Debates
A solução para as cidades está na natureza
Da Redação | 29 de agosto de 2025 - 01:22

Por Juliana Baladelli Ribeiro
Até 2050, cerca de 70% da população global viverá em áreas
urbanas. A expansão das cidades tende a agravar os impactos da mudança do clima
e afetar ainda mais as populações que vivem em regiões vulneráveis, como
encostas, margens de rios e zonas costeiras. Ondas de calor, escassez de água,
enchentes, perda de infraestrutura, serviços públicos sobrecarregados e aumento
das desigualdades sociais serão desafios crescentes para os centros urbanos em
um mundo cada vez mais quente.
É preciso repensar o modelo de desenvolvimento. A
urbanização desordenada, que ignora a lógica dos ecossistemas naturais,
compromete não apenas a qualidade de vida, mas também os serviços ambientais
essenciais à sobrevivência humana. Cidades impermeabilizadas, com áreas verdes
escassas e insensíveis à degradação de ecossistemas naturais costeiros como
manguezais, restingas e recifes de corais vêm enfrentando dificuldades
crescentes para lidar com os extremos climáticos.
É nesse cenário que ganham força as Soluções Baseadas na
Natureza (SBN) — abordagem que alia conservação, restauração ecológica e
tecnologias inovadoras baseadas em infraestrutura verde para enfrentar os
desafios urbanos. Além de economicamente vantajosas em relação às obras de
engenharia convencional, essas soluções representam uma oportunidade eficaz de
transformar o modelo de desenvolvimento urbano no Brasil.
Recuperar áreas degradadas, ampliar a arborização, restaurar
nascentes e mananciais, conectar parques e expandir áreas verdes em territórios
periféricos significa agir simultaneamente por justiça climática, saúde
coletiva, biodiversidade e segurança hídrica. Mas as SBN vão além: podem
complementar sistemas de drenagem urbana com o uso de jardins de chuva e praças
úmidas e até contribuir no tratamento de efluentes, como no caso de jardins
filtrantes, tecnologia que faz uso da natureza para devolver água limpa aos
sistemas naturais.
A adaptação climática exige um esforço coordenado entre os
diferentes níveis de governo. As prefeituras têm papel muito relevante, pois
são responsáveis por políticas públicas de saneamento, drenagem, mobilidade,
habitação e proteção social, todas profundamente impactadas pela mudança do
clima. Ações locais são essenciais e são onde a mudança de paradigmas se
concretiza, mas só ganham escala regional, nacional e global com uma
coordenação macro, acesso a financiamento climático e suporte técnico.
Nesse contexto, o papel de bancos e agências de
desenvolvimento é estratégico. Ao apoiar projetos urbanos que integram SBN,
essas instituições não apenas fomentam a adaptação climática, como também
promovem equidade social e valorizam territórios frequentemente expostos a
grandes riscos. Parques urbanos, telhados verdes, hortas comunitárias, drenagem
sustentável e corredores ecológicos são infraestruturas do futuro e precisam
ser tratadas como tal.
A quarta carta da presidência brasileira da COP30 à
comunidade internacional, divulgada em junho, durante a Conferência do Clima da
ONU em Bonn, na Alemanha, reforça essa perspectiva. Ao propor a construção de
uma agenda de ação com seis eixos temáticos, o documento apresenta um “celeiro
de soluções” que conecta ambição climática a desenvolvimento socioeconômico. Um
dos eixos centrais é justamente a construção de resiliência em cidades,
infraestrutura e água, com foco no fortalecimento das capacidades locais, no
planejamento urbano integrado e no aumento de investimentos em soluções
sustentáveis e inclusivas.
O texto também destaca a importância de avançar em temas
estruturantes, como a definição de indicadores para a Meta Global de Adaptação
(GGA, sigla em inglês), e defende que a adaptação ganhe centralidade nas
negociações internacionais. Esse é um ponto crucial: além de metas globais,
espera-se que cada país elabore e implemente seus Planos Nacionais de
Adaptação, contemplando os governos subnacionais, com recursos e condições
reais para que os municípios desenvolvam e executem suas estratégias.
Mesmo que o mundo ultrapasse temporariamente o limite de
1,5°C de aquecimento traçado pelo Acordo de Paris, como indicam relatórios do
Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e do Programa das
Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), ainda é possível evitar o colapso
urbano e social. Isso exige, no entanto, ação imediata e corajosa. O risco de
crises alimentares, deslocamentos forçados, eventos extremos e perda de
biodiversidade aumenta a cada ano. As consequências de um planeta mais quente
não podem ser usadas como desculpa para a inação.
Com a realização da COP30 em Belém, o Brasil tem a
oportunidade histórica de liderar uma agenda climática ousada, com olhar para
os territórios e com base científica. As cidades brasileiras, apesar de todos
os seus desafios, ainda podem se tornar vitrines de inovação e resiliência
climática. Mas, para isso, é preciso reconhecer definitivamente a natureza como
parte da solução.
*Juliana Baladelli Ribeiro é bióloga, especialista em Soluções Baseadas na Natureza e gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Ela integra o grupo de 78 especialistas globais escolhidos pela ONU para estruturar um conjunto de indicadores de adaptação às mudanças do clima a ser seguido pelos países.