do prazo previsto regimentalmente, até o início de março. Membro da comissão, o vereador Guilherme Mazer (PT) informou que alguns vereadores já sinalizaram o interesse em indicar emendas para adaptar o projeto de lei.
NOVAS DISCUSSÕES
O texto deve receber novos pareceres a partir da retomada das sessões, para, então, retornar à discussão no Plenário de Ponta Grossa. Por enquanto, os vereadores e o Poder Executivo seguem na avaliação da melhor forma para dar continuidade a esta importante proposta que define o futuro de um espaço que fomenta a cultura, turismo e economia da cidade há décadas. Os usuários do espaço, o qual são a própria população ponta-grossense, também são fundamentais para este debate: o que é preciso para tornar o Centro de Eventos em um local com maior acessibilidade, de infraestrutura moderna e ampla oferta de entretenimento? Aprovado ou não, investidores e produtores de eventos do setor público e privado podem utilizar destes critérios para otimizar o espaço independente da gestão.