Debates
Ser professor não é vocação!
Da Redação | 02 de setembro de 2015 - 04:03
A perspectiva de entender a profissão docente como vocação está ligada à concepção conservadora e ultrapassada da primeira metade do século XX, quando, ao adentrar no mercado de trabalho, a mulher teria uma profissão “digna”, ao passar da condição de “rainha do lar” para a de “educadora da infância”. Nessa perspectiva, o exercício do magistério era entendido como um prolongamento das funções maternas e não representava risco aos interesses sociais de uma sociedade machista que detinha o poder político no país.
Essa forma de entender profissão docente se perpetuou e ainda se mostra presente no senso comum e nas ações do poder público (e mesmo no discurso de eventuais formadores de professores), quando a ideia de uma profissão vocacionada, e que, portanto, não precisa ser bem remunerada e que dispensa a formação em nível superior.
A superação da perspectiva de vocação e a defesa da dos professores tem sido foco de muitas discussões, pesquisas acadêmicas e ações políticas. No atual estágio de desenvolvimento social, econômico e educacional, a escolha da profissão de professor vai muito além da simples ideia de vocação, pois trata-se de garantir a profissionalização docente a patamares cada vez maiores, a fim de se alcançar uma melhor qualidade na educação.
Professores e professoras são profissionais da educação, responsáveis pela educação sistematizada de crianças, jovens e adultos. Para desenvolver essa atividade laborativa, necessitam de formação adequada que possibilite a superação da simples atividade pragmática, para alcançar a perspectiva de pensar formas de intervir e modificar a realidade.
Mais uma vez questionamos a decisão tomada pelo governo municipal, respaldada pela Secretaria Municipal de Educação e pelo Sindicato dos Servidores (Sindiserv), de que é dispensável a formação em nível superior, pois a lei admite o nível médio apenas como excepcionalidade. O argumento de que seria inconstitucional não permitir a realização de concurso público por parte daqueles que possuem apenas o magistério não se sustenta, uma vez que a Meta 15, do Plano Nacional de Educação (Lei nº 13.005/2014) e do Plano Municipal de Educação (Lei Municipal nº 12.213/15) prevê que seja assegurado que todos os professores e as professoras da Educação Básica possuam formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que atuam. No caso dos professores municipais, que atuam na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, o coerente seria a exigência de formação em curso de Pedagogia.
Soma-se ao discurso de tratar a atuação do professor como vocação o fato de ainda persistem as visões romantizadas em relação ao professor e o desempenho de suas funções como trabalhador. Esse discurso atende à expectativa de elevação da autoestima e de massagem do ego como consolo e motivação ao indivíduo no exercício de suas atribuições, porém, camufla a realidade das condições de trabalho, o reconhecimento da carreira desse profissional e o crescente sucateamento da educação.
Trata-se de discursos vazios, pois, cada vez mais os índices de abandono da profissão docente aumentam, assim como aumentam os índices de adoecimento dos professores, em boa parte em consequência da falta de estrutura e do stress da rotina da sala de aula. Destaca-se, também, o fato de que não faltam professores formados, mas sim, de abandono da profissão.
Nesse sentido, fica o questionamento: Por que mesmo diante de inúmeras pesquisas e dados que apontam esse diagnóstico em relação aos professores/as, os agentes públicos não discutem as questões estruturais e se focam nas questões periféricas?
Como possibilidade de resposta a esse questionamento, analisamos os discursos políticos em torno à aprovação do plano de carreira dos professores/as na cidade de Ponta Grossa, bem como o plano de carreira em si, confirmamos que interessa aos gestores e legisladores que se fortaleça a crença na vocação, pois somente por meio desse convencimento é que um professor/a continuará na profissão, uma vez que reconhecimento e valorização pelo desenvolvimento do trabalho ainda não é uma realidade.
Portanto, a defesa do trabalho do professor como vocação é o suspiro final de um sistema educacional refém das políticas neoliberais!
Gisele Masson, Simone Flach e Regis C. da Costa
gimasson@uol.com.br, eflach@uol.com.br e rclementecosta@yahoo.com.br
*Autores são professores da Universidade Estadual de Ponta Grossa